Contario de inverno 22
Seu Tonico sentiu saudades
A fonte está a contar
Como, um dia
Eu fui ao rio
Minha face de bom nariz
Refletida por entre a almecega
Deu-me saber o trivial
Como explicar que o burrico cantarolasse cantigas antigas, do fim do começo do Brasil? Pois era isso que Seu Tonico fazia no momento, as patas dianteiras apoiadas na grade do convés, orelhas atentas. Afinado, bom senso rítmico, bom improvisador. Só mar à vista, o que para ele era novidade novidadeira. Sentiu saudades. A voz dele entoava Maringá, Maringá, depois que tu partiste[1]...
Diante de tal amplidão, azul contra azul, o burrico experimentava essa nova condição de desenvelopado, um tanto curioso, quase achava graça. Sabia que a terra lhe levara o corpo, agora era pouco mais que ar. Como os indiozinhos choraram sua travessia. Atitude comovente, enternecedora, vestir a mortalha que serviu de abrigo, a lua crescente que brilhava no céu, as tochas a iluminar o sepultamento. Sentiu saudades. Maringá, Maringá, pra haver felicidade...
Uns golfinhos impertinentes vendiam jornal há metros da proa. As manchetes avisavam Seu Tonico logo voltaria, outra jornada, dessa vez em um distrito português, feito potro de uma jóquei, de nome Teodorica. Pareciam zombar do destino dele, aquela risadinha intrigante. O que o quadrupede já tinha visto na vida? Olhos de burricos amigos, cansados de tanta carregança. Sentiu saudades. Maringá, Maringá, volta aqui pro meu sertão...
Poderia ter ido para o rancho albergue dos animais, uns quilômetros acima da atmosfera porem, ao ser recebido, de mortalha e tudo, perguntou aos superiores se poderia ir encontrar o duende. Sabemos que foi autorizado, inclusive lhe deram condução e endereço. Anos antes, quando se viu sem arreios, ou sacos ao lombo, Seu Tonico não acreditou que aquilo era verdade. Ainda teve tempo de experimentar as liberdades que se tem por vontade e risco. O jumentinho sentiu saudades. Calou-se por um instante, passou a zurrar baixinho Chiquita bacana lá da Martinica, ao que os golfinhos responderam, galhofeiros, se veste com uma casca de banana nanica[2]; cricrilavam, aos saltos, como a manejar ganzás. A saudade deu espaço. Imaginemos agora, leitor, crer que voar era uma opção para ele. Seu Tonico não quis atrapalhar a ocupação das gaivotas famintas. Como seu alimento vinha do sol, lindo naquele momento, retirou as patas do gradil e acomodou-se ao lado da lona amarfanhada. Enfiou o focinho em uma dobra e o viu. Teve muita dó.
Na viagem com destino ao seminário, no Recife, Inácio tratara o burrico como a um irmão. Seu Tonico, manso, companheiro valoroso, afeiçoou-se do mini-gente, mini-fada que seguia junto ao frei. Faz-de-conta que desatento, amuado, o elemental foi posto na Terra para detectar ecossistemas saudáveis. Lá estava o serzinho estranho, engraçado, no meio da caatinga. Não demorou para se entenderem um a outro na linguagem natural. Assim que lhe foi concedida permissão, após as exéquias, Seu Tonico tratou de encontrar aquela coisinha miúda que lhe cumulava de bem querer, de historias da Barceloneta. Quem sabe pudessem ficar juntos, ajudar alguém por algum tempo, antes dele sentar praça com a tal Teodorica. Ou ele seria chamado assim? Os golfinhos cricrilaram mais.
Sou eu a contar hoje, caro leitor, Bar’, seu criado. Quero dizer-te, antes de desanuviar o encontro festivo, que apareci neste orbe pelo miledujento, é do que eu tenho lembrança. Eu pertencia a uma comunidade de druidas do Vale do Loire, Amboise. Minha mãe se chamava Tours. Senhora boníssima, ocupada com serviços de panificação em um castelo pomposo. Nascíamos, naquele tempo, como nascem os cogumelos, os narcisos e avencas. Tão delicados quanto pode ser um fungo, uma folhagem de beira rio, onde se miram as belas edificações humanas. Foi durante a quaresma que aconteceu. Uma pequena fornalha, cinco broas de milho recém postas para assar. Por motivo singelo, brinco de charameleiros que jamais foram encontrados, o forno explodiu e cumulou Tours com um fogaredo de cinco minutos. Dela, só cinzas, diante de um buraco na parede da cabana. Uma charamela[3]esquecida sob um arbusto, sob ela um poema confuso, apoiou a acusação. Não era caso para grandes espetáculos de promotoria. O senhor feudal nem levou a perda em consideração, menos quis saber da trupe de arteiros. Uma vassoura e logo a mãe confundiu-se com a margem do Loire. Fiquei eu, aos cuidados de um mago duvidoso, Clement se chamava, ele como novo manufatureiro de pães e eu prisioneiro em uma gaiola, pendurada sobre o caldeirão. Uma varinha de imbuia levantou novo forno e atingi a maioridade ali, recluso, a aprender poções de memoria, muitas uteis para calma das dores físicas. Só uma coisa me incomodou neste convívio: ter de cantar, vezes sem par, Au clair de la lune[4], sob indução hipnótica daquele velho doido. Por outra razão, saída de um envelope, a qual não tive acesso por se tratar de missiva em gaelg, Clement seguiu para leste, sozinho, meses após o passamento de minha mãe. Por delicadeza e sentimentos conflituosos, o mago destrancou a gaiola e eu pude escapulir sem sustos. Senza paura nem meta fui dar, há milhares de quilômetros, em um lugar de má fama chamado Quendoque, no meio da mata, do nada, do outro lado do mundo. Uma vontade de dizer ao leitor que eu não era pior do que sou hoje.
O imbróglio de amizade entre burro e trasno nada tem de excepcional ou difícil de narrar. Somos um do outro, irmãos em natureza. Que agradável surpresa, sair do mutismo após tanto tempo, eu que vivia no espaço entre as perguntas e respostas. Demorou um pouco para entender e aceitar o que eu via, deu-me a impressão de delirar, já que tantos estavam febris naquele navio. Passamos quinze minutos a falar ao mesmo tempo; os golfinhos em algazarra ao lado do Ligaya1, caçoavam de nós sem piedade. Nem será bizarro acrescer um gato, Olíbano se chamava, aos novos acontecimentos que viveríamos. Perdoe se adianto que o bichano se tornou afável parceiro nessa viagem a Lisboa. Um rabo hirsuto, uma investida no ar e Olíbano definiu a situação com um simples nossa, tem comida por aqui? Que fedor é esse?
O que aos três comoveu, logo após firmarmos fronteiras e acordo de cavalheiros, foi a conversa que testemunhamos entre o Frei Antônio e o 2ON Acyr. Já será primavera quando contarmos essa historia.
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