sexta-feira, 13 de maio de 2016

maio maduro




13 de maio


infinitas vezes o deserto quieto
quieto o passo
quieto o verso

infinito é medida tirânica
o deserto é quente e só
o passo, o verso, uma testemunha

todas as madrugadas o deserto
areal vermelho estridulante
o passo, o verso, espera

o deserto quieto
chama o passo, quieto,
o verso, um grão

18 de maio

tem alguns de mim
que são as confissões de outros cadernos
o tempo vai passando, os dias
e algures e anotações de descartar
tem alguns de mim
que são as transações de mercados livres
posta restante para gatos desaparecidos
tem alguns de mim
que são recados ternos, truculentos, de encontros cantados
quanto dizíamos, quanto queríamos crescer
meu combinado hoje é não ofender Deus
não lamentar, revoltar ou ausentar-me
mas viver
que tem alguns de mim
que são as virações de humor assim, do nada
e as escotilhas se abrem e já são velhas disputas
inúteis contendas das quais o mote já não cabe
já não é a primeira vez que ouço
temos que cantar mais
e alguns de mim, que só fazem cantar
sentem uma pena de pasmar...
essa frase - queremos cantar mais, deve ser um elegante cale-se
que não queremos pensar, sentir, agir
temos que cantar mais
pois que cantem que alguns de mim já estão fartos de cantar
as razões são tantas, muitas de humor virado
e o cordão encantado das horas
me faz olhar alguns de mim
que são as exaltações de Jeremias
ou um salmo 41:2
tem alguns de mim esperando o trem
tem alguns de mim na grade da janela
o gato não vem
tem alguns de mim esperando armários novos
para velhos papéis
tem alguns de mim esperando o futuro
tem alguns de mim
amém

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