domingo, 3 de janeiro de 2016

janeiro e os gatos, ou flores, ou chuvas recorrentes






 3 de janeiro


Se a vida tem algo de graça
deve ter
porque os gatos fazem troça
urinam seu cheiro marcante
roubam
e olham para mim
como se me conhecessem sempre

Se algo eu fiz nesta vida
foi acolher alguns gatos
por alguns fiz bem
a outros perdi

Há os poetas que falam de gatos
hoje sou só alguém com saudade
e os versos são de ninguém

Entrou outro ano
Nena com ele, um gato
um caco de amor

Enquanto a chuva continuar

Busco entre mil objetos
um que renove a luz
do olhar azul de um gato
ele tromba, com delicadeza,
nos obstáculos da casa
Busco, na calada da noite,
a imersão que me vem da fresta da porta,
entreaberta porque um gato
não pula mais a janela
Se a vida tem algo de graça, talvez...

10 de janeiro

que cheiro terão os olivais?
a garoa traz, de alguma sorte
rumor de voz serena
é meu coração quieto
que cheiro terão os olivais?
E as brumas de charcos distantes?
pois se moram
olivais, charcos, poemares em flor
jardins suspensos
nas peças de linho das minhas veias
do sentimento
tenho a roupa limpa
lavada e engomada a camisa
e a vida vai e vem
verde oliva

23 de janeiro

As palavras dormem
quem as acorda?
Que Vinícius dá asas
de escrever lençóis brancos
para enfeitar a folha de luar?
As palavras nos dedos do poeta
e eu, copo d’água sobre o tampo
piano fechado, frangalho, nem me vi chegar
Que dor é essa
Caiada no silêncio de um melisma sem desenho
que susto, versos de dar, versos de dizer
palavras de amar
e elas dormem, dormem, dormem

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