Vértebra 50







Dt2 tatá ou aceitar tudo

 

O hospital ganhou em humanidade com a presença da doutora Maria.  A ala das crianças ampliou o  significado do termo saúde, era um apelo à vida, à proteção dela, qualquer que fosse a limitação ou desafio que se apresentasse. O coração da floresta agradeceu, a equipe médica se uniu no ideal, cuidar de seres humanos em botão de forma integral. O tempo diria, se se tratava apenas de utopia. 

 

Batizada com o nome da Indiara, a ala respirava em paz. A memória da moça inspirou fábulas de amor, gerou potencial de cura. Em poucos dias, dez crianças passaram a receber tratamento no local, sem necessidade de internação. Jade ofereceu-se como voluntário, queria tornar-se acupunturista. O rapaz apresentava uma melhora significativa em seu quadro geral. Ao ser-lhe ministrado o medicamento Dovato[1], o turco ganhou novas forças, o trabalho dignificante devolveu-lhe a confiança na jornada.

 

Para o velho Selim, ver o amigo renovado era a certeza de que ajudar atrai ajuda. Uma nova secretária andava alegre pelo rancho. Patativa, moradora da travessa há pouco, ainda sem filhos, veio dar as mãos e os pés para a administração doméstica. Seu marido, Canota, estava em missão na Serra do Acará. Longe do convívio com os filhos das irmãs, a moça se sentia mais consolada, mais útil, não se afligia tanto com a falta do companheiro. Catira andava meio atrapalhada, um tanto envelhecida, embora denotasse novo ânimo com a partida da cantante Mayara. Sabia que o patrão lhe queria todo bem, e que era só isso. Aceitava bem seu lugar no puxadinho, desde os primeiros tempos de convivência. Jamais ficaria desamparada, isso era certo. Havia Fia, Isi, de quem muito gostava. E Jade, tão puro, tão gente, Catira o tomou como filho. Tinha só amor para ele, derramava-se em guloseimas, paparicações. Não lhe contaram sobre a doença, seria muito duro para ela conviver com tamanha espada sobre a cabeça. 

 

Selim se mantinha lúcido, operante. Do rancho, ele comandava uma  organização de pacificação que atuava pela Amazônia e países vizinhos. Há alguns dias, a equipe desbaratara um carregamento de jovens, de várias procedências. O navio cantrabandista os enviaria para a Indonésia, para serem sujeitados ao  comércio sexual. A missão incluía repatriar os jovens, encaminha-los para casa ou para desintoxicação ou frentes de trabalho onde pudessem fazer-se dignamente. Nem todos floresceriam, porém tinham várias chances, antes de reincidirem nos diferentes vícios. 

 

A linguagem usada na comunicação por rádio era tão bem estruturada que Selim falava aos brados na sala e ninguém podia decifrar os códigos, combinação de vários idiomas. Parecia conversa frugal entre velhos, com troca de receitas, bulas de remédio, listas de compras, comentários sobre romances blasé. Isi gostava de escrever enquanto escutava aquele intercurso, pois lhe instigava a imaginação. Jade e os outros moradores do rancho tinham instruções para não fazerem perguntas ou intromissões, quando o homem estivesse falando. O que Selim podia contar sobre as transações, resgates, contava com detalhes. 

 

As bolas de fogo que brotavam das mãos de Fia tinham, sempre, finalidade curativa. Ela entendeu isso no dia em que colocou a enfermeira Julieta no lugar que lhe cabia. Foi a primeira vez em que, de mãos limpas, sem pedir ajuda maior, acabou com uma praga pela raiz. A colega desejou a Fia todo o desencanto que sentia. Chegou a fazer-lhe ebó[2].

 

Por mais que se conclamasse a fraternidade no hospital, o respeito ao trabalho em prol da saúde de todos, uma ferida pútrida caminhava pelos turnos, deixando vestígios, feito cupim. Enquanto as vinganças pobres causavam pequenos incômodos somente a Fia, ela deixou passar. Os colegas percebiam a situação. Como em todo lugar, ciumeira é contagiosa. Fia era famosa, muito considerada no primeiro escalão. 

 

Hora de servir o almoço. A ideia era causar uma diarreia nos pacientes e alegar descuido na limpeza da cozinha. O sistema de atendimento ocorria por rodizio e quem cozinharia naquela manhã seria Fia. Uma emergência, a índia foi realocada à décima hora e Julieta não soube. Ao invés de usar um laxante, a enfermeira misturou água não tratada no suco que seria servido. A máquina ficava no refeitório, não dava para enxergar quem estava à beira do fogão. Era Geodésio. O que não ocorreu à enfermeira vingativa, muitos tomariam o líquido, inclusive visitantes. Estava quente o dia. O resultado do dolo, um surto de tifo três dias mais tarde. Ficaram doentes, inclusive, o doutor Silva e a doutora Maria. Como detectar o responsável? 

 

Xaxim Verdadeiro lembrou-se de Maverick e Jiréu, naquele episódio do boa noite cinderela. Sentiu falta do amigo, de sua força. Esperou Julieta entrar no banheiro. Pegou um pouco do conteúdo da jarra de suco, que ficara na cozinha interditada, para averiguações. Dois sanitaristas, chamados para colher indícios, estavam em outro local do prédio no momento. Foi fácil entrar e sair do refeitório, invisível como Fia era. Também ela dirigiu-se ao banheiro, a intenção era mesmo intimidar. Chaveou a porta, bem no momento em que a inimiga gratuita saia do reservado, alinhando a meia calça. A moça chegou a colar-se à parede, sonsa. Fia mostrou-lhe a seringa, foi dizendo pare com essa história que quase acaba em tragédia. Não tem por quê você colocar em risco a vida de inocentes. Se é comigo a sua raiva, vamos lutar, uma luta limpa. Nenhuma de nós vai ganhar, perder. Não é o caso. Nenhuma de nós é merecedora de nada. Viemos para ajudar as pessoas a saírem daqui, vivas e bem, mortas e bem. Nós precisamos entrar e sair bem deste lugar. Nossos homens não podem ser deste lugar. Não é bom para nós. Nossos pais, irmãos, filhos, não deveriam precisar deste lugar. Meu filho foi poupado, não tinha fome ou sede, não bebeu isso. Minha filha, preocupada com o irmão, também não comeu nem bebeu. Eu estive na emergência, não tive tempo de comer ou beber. Eu poderia envenenar você, uma forma burra de retribuição. Só vim lhe dizer, Julieta, enquanto é tempo: era Geodésio o responsável pela nutrição naquele dia. O que você desejou para mim, que eu perdesse o emprego, deve acontecer ao seu amigo nas próximas horas. Lave o rosto, se componha e pense, o que é melhor para todos nós. 

 

Fia descartou a seringa vazia, o calor de suas mãos neutralizou a presença de parasitas. Viu os sanitaristas entrarem no refeitório. Julieta, arrasada, foi retratar-se ao diretor do hospital.

 

No dia seguinte, a pilotar uma moto simples, emprestada por Duda, outro novo morador da travessa, Fia dirigiu até Ipixuna. Feito amazona sobre corcel, levava consigo uma carta do diretor do Santa Cecília. Ia trabalhar com os Médicos Sem Fronteira. Foi assim que Isi viu sua vida de urso começar. 

 



[1] Medicamento para o controle do HIV

[2] Entenda-se o termo do candomblé em seu contexto mais amplo, de oferenda. Na circunstância descrita na narrativa, era mesmo um sortilégio, endereçado à personagem Fia.

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