Vértebra 57


Dc2 abaeté ou a ordem



Vestiu sua velha estampa de flor, o primeiro vestido que lhe caiu sobre o corpo, ainda bem moço. Agora, o pano estava mais para cor de terra. Uraci mantinha, na pele de Xaxim Verdadeiro o brilho generoso, o cheiro de umbu, a voz macia e o cabelo muito preto. O sorriso possuía todos os dentes, silencioso. Byr olhava Isi da porta da cozinha do sobrado de Jade. Seus pensamentos eram imagens incomuns. Poucos podem ver com os próprios olhos o interior de cavernas, estalactites, lagos submersos, peixes neon, troncos mais largos que uma casa, cobras que dariam a volta ao mundo. Xaxim Verdadeiro puxava pela memória o fundo do Juru, onde catava pedrilhos que mais pareciam vidro vermelho. 

 

A moça Isi fazia parte dessa imersão. Menininha, ontem mesmo na beira do trapiche, a fazer seus primeiros riscos com carvão. Byr não conhecia as saudades trágicas. Também não entendia a saudade da filha naquele momento. Cabreúva Vermelha, sem rosto, ou dona de todos os rostos, era o contorno de seu sorriso de perda. Não se lembrava da voz da mãe, sequer dos nenos que a índia arengava. Talvez a saudade da filha fosse igual a essa falta que lhe dava, da tribo, do Amerê Tamõi. Algo que vai e a gente tem certeza de que não volta e então precisa cuidar, para ficar reminiscência de algo muito bom. Foi tudo o que Byr disse a Isi depois que elas voltaram da trilha na mata. A mãe deixou que a filha, mulher, construísse seu próprio memorial. Um beija-flor-saíra entrou na sala e saiu ligeiro, espantando qualquer aroma de terra dos dedos. 

 

Xaxim Verdadeiro anotou em seu diário uma frase recorrente: duzentos e quarenta e três dias sem as falas de Iaci. A índia só mudava o tempo que passava. Essa ausência de comunicação não chegava a preocupar. Mantinha os sentidos alerta, o coração pacífico. Fia agradecia cada noite, pois os sorrisos estavam lá, mesmo que o astro caprichoso se revestisse de plumas e permanecesse em silêncio. Mesmo que viesse vermelho muita vez. As agulhas executavam bem sua parte no trato com o equilíbrio. Isi aceitou que a mãe lhe aplicasse micropedras de ouro no lobo da orelha.

 

Jacarandá-da-Bahia, armazena toda coragem. A mulher em que se tornava Isi plantou os lírios d’água sobre o corpo de Jovino. Para crescer jardim naquele pedaço da mata, levaria um ano. Fora ela quem achara o lugar, longe dos ruídos humanos. Não sabia se o músico gostaria da sombra, mas os sons que  povoavam o recanto, perto do Amazonas cem passos, eram pura sinfonia, renovada a cada segundo. Todos os pássaros da Gaia e até de estrelas vizinhas vinham fazer ninho naquele folharal, também a poeira do Saara suspirava, trazida pelas correntes. 

 

O rapaz morreu cinco dias após sua volta para casa. Recuperado da moléstia pandêmica, ficaram sequelas que ele tratou de cultivar. Por razões dele, respeitáveis e ininteligíveis, não aceitou a visita da irmã para quem compusera sua serenata. Tampouco Pedro Kambamy entrava no quartinho do rapaz. No terceiro dia dessa agonia, Isi sonhou com Peri, um índio protetor que tomou veneno e antídoto, para poder ficar com sua Cecília. Ele acenava da canoa, lança em riste, pronto para desferir o golpe. Sozinho sobre o rio, parecia o dono de tudo. Pisou em rabo de arraia na margem. Seu pé direito, com asas no tornozelo, inchou e virou boca de tamanduá bandeira. Todas as castanheiras deram flor. Antes de voltarem, mãe e filha, para a cidade, Isi tocou na rabeca a serenata do lisianto, como a devolver um mimo, em outro tom.

 

Março trazia vento. Dentro do ensino inclusivo e da cura alternativa também tem caminho. Esse dizeres, estampados na camiseta de João Claro entraram com ele e a cadeira-de-rodas em uma sala de aula improvisada perto da quadra de esportes. Seria difícil ensinar ali, competir com o colega da educação física. Diante das crianças muito quietas, João começou a dobrar a primeira folha de papel. Antes, pediu com os olhos que as crianças dobrassem junto com ele. O novo professor fazia os gestos devagar, com paciência. Tinha arrumado as cadeiras em circulo, então ia de criança em criança mostrar o vinco, o jeito de unir ponta com ponta. E sussurrava um nome, uma cor, uma coisa, uma frase que só a criança escutava. No final da manhã misteriosa, que chamou a atenção de muitos colegas, a sala estava repleta de mobiles, cores e formas variadas. Um menino e uma menina tinham sido encarregados de os pendurar. Era uma floresta de papel, com direito a rio, céu, estrela, flor e bicho. 

 

Sobre a mesa de João Claro, encostada a um canto, trinta e cinco inícios de história, escritos em boa caligrafia, com correção e zelo, por crianças do quarto ciclo. 

 

À tarde na escola, chegou uma equipe para instalação de drywall. Todo o cuidado foi tomado com o material construído pelos alunos. A sala virou um parque arejado, luminoso. A mesa de rádio amador foi trazida dias depois, para compor o espaço e servir a projetos de comunicação. Em armários apropriados, os instrumentos do músico Jovino foram muito bem acondicionados. Teodoro, um músico do regional de Cidade de Deus, agora amigo de João Claro, aceitou vir dar aulas de violão na escola. Isi, quando podia, vinha tocar rabeca e contar histórias. Jade ensinava canções. Um pequeno centro cultural se formou no ambiente escolar, funcionava de domingo a domingo. José, o professor de esportes, engajou-se na equipe e trabalhou o corpo de toda escola, que se revezava para dançar, dramatizar, cantar, pintar. 

 

João Claro despertou do sonho sorrindo, no meio da noite. Mãe-da-Lua à janela, penteando seu cabelo prateado, cobria toda Getúlio Vargas. A primeira aula do tempo de experiência tinha sido difícil, barulhenta. Quatro homens do bairro precisaram ser chamados para colocar a cadeira-de-rodas dentro da palafita. Cidade de Deus, a escolinha. Trinta e cinco crianças que precisavam de tudo. Carismático e paciente, o novo professor era promessa de um pouco de luz em tanta crueza. 

 

O caminheiro achou o caminho que vai dar em Uraci. Ele o avistou naquela manhã de março, com o primeiro sopro do vento. Ao invés de se desfazer de suas memórias de destruição, plantou-as pelos vaus. Eram árvores frutíferas, que se misturavam à mata e alimentariam caminhadores futuros. 

 

Interessante, olhar o futuro. Tijuca via uma floresta ainda mais cerrada. Para encontrar réstias de luz, era preciso muito esforço e habilidade. Muita coragem e braço. O índio enxergava também homens e mulheres rastejadores, privados das pernas por as terem usado para correr atrás e atormentar outros irmãos. Homens e mulheres de arrasto, que fariam curumins de arrasto e aprenderiam a conviver com os camaleões. Também teriam vida curta essas almas e voltariam do mesmo jeito muita vez, até entender. 

 

Tijuca foi-se misturando ao petróleo dos troncos, intrigado com tanta seiva e escuro. Quase não tinha fome. Às vezes encontrava uma planta que lhe permitia sonhar acordado. Esse era o momento de ter com Uraci, que lhe contava do calor e das explosões e de como era impossível morar em seus domínios. Também contava dos aviões que aterrissavam em clareiras improvisadas, para roubar iboga e trombeteira. Uraci dava a Tijuca uma acha pequena, para que o índio não desmiolasse de vez.

 

Longe, bem longe, Jade era um homem lúcido. A convivência na faculdade lhe permitira fazer amigos, militar e tomar decisões importantes. Ele tinha uma família bela, sólida e insólita. Ele era útil, arrimo sentimental, além de suporte material. O romance com o professor de filosofia correu doce, porém romance. Jade foi honesto desde o primeiro instante. Não havia por que iludir-se com imperadores, salvadores. Havia algo muito mais intenso que afetos volúveis para alcançar. Quando o professor de filosofia acenou com intimidades, com seguranças, Jade entendeu que era hora de seguir em frente. Faltavam dois dias para a formatura. A conjugalidade poderia desiquilibrar as forças. Ambos aceitaram separar-se, eram amigos.

 

Isi, feita mulher, sentou-se diante da mãe no jantar. Perguntou-lhe sobre as caravanas dos médicos sem fronteiras, das funções, do preparado que possuíam. Xaxim Verdadeiro foi contando, relembrando. Chegara a hora, ela sabia. 


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