Contario de inverno 16






os fios da coberta que escapou da mala



Esmeralda chegou ao acampamento cigano um tanto febril. Como lhes pedi antes, queridos leitores, espero que deem chances ao destemperado conluio de almas que transitam por aqui, pedintes umas, mais que outras. Conectadas entre si, posto que algo, maior que tudo, assim o quer. Todos merecem reabilitação. 

 

Caso algum dos senhores tenha estabelecido relação entre esta vendedora de livros em banca de praia com a menina nascida no Casaredo, ainda não posso precisar nada a respeito. Pensei nela por esses tempos, confesso, mas não a visitei, para saber como vai, como vai seu pai, seu irmão, mesmo o hospital, em que deixei muitos amores. Quem fugiu, em uma caravana, foi a mãe da bebezinha, caso se recordem do fato. 

 

A saia vermelho sangue de Esmeralda foi parar na tina da comunidade, assim como a bata branca, o espartilho e um xale todo trançado com sobras de lã. Um sabão de fubá deu fim às sujidades, ao odor do frei. Logo as peças  viraram bandeirolas de fim de tarde. Lavar o corpo foi em uma bica natural, mal protegida por um cortinado.

 

Em seu trailer, de um cesto de vime, a bonita retirou um vestido de jacintos, atado a cintura com uma fita de azul mais escuro. O decote revelava predicados nobres, firmes o suficiente para que entrasse na bulleria, se as forças lhe voltassem. Não voltaram. Deitou-se na rede de armar sem cear e sem vontade de sonhos. 

 

Olíbano, um gato vadio, dos laranja tigrados, se juntou a Esmeralda em Valencia, o encontro já durava seis anos. Enfiara-se ele no cesto de vime e surpreendeu-se, ao sacolejar para Barcelona. Como o cesto cheirava bem e a dona das roupas o recebeu com atum, afaguinhos e aquela linguagem típica dos gateiros, foi ficando. Era costume o bichano ronronar junto à face da dama, satisfeito e disposto a dormir ali sem obrigações. Naquele inicio de descanso, tantos quilômetros e um oceano longe da Barceloneta, um estranhamento do odor, que flutuava ao redor daquela bonita, o fez ir deitar-se do outro lado da almofada. Os cabelos haviam escapado ao toque daquele tal frei Ain. Esmeralda fez gosto, ao sentir o contato do felino. 

 

Com quem, senão o oficial do navio, Esmeralda poderia ter maior conhecimento sobre a desventura do senhor que a  tomara de assalto? Mesmo desajeitado e rude, o homem não parecia em surto; um tanto desesperado isso sim, talvez a tivesse confundido com antiga noiva, filha, algo desse porte, para ela merecer o tanto de lágrimas que aquele religioso chorou, agarrado à cintura. 

 

Para não sonhar, parece que despertar às três da madrugada era o preço. Foi bom, era a primeira vez que Esmeralda atendia às necessidades noturnas de Olíbano, seu instinto de lanchar àquela hora. Um pouco de ração e pedacinhos de atum, um banquete. Melhor fazer render, às vezes o gato precisava caçar, e não por esporte. 

 

Esmeralda saiu para o pátio e espiou as outras charretes, silenciosas. Talvez o baile tivesse terminado pelas duas. Ela se sentia menos abalada. O gato esfregou seu corpo no vestido florido, aceitou o colo que foi oferecido, ao invés de perseguir vagalumes. 

 

Todos, ao saber do ocorrido na praia, acharam de a deixar repousar, sem perguntas. De dentro do bolso do seu vestido, ela retirou um rolinho com lenços de mão, bordados, cada um, com quatro versos diferentes, sem métrica, de rima pobre, que formavam entre si um caso de amor. Em duas delas, lá estava a cantilena do oficial, acompanhada pelo ud.

 

É de saudade que cantam

Os pássaros da terra

Azuis, da cor da quimera

Duas notas, dois sinos

 

A tarde cai brandamente

Guarda na foz dois destinos

O canto se repete, livre, dolente

Importa o que o coração sente



A manhã raiou sem censuras, sem ruído, a lua de um lado, o sol a lhe jogar beijos do outro. De amores, Esmeralda ainda não havia sofrido. Tão linda, atraia uns senhores que sempre lhe pediam para deixar a caravana. Não o podia fazer, por principio, pela alma da mãe. O velho frei, ao segura-la feito náufrago, trouxe a memoria de um rapaz que vadiava pelo cais do Porto Vell, quinze anos ele deveria ter, ela dezessete.  Abordou-a ávido, em meio a um mar de viventes, a pedir que o levasse consigo, transtornado estava. Contou-lhe, entre soluços, que uma segunda mãe ele perdia, já não sabia mais que pensar. Um instinto de nutriz e outro de mulher a tocou nas fibras. Usava, à ocasião, uma saia branca como a nuvem em forma de barco que escondeu o sol. Sentou-se em um balaio, com o jovem apoiado ao ombro e deixou que ele chorasse e contasse da mãe azul, do gato Troska, do pai postiço de mesmo nome, a bondade em forma de erudito. Da mãe vermelha, a que partiu não tinha duas horas, ele nada disse, apenas chorou. Contou, por fim, que queria visitar Lisboa e perguntou se ela não vinha com ele. O pai a acolheria, por ser amiga. E, quem sabe, eles seriam felizes de novo. 


Quando o sono a trouxe de volta ao trailer, Esmeralda entendeu que estivera delirando. O vestido úmido a constrangia. Olíbano a encarava com preocupação, da caixa de papelão em que se refugiou, quando os meninos da caravana o azucrinaram. Meio dentro, meio fora da caixa, uma coberta que Esmeralda usava para proteger os livros.

 

 

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