segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Nossa Senhora, todas elas






Nossa Senhora da lama
Nossa Senhora do rio
Nossa Senhora que adentrou floresta
E cunhou nas pedras limosas os caminhos das desovas
Nossa Senhora que banhou os mantos das entradas
Das demências, das fugas, das desavenças, das matanças
E os deu a São José para pendurar
Que plantou açucena sobre os sambaquis
E orquestrou o canto alegre das ararinhas azuis
Nossa Senhora
Senhora dos livramentos
Nossa Senhora da Anunciação
Nossa Senhora clemente e olorosa
Cuida de nos.
Cuida dos amores que eu pus no igarapé,
Na foz do Solimões,
Amores que eu atendo como quem embala um filho santo
E exponho a mercê do Teu amor.
Cuida de nos, Santa Mãe.
Conduz a nossa barca ao mar da redenção.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

verso bordado


Resultado de imagem para bordados



Lá fora a luz do dia, baça.
Tu me disseste qualquer desafeto, verso
E foste embora sem adjetivo que se interpusesse.
Eu, às voltas com ironias de Machado de Assis,
Acostei-me, soltei o lápis e suspirei.
Às vezes, compor versos é como esperar geada.
Um vento ribeiro, de cor incerta
Esfriou-me os pés e o pescoço.
A poesia das coisas como que me deu as costas.
Investiguei, dentro, as possibilidades:
Uma tesourinha de aparar bordado;
Um linho amarrotado, um rascunho de flor;
O mutismo das palavras, sua ação simplória.
As horas, que passam mesmo que o pêndulo pare,
Brincavam de cantar paródias não ortodoxas
Sobre a vida que continua, os universos dissolventes
E toda essa discussão
De filósofos, cientistas, religiosos e,
Ouso insuflar,
Alienistas.
‘O orvalho fez coberta nas folhagens’
Já versava em outro texto muito ruim.
Que sim, vai-se avaliando o trabalho diário
E a maioria dos dias se joga ao fogo...
Estranho amor, ou dor, ou desejo
Dispôs mais este verso sem rima para ‘im’.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

o novelo ou a passagem das horas


                                                      tela de Inha Bastos


Agressividade, tristeza, medo, alegria
Emaranhados.
O gato faz trégua.
Joga o novelo de um lado a outro
Onde o possa alcançar,
Deitado sobre o tapete.
O fio de versos, descabelado,
Ronrona ao gato
Gratidão e capricho.
Espelho.
O comportamento? É de encolher os ombros.
O novelo tem as mãos vazias.
Que esperam, gato e fio?
Outro aforismo,
A tríplice entente
Um concílio.
As condutas sociais ao sabor das patas.
Um calor antigo, íntimo.
Atenção.
Calados nas artes, fio e lauda.
Nada impede,
Construir pequenas manufaturas artísticas
Poucos minutos,
Incipientes que sejam,
Uma cena verde...
O gesto, ainda tosco, consente usar mais um tubo de tinta azul.

Alguém sequestra a psique de alguém.
Os humanos são loucos.
Hades e Perséfone.
Na meada, tarôs se confundem.
Quantas almas aflitas
A ocupar o tempo
Com a memória
Dos gatos e suas doçuras.
Verdes, amarelos, um caramelo sujo.
A pata direita move-se como pétala
Milênios expressivos.
Agressividade, tristeza, medo, alegria
Emaranhados.
O gato se levanta
E vai tomar sol.




domingo, 3 de setembro de 2017

roda dos curió



curió de cativeiro
imitando
improvisando
pio, pio, pio, pio
cacos de redondilhas
vão-se somando
dolentes
doridas
depoimentos de migrações
atavismos
descrição das sementes
aforismos
pio, pio, pio, trinados compridos, pio, pio, trinados compridos
cantigas doadas por Deus
ah, lírios do campo
do orvalho matutivo
dos voos sem fim
aqueles cativos
bicam seus potes de alpiste
sim, não, sim, sim
pio, pio, trinados compridos, pio, pio
lembrança serena
de provas e expiações
pio, pio, tuim, pio


sábado, 2 de setembro de 2017

desconcertados



ALMA - Atacama, Chile


o tadinho do texto está vazio de gesto
era pra ser um telescópio
irradiar mensagem de paz
em conexão com o ALMA
em não podendo
ser melhor,
mantemos o cerne de amor:


Aquela terrina azul
Aquele fundo de mate
Aquele sorriso suspenso
Se a ilusão ciscava perto
O coração cantava, é certo
Era tudo e era só
Aquela pele
Aquele fundo azul
Aquele suspender
Se o tambor soava, é certo
O coração era tudo
Acabou mudo e era só
E então
Aquele acerto em versos
A concórdia
A balbúrdia
O começo
Não é tudo e só



quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A arenga de Isis

 
bordado de Thayana


Murmura a noite. Por Osíris!!
Ouve, que és tu Isis, a cantar o ambarino sobre bordão:
Responde, ó faustoso címbalo de Ápis,
Tens as musas suspensas pela mão.
É tarde já, a madrugada saúda tal voz.
Diz, ó Isis, elegias de aliciar os deuses
E coroas de sempre-vivas o samovar de Zaferan
Cantas, sôfrega, Isis. Por Belenos!!
Mais zéfiro a cada estrofe.
Pões a palma sobre o regaço desnudo
Onde a curva lasciva mais descai
Ris, triste até, de tanta verruga que tens
Fazes um carinho desavisado sobre o rosto gasto
E lembras os anos em que pêssegos sorriam de pejo
Dois versos em branco         
O Anjo faz da asa uma concha e guia a mão
Zílex e Vangarden a repicar o carrilhão.
A noite, metáfora, jura ambrosias. Isis a cantar.
Entregas tua face, teu fastio e amargura
Gelo seco na varanda e rubi.
E tarde já, a madrugada te saúda, ó Isis que canta.
Sabes que anseias chamar alguém que não vem;
O teu morfeu dos cicloramas.
Trauteias essas galanterias greco-egípcias por não poder chorar
O amor philia a te afligir, platônico
Um rumor dos mares de navegações primevas
Teu canto já não soa
Recôncavo dos mavericks havaianos
Tu que és cristalinas águas azuis.
Nenhum farol te dará guarida, deusa dos nadas...
Atravessas solitária a fímbria da vida
Sem vintém e gentilezas
Curva-te, dama do futuro!
O farol desponta no horizonte
No momento, só devo mirar-te
Tonta e cantante!

Onde foi que achei tua égide, ó Isis?

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Agostinos




     Patagonia



O frio contente de agosto
Invade as frestas, enregela
Encolhe os ombros

Resta aos mortais saltitar
A zarzuela na noite que nasce
crotalos, cristianos.

A mão acaricia o tzoura.
O toombi recita seu do.
Duas vozes.

A hora é toda bordadura e brilho chumbo.
No véu de névoa 
Quero-queros descobrem seu ninho

Uma ciranda de três marias dá voltas
Dá voltas
Dá voltas

Um telefone toca em Órion.
As circes escutam a trova
São sedas de seus penhoares

Para compor a cena
Luuuuuu.... uuuuuuuuu...
Um barco, nau.

O mecanismo dos relógios marca repetições sem fim,
Iiiiiiiiiiiiihhhhhhhhh
Primeiro o doente, depois, a doença, saldo

O frio que as cobertas não suportam
Que o fogo não aquece
uiva das galés.

Princesa Zur, em algum canto de neve dorme,
frotas angélicas ciciam.
Um arremedo de aurora rutila no horizente anterior,

Pontejado de estalactites.
O dia promete umidade e friagem,
"Ua nai la la la ti o ú ú ú ururu.  Kio kio ti nana… tu tururu…"   

Os primeiros homens jogam seus embornais ao ombro
E seguem pelo campo, 
Não sem antes dobrar o joelho

Agradecem a vida que vem.
Não virá o sol para aquecer os pastos hoje.
Não virá o mormaço para a preguiça do meio-dia

Nas carpintarias o canto do serrote estridula.
A alma revoa, o corpo distrai, se torce em arrepio.
Deméter chora por Perséfone.

Hades, inflexível, comanda o inverno.
Orfeu canta à entrada do palácio trevoso.
Três da tarde, os tomates maduros quedam nas cestas, um a um

O pastor geme sua harmônica
improvisa para lograr o frio.
As ovelhas, pasmadas, ruminam.

A paisagem tênue, tingida de filetes brancos,
Ecoa os córregos gelados.
Um jovem cruza de bicicleta.

Lume no horizonte,
lume de sol agostino,
sussurro pungente de arcos.

Nova noite sorri entredentes, sem estrelas, hoje gris.
As ninfas fecham seus casacos azul-petróleo.
Entra na cena diáfana a poeta Safo 

Uma das atenas, madura, inicia a prédica sem palavras:
"oe lala ree o, o nana na reo reo reo ree. É ti Éti, É É É... lasai na na nai na daí"
Um bordão reúne as energias galáticas 

Afrodite lhe responde,
O coro contemporiza, considera. Define.
Por um instante, o céu está limpo. Prata.

Mercúrio, de pés alados
flutua de um lado a outro, em congratulações.
A música, assim disposta, em tons apolíneos,

Faz ressoar as mielinas dormentes. 
Até os músculos desatentos das pernas gemem, 
reconhecem o impulso de caminhar.

Assim reunidos, deuses, anjos, mulheres, cavaleiros, reis, 
silentes na meditação
consolidam a divina arte da fruição, 

enquanto Safo corrige os versos mancos desta poética de ouvir. 
Entre um respiro e outro
Ouço o cantar mágnífico das sílfides,

Bom dia, bons dias, bons fluidos, larga jornada de ires e vires...


Cami, este sitio é pueril demais pra deitar qualquer gesto de afeto. No entanto, deixar em branco um dia como esse, em que não nos vamos ver, é como desdenhar das horas, é como tornar escuro o claro, é como desdizer do silêncio. Façamos, então, um 'parto fônico', esperando ouvir a própria voz. Um beijo.

Nossa Senhora, todas elas

Nossa Senhora da lama Nossa Senhora do rio Nossa Senhora que adentrou floresta E cunhou nas pedras limosas os caminhos das desovas No...