Vértebra 46
Dt6 Maria-preta-de-penacho ou Nem tudo é culpa sua, ou O frei que ouviu uma homilia de Antônio de Lisboa em 1221
Uma lição Fia aprendeu desde menina: as coisas tinham, todas elas, o seu lugar e mérito. Lugar de gente não era virar erva de passarinho. Se havia uma lacuna era Fia enxergar qual o seu lugar. Ela conquistou o coração do velho Selim, trouxe-o de volta à jornada. Catira também fez isso. A senhora abriu o caminho de Fia naquele dia do pano torcido entre as mãos. Viu e confiou. De certa forma, Mayara também pertenceu ao processo, através das cordas dedilhadas. Ficar no rancho de Eirunepé, para Fia, era tempo de larva. Alimentar-se de cafuné era primordial. Consolar, ela o faria em qualquer parte, Selim contasse com isso. O substrato material que Fia recebia era muito mais do que casca de tronco para ver florir orquídea.
Lá nos começos, a convivência na tribo lhe deu o Yorimã Tijuca, que acabou com tudo. A tribo dispersou. Outra coisa que Fia soube, desde menina: ela não era para Curuatinga. Como era isso de pertencer a uma tribo, ser filha, ser esposa deste ou daquele? E ela por ela? Ela mulher? O que teria sido sem a interferência de Orun, mesmo Aín? Depois, do senhor que lhe deu ombro, documentação e posse? Fia já vira tantas mendicantes nos sinaleiros de Manaós. Mesmo no centro de Eirunepé. Elas, aquele bando de crias e seus balainhos. Quem seria por elas? Nem todas tinham uma tribo para onde voltar. A maioria faria mais filhos de vento, eles queriam nascer.
Fia sabia ser mãe e era boa nisso. Dar consolo podia ter-lhe gerado muitos filhos espúrios, a natureza podou. A convivência na travessa e, depois, no apartamento, tudo ajudou na decisão pelo caminho justo. Fia soube notabilizar o consolo, elevando-o à categoria de antibiótico de amplo espectro. Aqui Fia parou sua mente, enquanto esculpia um menino redemoinho para João Claro, em um toco de bordo muito macio. A família precisava de um lugar seguro, onde Isi pudesse crescer e encontrar seu ife. Precisava de um lugar onde João Claro tivesse suas cascas de tronco. Um lugar seguro onde Fia pudesse tornar-se pessoa.
Havia algo essencial, seu por empréstimo: as bolas nas mãos, que só faziam aumentar em potência e credibilidade. Já vivera a parceria com Sá Ana, puxando vida, conduzindo morte. Era mais ajudar a morrer. A palafita onde vivera Dona Tem permanecia vaga.
Era uma pernada boa até o rancho. Sá Ana morava em frente. Gente nova, rio, peixe, pássaro. Fia podia ir de bicicleta ao hospital e lá veria o concreto, os rostos verde branco. A remuneração oferecida na casa de saúde era mais que suficiente para ela e a filha. João Claro tinha o apoio financeiro de Mayara. O certificado de conclusão do curso técnico Fia já possuía. Como dissera o Dr. Silva, a índia aprenderia a canalizar seu dom, seria útil a muita gente imediatamente. Mais. Poderia dividir o dom, ensinaria as combinações de ervas, os procedimentos terapêuticos com agulhas, laser. Conduziria pessoas com dons similares. Ele mesmo poria Fia em contato com benzedeiras locais, outros curadores dispostos a dividir seus conhecimentos. Criariam um espaço no hospital, especial para esse tipo de encontro e atendimento. Claro que ter credencial superior para atuar era importante. O Dr. Silva, ao segurar ambas as mãos de Fia e se despedir disse que sonhava ser, aquele instante, um instante de transfusão, em que ele recebesse uma daquelas esferas candentes que ela produzia, para doar a outrem. Ela lhe deu, sem pestanejar, uma bola de lisianto. Essa, o doutor sabia que era somente para si. Fia aguardava, para aquele dia, o resultado do ENEM.
Outro que não reconhecia um lugar seu era Jade.
A maria-preta-de-penacho pousou na goiabeira, bem no momento em que Fia chegou do Eiru. O resedá a vergar, de tão florido, namorador. Aquela cantilena passarinhal, que mais parecia o riscar de uma binga, chorava contracantado com Jade. O velho Selim o deixara sozinho sob as árvores, a purgar. Fia foi chegando de pouco. Estava agoniada, mas ife era seu companheiro natural. Ela gostava de Jade, homem diferente, camaleão. Algo dizia à índia que a natureza se encarregaria de estender ao turco a escada para outros mundos, não tardava.
Jade levantou os olhos lavados, o kajal borrado. Mostrou-lhe um possível sarcoma que se desenvolvia, quieto e progressivo, na axila esquerda. Fia convidou Jade para o sol de fim de tarde e pediu que ele deitasse no terreiro, agora gramado, que recebesse o frescor da terra, que deixasse as formigas fantasmas circularem. Se picassem, ajudariam na purgação. A índia impôs uma pequena bola, à base de cobalto, sobre a mancha. Depois de concluída a operação, pediu a Jade que fizesse contato com os novos protetores, os huguenotes de Mayara. Jade, ainda choroso e agora fraco, enjoado, com sede, lábios partidos, boca seca, perguntou como fazer. Veja através de Uraci, Fia se limitou a responder. Depois do tratamento, Fia ajudou Jade a levantar-se. Ele envelhecera dez anos.
João Claro tocou o braço do amigo como alguém que dá tapinhas às costas desejando coragem. O menino parecia fatigado. Fia o tomou nos braços e ninou, como o fazia quando ele nasceu, tão pequenino. Envolveu-o inteiro com uma mistura de lisianto, cabreúva-nova, essência de ardósia, jacarandá, palmito-juçara. Lá fora, a maria-preta-de-penacho produzia pequenas faíscas e logo uma multidão de vagalumes explodiu no ar.
Isi se aproximou, salamandra silenciosa. Os olhos eram cacheira de Oxum, vidro esmerilhado e níquel. Iara nadava ao fundo, séria. A jornada é assim, Byr, disse a mãe para sua menina florida. Não dá para chorar sangue, é esperdiçar o que se pode doar. Isi aquiesceu, encantada por aquele codinome particular, somente partilhado entre mãe e filha. Recebeu João Claro ao colo e fez festinha no menino, adequou-se à linguagem dele. Sabia muitas coisas, aquele cipoal que beirava os mil anos.
O velho Selim dissera a Jade nem tudo é culpa sua. A Natureza age de formas primárias, secundárias. Investe em suas criações, dá atribuições que só este ou aquele pode cumprir. Seu lugar pode ser aqui, ao meu lado. Gosto de escutar nosso idioma, ouvir Ferhat Goçer na sua companhia, falar de Antara, Bodrun. Capadócia, balões. Você reabilita as dores de todas as mulheres fatais, Umay Ana.
Mayara, a cantante, a pretexto de visitar parentes, partira para Uberlândia.
Aín montava pouco Seu Tonico. O jumentinho era companhia nova, ajudava a escutar os invisíveis. Há poucos dias, o frei recordou a homilia de Antônio. E quem poderia negar que era mesmo o santinho no esquecido ano de 1221, em Pádua? Se o franciscano falava, ele também, aos pássaros, aos pobres? A mensagem flutuava nos voos renovados, de geração em geração. O cristianismo puro, sem ouros e tormentos. Os feitos simples, de amparo, limpeza das feridas, uma coberta, um fruto, um pão, um abraço silencioso aos possessos. A novidade: as mulheres novas e também as já maduras vinham pedir a benção à pequena imagem amarrada ao pescoço de Seu Tonico.
Onde foi que se perdeu a poesia? Aín tratou de a achar.
Em um caderno de desenho, que trouxe de Borba, a cada parada para pouso, sempre ao relento, Aín escrevia uma quadra em forma de prece. As primeiras saíram pueris. Dobrava as papeletas e as dava às mulheres que se aproximavam. Muitas não sabiam ler, mas as guardavam entre os seios, emocionadas, depois que o frei lia para elas.
O frei dizia versos balsamizantes, cheios do amor natural. Ganhava uma coisa e dava duas em seu caminhar. Sempre tinha pelo menos um fruto na sacola de juta. Às vezes pão. Dividira uma coberta em dois. Achara um canivete bom em um canto de armazém. O dono deixou que ele o levasse. Tinham acabado de lhe dar um farnel com mel, farinha e peixe seco. Balas de coco. Rapadura. Carne de sol. Uma moça lhe ofereceu um hábito cor de terra que fora do irmão. Aín, nesse dia, chorou muito.
Dois mil e setecentos quilômetros haveriam de percorrer, o jumento e ele. A todo momento, Aín tocava a carta para o Bispo. Estavam na divisa entre o Amazonas e o Pará. Bar, o trasno, escolhera toadas do Minho[1] para cantar. Às vezes imitava Martírio... aaaaaaaaaaaaaaai mi corazón esta empezando padecer[2]... outras, fazia chorar ao entoar por la mar chica del puerto[3]. Por esses dias cantara fuera de mi ya no quiero tu querer[4]. Corazón partío[5] era a preferida. Repetida, pelo menos vinte vezes, ya lo ves que no hay dos sin tres que la vida va y viene y que no se detiene y qué sé yo, uma a cada quilometro percorrido. Era como fotossíntese.
Os ombros de Aín baixaram. O pescoço afilou, os calombos sumiram. A cervical aprumou-lhe a cabeça. Os ossos estalavam, agradecidos. Vestiu o hábito, que lhe caiu bem. O frei sabia que não tinha mais o dom, mas a memória dele bastava. Naquela tarde, perto da décima oitava hora, ele viu Yin-Yin. E chorou mais, o peso da dor derreou no chão. Até o burrico se sentiu aliviado.
[1] Ó minha Rosinha eu hei-de ir, hei-de ir/Jurar a verdade que eu não sei mentir/Que eu não sei mentir/ que eu não sei mentir/Ó minha Rosinha eu hei-de ir, hei-de ir.
[2] Las palmeras, do ábum Mucho Corazón
[3] Por la mar chica del puerto, do álbum Al cantar a Manoel
[4] Ya no quiero tu querer, José el francés
[5] Corazón partío, do álbum Más
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