domingo, 10 de dezembro de 2017

Dezembro de ouvir




Os ouvidos de tantas vidas
O mistério dos desejos
O vento das bruxas
As palmas das mãos,
A umidade dos santuários
O coração,
O arquipélago, Galápagos.
O cumprimento da missão!
O fado dos dias
Infinita saudade
O encontro entre água e deserto
Feitiçarias
A lava, o petróleo. O éter.
O cumprimento da missão!
A fala dos mortos
Os meses por saber
Erupções e cinzas
A chama confessa
A memória das coisas
As mutações
Os vulcões do mundo, o som.
O poema consente em cumprir-se
Os personagens já não choram...
Que seja leve

Que seja leve

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

contos atormentados de novembro e outros tempos


os contos atormentados dos últimos dias
convidam a um cinema
ao capucino
ao olhar demorado sobre um livro de arte
quem sabe abrir novas frentes de trabalho
quem sabe seguir, estrada  afora
e ir olhar o mar
antes de os sessenta anos
baterem à porta, 
quando a manhã chegar,
os contos assombrados dos últimos dias
convidam ao movimento
sobre rodas
ao olhar demorado no fundo dos olhos
quem sabe ir ao aeroporto
antes do pouso das naves
do check in 
afinal virá o esperado encontro
é o que aponta a torre de comando
os contos de natal dos últimos dias
convidam uma voz dentro
a dizer os amores bulevares
das vias de Amsterdam

escrever contos atormentados não sei
a gênese da poesia menos
sei que a palavra incide sobre meus dedos
e eu comemoro com ela
o saldo das minhas injunções

sábado, 18 de novembro de 2017

novembro musical




Sem alarde
O memorial dos olhos quentes da mãe
Nenhuma culpa
História
Os encontros soprosos. Dava gosto!
Como tecer um ponto onde a linha avança
Onde as águas puras de uma chuva de verão
Noites em que os versos inventavam piquete
Talento, sem alarde.
Indelével
Guardava, na voz, um andarilho metropolitano

Ou um presépio de delicadeza.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Nara, escutas antigas



A música das pinturas
alvoradas incontáveis
olhos de moça
voz afagável
mexericos
paixões sob o tapete
o virginal
o adultério
moral de pôlderes
sol da manhã
janela
moços
palmatórias
um anjo guardião
o tempo
Nassau
A devoção
Um quadro de Vermeer


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

chuvas de outubro




lá fora a chuva serena
entoa
seu faz um córrego
no cantinho do asfalto
cá dentro sou eu
sem chuva
sem escutas do mar
a madrugada mareja
a vida de zás traz
desastradas folhas
visitadas
dos dois lados
amados
mal chegados ao chão
sou eu não
em trem na contramão
um tiro de raspão
rimas redivivas
de pescas de outras eras
sou relíquia
despejo e vão
lá fora a chuva
os pingos
os gatos
os ossos
e um lampião

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Nossa Senhora, todas elas






Nossa Senhora da lama
Nossa Senhora do rio
Nossa Senhora que adentrou floresta
E cunhou nas pedras limosas os caminhos das desovas
Nossa Senhora que banhou os mantos das entradas
Das demências, das fugas, das desavenças, das matanças
E os deu a São José para pendurar
Que plantou açucena sobre os sambaquis
E orquestrou o canto alegre das ararinhas azuis
Nossa Senhora
Senhora dos livramentos
Nossa Senhora da Anunciação
Nossa Senhora clemente e olorosa
Cuida de nos.
Cuida dos amores que eu pus no igarapé,
Na foz do Solimões,
Amores que eu atendo como quem embala um filho santo
E exponho a mercê do Teu amor.
Cuida de nos, Santa Mãe.
Conduz a nossa barca ao mar da redenção.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

verso bordado


Resultado de imagem para bordados



Lá fora a luz do dia, baça.
Tu me disseste qualquer desafeto, verso
E foste embora sem adjetivo que se interpusesse.
Eu, às voltas com ironias de Machado de Assis,
Acostei-me, soltei o lápis e suspirei.
Às vezes, compor versos é como esperar geada.
Um vento ribeiro, de cor incerta
Esfriou-me os pés e o pescoço.
A poesia das coisas como que me deu as costas.
Investiguei, dentro, as possibilidades:
Uma tesourinha de aparar bordado;
Um linho amarrotado, um rascunho de flor;
O mutismo das palavras, sua ação simplória.
As horas, que passam mesmo que o pêndulo pare,
Brincavam de cantar paródias não ortodoxas
Sobre a vida que continua, os universos dissolventes
E toda essa discussão
De filósofos, cientistas, religiosos e,
Ouso insuflar,
Alienistas.
‘O orvalho fez coberta nas folhagens’
Já versava em outro texto muito ruim.
Que sim, vai-se avaliando o trabalho diário
E a maioria dos dias se joga ao fogo...
Estranho amor, ou dor, ou desejo
Dispôs mais este verso sem rima para ‘im’.

Dezembro de ouvir

Os ouvidos de tantas vidas O mistério dos desejos O vento das bruxas As palmas das mãos, A umidade dos santuários O coraç...