Vértebra 48
dt4 saudade, ou o padroado régio ou imaginário de Ain
O saudade entoava seu intervalo cromático com tanto sentimento que doía o peito. Aín parou sob a árvore onde ele cantava. Ficou um tempo envolvido naquela atmosfera melancólica. Para não chorar, mordeu um caju. O barranco tinha capim gordura, Seu Tonico ficou satisfeito.
Os dias seguiam sem chuva, o que facilitava a caminhada dos amigos. Não havia, como nunca houvera, pretensão de pregar essa ou aquela crença. O frei apenas doava uma palavra boa, uma orientação de higiene quando carecia, saúde quando ele podia animar, embora Aín não fosse modelo de asseio ou oratória. Foi a maneira encontrada para tornar mais leve a viagem. Ele ainda não sabia por que estava voltando ao seminário, ou como seria recebido. E o que faria ao chegar. Nos povoados em que havia um barbeiro, o frei raspava a cabeça, a barba rala e nem precisava pagar. Em um dos lugares fora uma moça a lhe banhar em uma tina, na porta da sua tapera. Ela, depois de lhe compor a figura como era possível, de dividir com ele os víveres, pediu consolo; Aín não pode dar. Passava por monge e então o deixavam em paz.
As quadras para as moças funcionavam em alguns trechos do trajeto; em outros, provocavam estranheza, como se ali não se falasse o idioma, como se não houvera retirantes ou futuras esposas. Aín tentou versos em tupi, em espanhol. Gostaria de saber holandês ou hebreu ou árabe, talvez funcionassem. Inventou um idioma sem significado prévio, com som sobre-humano. Causava correria, pedradas e pavor. Em alguns pedaços da caminhada ele teve muita fome, nada lhe davam. Muitos nada tinham a oferecer. A vegetação às vezes escasseava. Seu Tonico ia suportando, a vida lhe dera muito desses dobrões. O duende, que já vira deserto, sabia que poderia ser pior. Nem um pote de ouro pagaria por um gole d’água. Sentiu sede. Sentiu saudade de Monsaraz, do Lago do Alqueva, da Barceloneta. De olhar as beatas sobre o ombro de São Leonardo de Galafura. De rever as órfãs que lhe fizeram companhia no navio para Pernambuco.
Já nos arredores de Aguiarnópolis, manhã de sol, o burrico começou a zurrar de um modo curioso. Era como se quisesse conter o riso. E foi se rindo mais e mais até que, pela primeira vez, Aín viu aquela figurinha grotesca e simpática. Bar dançava no pó o que parecia ser uma rumba, ou cumbia. Cantarolava sem parar bemba, tu bemba colorá cerquita de los dos/ Celia, que llueve azúcar, los Van Van y el Guaguancó.[1] O trasno tentava conciliar vocábulos, ritmo, melodia e passos, tropeçando nos bicos das botinas em algum instante. A queda patética fazia lembrar os tolos da corte. Aín sentou em um tronco tombado, o riso querendo vir. Bar se deu conta da zomba e passou a chutar pedrilhos, enfezado. Se eu tivesse poder jogava feitiço, seus cretinos. Não era verdadeira a zanga e logo os três rolavam juntos, em pândega. Senza meta, senza parole o frei cantarolava e tentava imitar os passos do duende. E riam, vida ganha. O menino redemoinho veio ver a razão do alarde e levantou um poeirão que os pôs em voo durante alguns quilômetros. Quando pousaram em São Luiz tinham a boca seca e só se lhes via dentes e olhos. Riram mais ainda. Estavam na Ilha Upaon-Açu. Aproveitaram o mar por algum tempo. Fizeram uma pequena fogueira na areia. Tinham pão amanhecido, gramíneas. Passaram a noite a escutar a maré que não os alcançou. Aquele nada fazer, em alguns momentos, irritava o frei. Ofereceu-se para puxar as redes quando os pescadores chegaram. Ganhou uma posta que o alimentou até o jantar. Aín pediu orientação e seguiu a caminhada. Estavam próximos ao sertão de Pernambuco.
Alguns dos versos que inventara ficaram na memória. Aín os transcreveu. O caderno estava no fim. Não havia razão para investir em épicos, que sua vida era a mais anônima que ele conhecia. Talvez o trasno; talvez Yin-Yin, em sua prisão no Vale, causasse mais intriga em uma narrativa. Até Seu Tonico caminhador era mais interessante. O frei olhou os pés que, curiosamente, não estavam feridos. A sola, um cascão firme, sem rachaduras. Um manicure tivera pena e lhe cortara as unhas na última barbearia. Um alivio deixar os pés e as mãos mergulhados em água de aloe vera por um tempo. Aín escarafunchou seu íntimo, à procura de uma descrição, uma meditação. Nada. Agradecer? O sol, poder andar, comer sem passar mal, ter água para beber? O jegue companheiro? Aquele serzinho estranho que, mencionado a alguém, lhe açoitariam? Saber ler, escrever, contar? Não entrava na cabeça do frei o por que achar uma moça, montar casa, procriar, educar. Estudar, virar bispo? Para que? Ser pedreiro, carpinteiro, mesmo garimpeiro? Cantor, bardo? Ter um randevú, um lugar para dançar, beber e esquecer? Um rancho de macaxeira? Pescar? Caçar? Colher caju, coco, plantar cacau, cana? Havia algo no entanto, pelo que ele pagara seis colares de brilhante, suficientemente socado no fundo de uma pocinha em seu íntimo. Se, um dia, tal sorte lhe brilhasse novamente, teria se encontrado, poderia então morrer. Com essas linhas tortuosas, Ain fechou mais uma quadra antes de adormecer.
[1] Rosa, do álbum Sanz
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