quarta-feira, 1 de março de 2017

março, das águas de portela


Resultado de imagem para manuseio da argila

Você toca a argila e ela começa a conversar...
Vai, encontra a Pietá, a argila falou,
fria, macia, perfumosa.
Eu fui atrás, sem interromper o manuseio...
Até que a argila começou a secar...
Aí veio a menina, com o graveto úmido, riscando a peça sem danificar.
Porque eu queria conversar com a menina também...
Devolvi a argila-peça, um esboço, contente de ter manuseado...
Se senti inquietação e raiva nesse dia,
antes de tocar a argila,
conversei com tal emoção e lhe batizei Pietá...
Silenciosa, a Pietá cedeu à mão...
Depois, virou tristeza profunda, mas aí é outra história...

No final daquele dia,
E já era o outro dia,
A tristeza virou amor.
E eu não tinha nome para dar
Tristeza era Tristeza,
Amor era...
O corredor longo
Nos recebeu em lados opostos.
O coração,
Em agonia,
Fez o laço
De um abraço...
Caminhava ele, rodava eu.
O corpo ficou quieto...
Encenou um esgar
Desencenou.
O impacto quente do amor, contudo...
Era amor, Lumus.
E o abraço veio
Com ares de vitorioso
Do inútil e conclamado


Em uma noite de bloqueio criativo
pensei em Cecília Meireles...
aquele olhar ameno, a caneta tinteiro
ensimesmada
entre os dedos dela
as bolhas ao lado
flutuando namoradeiras
o guarda-chuva da viúva
pingando atrás da porta
Um voo sobre a filosofia
O sentido de tudo
Perfume de rosas
um copo com chá
uma noite nem quente
nem fria
Cantar é tão plausível
uma fiandeira
um descampado longínquo
amoras maduras
um pratinho todo branco
Emoções sãs me impedem o choro
e então o bloqueio criativo é só uma coceira vã
ou o mar do outro lado da vida
Ficar em pé prossegue
Como assunto para esse tempo
um verso estendido em forma de gramado

Foi-se o bloqueio, veio o trabalho
Cecília Meireles, poeta da doçura
veio olhar por mim nessa noite
de pingos e hibisco




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