Vértebra 47
dt5 arapaçu-grande ou nem tudo é responsabilidade
sua
Isi soube, em um documentário da parabólica, que os ursos andavam sozinhos. A mãe urso ensinava-lhes o essencial e eles partiam por conta própria, para enfrentar as geleiras, as florestas, mesmo as de bambu.
O velho Selim cochilava e Jade olhava sem ver, apiedado de si. A menina tinha mais vazão em desdobramento, mas seu pensar estava tão emaranhado que precisou pegar o caderno. Parou diante daquele branco da folha e não soube o que escrever. Desligou a televisão e a noite foi fisgada para dentro do abajur. A menina, em estado Byr, se sentou sob o lume e segurou o lápis. Escreveu: a noite, muito dona de seu saci, tinha os cabelos embaraçados. Fora o menino sem perna quem lhe trançou torto, deixando nó. Se cortasse, deixaria um buraco escuro demais, sem explicação. Se puxasse, ia ferir a raiz. Isi, o lápis no ar, contemplava aquele inicio de historia sem saber como continuar. O lápis desceu sozinho. Aquele escuro caprichoso era convite para o sono de uma semana. Iaci precisava recompor sua beleza, para ir aparecendo aos pouquinhos ali adiante. A lunaridade deixara o breu como guardião. Quem se aproveitaria da bondade naquela situação? O tronco de mogno cantou, tão grave como podem cantar os troncos. Havia um buraco nele, onde morava o Murucututu. A ave caçava não muito longe dali, para alimentar seus filhos. No chão, repleto de humus, chorava uma menina recém parida, sozinha. As formigas lhe faziam cócegas, para confortar, a criança sentia fome. Se não viesse alguém para socorrer, a menina morreria, sozinha. O que o mogno podia fazer, senão cantar? Foi chegando, muito mansa, atraída pelo canto, pelo choro. Toda ensopada, vinha a loba guará que doara seus filhotes à mata. Ainda tinha leite. Aconchegou-se à criança que era toda lama e lhe deu uma teta de cada vez. Enquanto a menina mamava, o animal cantarolava: vai dor, vai circular com o sangue, até filtrar nos rins. Vai dor, vai, que a coragem já vem. Vai dor, vai, para não virar pirão, para não criar engasgo ao coração. Vai dor, vai, virar o visgo em perdão.
Fia encontrou Isi cochilando sobre o caderno, lápis na mão. Byr, Byr, Byr foi arengando, até que a menina despertou e se agarrou ao pescoço da mãe. Fia a levou para a cama, acarinhou, a menina voltou a dormir.
A índia tinha ficado até tarde no hospital, rendera uma enfermeira que precisou de folga. O jornal ainda estava sobre o console, a lista exposta e seu nome em espera. Sempre havia desistência. O nome escrito na folha foi o empurrão que faltava para Fia decidir-se pelo Hospital Santa Cecília, como técnica em enfermagem. Os colegas, ainda com a lembrança de Moeemo, receberam a nova integrante da equipe muito bem. O doutor Silva era muito respeitado e apresentou Fia, agora em período de experiência. Nos encontros diários para visitação aos pacientes, ele relembrava que todos pertenciam a um mesmo barco, todos estavam ali para aliviar as dores, não para criar cancros. Paulo, este era o seu primeiro nome, sempre abria seu consultório para ciumeiras, invejas, mau-olhado e outras mazelas humanas que só atrapalhavam e puxavam a tarefa para trás. O doutor tinha esse compromisso, exemplo de vida. Era olhar para o médico e ver nele um cavaleiro, um Jorge, Miguel e outros representantes da santidade. Assim pensava Julieta, que amava o doutor em segredo. Quando ela viu a mão de Paulo sobre o ombro da nova funcionária, foi fulminada por uma raiva incandescente. Fia não se mexeu, sentiu o velho amigo fogo presente. Invocou Mãe-do-Raio, estava ali um cancro em vias de se formar. Bem naquele instante, toda de azul celeste, saia balão, entrou na sala a noiva do doutor, Maria. Ela era médica pediatra, chegara há dois dias em Eirunepé. Para esta, o cumprimento do doutor foi tomar-lhe sutilmente a cintura. Todos saberiam logo que eles se casariam dentro de um mês na igreja de São Francisco de Assis. Julieta precisou do canto da mesa para não cair. Fia não se moveu, poderia por a perder uma camaradagem futura. Quem amparou Julieta, com um cavalheirismo de gueixa, foi Geodésio. Avisou aos presentes que a pressão da colega baixara e que iria prestar-lhe os primeiros socorros na enfermaria. Esse movimento fez Paulo dar por encerradas as apresentações. Antes, recomendou prudência para a ala de Moeemo, ainda em observação. Mandou Fia até ele. Ela, no corredor, cruzou com os colegas, discreta. Lançou para eles uma bola de lavanda, que fez efeito imediato. Permitiu a Julieta erguer os olhos e encarar a nova colega.
Fia seguiu seu caminho e, pela primeira vez perguntou e se me faltar o dom, onde eu estarei? Na sala havia seis leitos ocupados, incluindo Moeemo. Havia vômito para limpar, lençóis para trocar, um com fezes. Verificou o soro do curumim. Seu entorno estava livre, a não ser por um adolescente que pairava sobre as camas. Fia olhou o katukina e o saudou. Ele fez um aceno com as sobrancelhas, estava incomodado por não ser visto, não entendia sua condição. Sentia os cheiros ruins do ambiente, reclamou. Fia foi gentil e lhe aplicou cânfora perto do nariz. Trocou as camas, lavou a senhora necessitada cantarolando o neno que Cabreúva Vermelha lhe cantava. Nhenhe gari, nhenhe gari meoe si. Limpou o vômito. Quando saiu da enfermaria, Iberê a seguiu. Não adiantou ela pedir para ele ficar com Moeemo.
Mãe-do-Raio enquadrou Fia com uma corrente elétrica no fim do turno. Empurrou-a com certa rudeza para o banheiro. Perguntou se Fia achava que seria um serviço fácil, morno. Fia não pestanejou, olhou a mãe com o rosto aberto, sem vaidade. Explicou que o trabalho cuidava de seus filhos. Disse também que teve medo de perder seu poder. Mãe-do-Raio relaxou um pouco a imantação e lhe pediu prudência, zelo redobrado com os sentires. Que tomasse chuva ao voltar para casa, de pés no chão. Mãe-do-Raio, ainda eletrizada, traspassou a índia umas cinco vezes até chegar à palafita onde morava agora. Foi repetindo as responsabilidades que cabiam a Fia, que nem tudo era para ela carregar e nem tudo merecia lavanda ou cânfora. Ife se encarregaria. Esse saber reconduziu um Iberê muito assustado para junto do irmão. O arapaçu-grande saudou Fia no limoeiro bravo. Era a trégua, anunciada por Uraci. Dentro da palafita, Kiru dormia aos pés de Isi. Tudo ficaria bem.
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