Vértebra 49

cachoeira do vô delphim - itanhandu - MG
Dt3 pyárõryua ou não se pode restaurar tudo
Mayara passou as festas de final de ano em Itanhandu. Visitou primos, depois o Conservatório. O padre Gusmão. A todos contou da morte da Indiara, que se foi a dormir, feito passarinho. Ao padre, falou com franqueza sobre o asco por João Claro. O padre não julgou, tampouco absolveu. Pensou, isso sim, na casa de passagem que ele dirigia, nos trinta e três meninos sem família e sem perspectiva, fadados a tomarem o próprio rumo aos dezesseis anos. Aquele capricho que era, aceitar mais um quando o número baixava para trinta e dois.
O padre sabia que não adiantava levar a senhora para ver os meninos, só lhe aumentaria a dor, o desamor. Alguns humanos se agarram às lógicas mais estranhas, para refrear impulsos. O que fazer com uma mulher daquelas? Ela já tivera vinte e um anos de prova absorvente, fez suas renúncias. O que mais? Quebrar-lhe a vaidade como?
A ópera perdera uma cantante trágica. Os quartetos de cordas dedilhadas, um delicado par de mãos. O que dizer de uma cuidadora competente? As indústrias de doce de abóbora não conheceram um paladar refinado. No fim das quantas, o neto fora liberado de uma mulher com o coração partido. Padre Gusmão pôs a mão esquerda no ombro da senhora. Transmitiu-lhe indulgência. No momento do toque a Alcayaga, que estivera por Mayara até aquela ponta de fio, aceitou a troca de guarda, persignou-se e seguiu seu rumo, albergada por um canário belga que esperava, lúcido, no vitral da sacristia.
Mayara saiu da igreja pior do que entrou, vazia. Mexeram em seu vespeiro. Ela se expos e recebeu silêncio, rosários a perder de vista e aquela mão fria na nuca. Talvez fosse melhor a cruz.
O pátio do templo era bem arborizado e os sons do ambiente lhe fizeram recordar o rancho, a palafita. Cada um de seus pés, inchado, pesava toneladas. Arrastada por si, arrasada por si, cantou na mente uma ária que falava de autopiedade, in cosi dura sorte, in cosi gran martire[1].
A avó cantante sabia que poderia tomar um avião ou trem ou barco para qualquer parte. Poderia se enfiar em qualquer buraco e esperar o que, nada a faria despregar-se do lodaçal onde voluntariamente chafurdava. Não se sentia confortável como barba-de-frade. O rancho era um oásis, Catira meio caduca, mas boa companhia. O velho Selim, um príncipe das arábias de quem ela não sabia gostar. O menino, em ficando lá com aquela siriandra, longe das suas vistas, não fazia mal a ninguém, pobre diabinho a saltar de colo em colo. Quando soube da ferida de Jade, no telefonema que Selim lhe deu, Mayara disse bem feito sem se arrepender. Projetara no turco feminino toda a sua feiura. Mayara não tinha forças para voltar. A palafita ruíra, ninguém quis lá viver. Suas economias estavam dilapidadas. Nos seus sessenta e um anos quais buscas, quais sonhos? A cabeça era uma jaca sem gomos. O coração, uma esponja antiga, mofada. O rosto, antes cheio de alegria, maracujá de gaveta. A dama da ópera, professora competente, ficou sentada em um banco da praça da igreja até ter vontade de fazer xixi. Urinou sangue.
João Claro andava quieto por aqueles dias, como se soubesse doer por todos. A menina Isi pediu a sua mãe para deixar que o menininho fosse junto com ela à escola. Ao menos lá ele faria outros contatos, teria outros carinhos. Os três na bicicleta olhavam a natureza verde menta. Isi pensava em trabalhar. Aos onze anos, seus serviços eram restritos. Lavar os pratos, as roupas dela e do menino, varrer, espanar, bordar, pajear. Nas horas vagas, ela escrevia. Com Jovino em Manaus, desinteressara-se por tocar a rabeca, uma lástima.
Jade, por ora, não tocava a teorba. Não havia funcionado cerzir a ferida dele com cabelo. A moléstia era mais agressiva do que ela ou a mãe podiam enfrentar. O doutor Silva vinha dar assistência quase todos os dias. Jade se recusava a voltar para Manaus. Pelo menos ali, se sentia amado para morrer.
A Dra. Maria Silva caminhava pela calçada em direção ao hospital quando viu Xaxim Verdadeiro e os filhos no portão da escola. Pegou o menino no colo, brincou com ele. Em breve conversa, convenceu Isi a ir para a aula e seguiram ela, o garotinho e a enfermeira, para a ala pediátrica.
Fia atuou como assistente, Maria fez um exame completo em João Claro. Tomou várias notas, telefonou para alguns colegas. Não se tratava de síndrome comum. Também não parecia, nesse primeiro exame, algo hereditário ou irreversível. Nas radiografias, aparecia uma sutil lesão no disco da oitava vértebra cervical. Interessante que não inutilizou todos os movimentos do menino, nem lhe cortava o suprimento de impulsos nervosos. Bem estimulado, o menino poderia até realizar alguma tarefa para subsistência própria.
Enquanto João Claro ficou entretido com um carrinho de lego, Maria sentou-se com Fia e lhe perguntou o que queria fazer naquele caso. Consertar o mundo era muito trabalho para uma mulher só. Fia contou que, para João, Isi e ela eram a família nuclear. Que foi o seu coração de mãe quem decidiu por tomar conta daquele menino. Teve ajuda até então, o velho Selim era precioso.
Maria olhou a índia em demorado. Quando falou, foi para repetir o que Fia já conhecia. Sim, o menino precisava de uma instituição que oferecesse tais e tais estímulos. De maneira franca, Fia respondeu que, em outras mãos, João Claro teria sido descartado. O menino fora, sim, descartado em seus braços. E ela o acolheu com carinho. Perguntou à médica o que, realmente, seria investir naquela situação, mais do que já estava empenhado. Contou da Indiara, de toda rudeza da vida vivida por aquela mãe inconsciente. Mais certo seria compreender por que o menino viera nessa forma limitada, sem liberdades. O que não faltava a ele era cuidado e afeto. Todos que conviviam com João Claro o estimavam. Quem lhe tinha repulsa havia partido. Maria falou de esforço pessoal. De vontade de viver. Poderiam perguntar ao menino. Ele responderia.
Então veio a ideia. Maria propôs a criação de uma ala no hospital para o cuidado com crianças portadoras de várias limitações. Uma equipe seria especialmente formada. Assim, nos turnos em que Fia estivesse ocupada, o menino estaria em treinamento.
Como se houvera um imã, o menino sorriu para a mãe e estendeu os bracinhos em direção à médica.
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