sábado, 18 de novembro de 2017

novembro musical




Sem alarde
O memorial dos olhos quentes da mãe
Nenhuma culpa
História
Os encontros soprosos. Dava gosto!
Como tecer um ponto onde a linha avança
Onde as águas puras de uma chuva de verão
Noites em que os versos inventavam piquete
Talento, sem alarde.
Indelével
Guardava, na voz, um andarilho metropolitano

Ou um presépio de delicadeza.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Nara, escutas antigas



A música das pinturas
alvoradas incontáveis
olhos de moça
voz afagável
mexericos
paixões sob o tapete
o virginal
o adultério
moral de pôlderes
sol da manhã
janela
moços
palmatórias
um anjo guardião
o tempo
Nassau
A devoção
Um quadro de Vermeer


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

chuvas de outubro




lá fora a chuva serena
entoa
seu faz um córrego
no cantinho do asfalto
cá dentro sou eu
sem chuva
sem escutas do mar
a madrugada mareja
a vida de zás traz
desastradas folhas
visitadas
dos dois lados
amados
mal chegados ao chão
sou eu não
em trem na contramão
um tiro de raspão
rimas redivivas
de pescas de outras eras
sou relíquia
despejo e vão
lá fora a chuva
os pingos
os gatos
os ossos
e um lampião

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Nossa Senhora, todas elas






Nossa Senhora da lama
Nossa Senhora do rio
Nossa Senhora que adentrou floresta
E cunhou nas pedras limosas os caminhos das desovas
Nossa Senhora que banhou os mantos das entradas
Das demências, das fugas, das desavenças, das matanças
E os deu a São José para pendurar
Que plantou açucena sobre os sambaquis
E orquestrou o canto alegre das ararinhas azuis
Nossa Senhora
Senhora dos livramentos
Nossa Senhora da Anunciação
Nossa Senhora clemente e olorosa
Cuida de nos.
Cuida dos amores que eu pus no igarapé,
Na foz do Solimões,
Amores que eu atendo como quem embala um filho santo
E exponho a mercê do Teu amor.
Cuida de nos, Santa Mãe.
Conduz a nossa barca ao mar da redenção.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

verso bordado


Resultado de imagem para bordados



Lá fora a luz do dia, baça.
Tu me disseste qualquer desafeto, verso
E foste embora sem adjetivo que se interpusesse.
Eu, às voltas com ironias de Machado de Assis,
Acostei-me, soltei o lápis e suspirei.
Às vezes, compor versos é como esperar geada.
Um vento ribeiro, de cor incerta
Esfriou-me os pés e o pescoço.
A poesia das coisas como que me deu as costas.
Investiguei, dentro, as possibilidades:
Uma tesourinha de aparar bordado;
Um linho amarrotado, um rascunho de flor;
O mutismo das palavras, sua ação simplória.
As horas, que passam mesmo que o pêndulo pare,
Brincavam de cantar paródias não ortodoxas
Sobre a vida que continua, os universos dissolventes
E toda essa discussão
De filósofos, cientistas, religiosos e,
Ouso insuflar,
Alienistas.
‘O orvalho fez coberta nas folhagens’
Já versava em outro texto muito ruim.
Que sim, vai-se avaliando o trabalho diário
E a maioria dos dias se joga ao fogo...
Estranho amor, ou dor, ou desejo
Dispôs mais este verso sem rima para ‘im’.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

o novelo ou a passagem das horas


                                                      tela de Inha Bastos


Agressividade, tristeza, medo, alegria
Emaranhados.
O gato faz trégua.
Joga o novelo de um lado a outro
Onde o possa alcançar,
Deitado sobre o tapete.
O fio de versos, descabelado,
Ronrona ao gato
Gratidão e capricho.
Espelho.
O comportamento? É de encolher os ombros.
O novelo tem as mãos vazias.
Que esperam, gato e fio?
Outro aforismo,
A tríplice entente
Um concílio.
As condutas sociais ao sabor das patas.
Um calor antigo, íntimo.
Atenção.
Calados nas artes, fio e lauda.
Nada impede,
Construir pequenas manufaturas artísticas
Poucos minutos,
Incipientes que sejam,
Uma cena verde...
O gesto, ainda tosco, consente usar mais um tubo de tinta azul.

Alguém sequestra a psique de alguém.
Os humanos são loucos.
Hades e Perséfone.
Na meada, tarôs se confundem.
Quantas almas aflitas
A ocupar o tempo
Com a memória
Dos gatos e suas doçuras.
Verdes, amarelos, um caramelo sujo.
A pata direita move-se como pétala
Milênios expressivos.
Agressividade, tristeza, medo, alegria
Emaranhados.
O gato se levanta
E vai tomar sol.




domingo, 3 de setembro de 2017

roda dos curió



curió de cativeiro
imitando
improvisando
pio, pio, pio, pio
cacos de redondilhas
vão-se somando
dolentes
doridas
depoimentos de migrações
atavismos
descrição das sementes
aforismos
pio, pio, pio, trinados compridos, pio, pio, trinados compridos
cantigas doadas por Deus
ah, lírios do campo
do orvalho matutivo
dos voos sem fim
aqueles cativos
bicam seus potes de alpiste
sim, não, sim, sim
pio, pio, trinados compridos, pio, pio
lembrança serena
de provas e expiações
pio, pio, tuim, pio


novembro musical

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