Contario de inverno 26
25 Olha as eugênias
Olha as eugênias. É para elas que cantamos. São um doce. E nós, os passarinhos. Foram estas as notas escritas no caderno de bordo. Quem entenderia tal código? Quem teria interesse em o decifrar? Onde estava teu pensamento, Maja Wos, enquanto miravas o mar?
Da escotilha se via Phoebe, um fiapo na noite coalhada de estrelas. As aguas, tingidas de seles. Os instrumentos, na cabine de comando, informavam distâncias, correntes, percalços, outros navios, impunham gráficos, cálculos, precisão, ajustes de rota. Cominavam permanecer desperto, atento, vigilante. As antecipações de intempéries eram possíveis, porem se contava com os segredos das marés e lunações. Poseidon poderia decretar que as aguas lhe pertenciam, enfurecer-se de súbito. Afrodite choraria, a reclamar um rasgo no vestido de espumas, ou de um coro de golfinhos fora do tom. Cintia saudava a todos com reduzido humor, que a respeitassem. Endimião, sentado sobre um rochedo, empunhava a teorba e dizia lirismos à amada. As Leis seriam cumpridas, quer os humanos quisessem ou não.
Lech raspou, de leve, a porta da cabine, tirando o oficial de navegação dos seus devaneios perigosos. Por que Maja chamou àquele gato tricolor pelo nome do deus polonês, não soube dizer. Nunca contou a ninguém que lhe dera nome. À companheira, chamou Lada. Os conhecimentos de colégio que tinha, a respeito de mitologia eslava, ou outras, não eram suficientes para que tecesse argumentos em torno dessa ou daquela crença. Apenas admitia seus símbolos, enriquecia com eles os restritos horizontes dominados, domados.
Interessante falar de um marinheiro e seus horizontes. Era ver se entendia um pouco de si, feito uma confusão de casas, pátrias, idiomas e gostares. O gato não queria saber de nada disso, procurava o intruso que chegou na hora da partida e tinha o dom impressionante de se manter invisível e roubar a atenção do chef Malika, bem como os melhores acepipes. Fato, Lech tinha fome e sabia que aquele homem, o da cabine, era a chave para apaziguar seu pequeno estomago. Como era um gato sem dono, não levou em consideração a afabilidade com que Maja se abaixou e acarinhou cada orelhinha, o pescoço, murmurou melodia tão distante, cujo teor excedia as coisas do mundo. Eriçou-se a pelagem, o ronrono veio com gosto, seguido de uma leve patada no sapato, a avisar que era urgente irem pedir comida no refeitório.
Entre enternecido e de mofa, Bar’ olhou aquela cena com inveja. Lembrou-se de um troll seu companheiro de pandegas, que assustava as babcia ao sovarem o pão. Sempre ganhava um, recém saído do forno. Sim, Bar’ viajara para muitas terras. O trasno tentou a tática uma ou duas vezes com uma matka. Mais tarde, entendeu que se tratava de densidade distinta, a matéria de que era feito impedia comunicações vulgares, fato que lhe foi afinando o caráter.
Por conta de sua distinção, a qual desconhecia, para não explodir em vaidades, Bar’ inspirou poetas e ainda acontecia assim. Seu Tonico, o burro, era um deles, um cordeleiro, também ele feito de outro tipo de matéria que não permite, ainda, traduzirmos seus trabalhos de vulto.

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