quinta-feira, 21 de maio de 2015

uma fálua de maio


 

2 de maio

Ah, Zeca, o que estamos a viver neste chão?
E não bastam as Angélicas a chorar os filhos?
E não foram-se os anos de amores e embustes e Leopoldinas?
E as vassourinhas já não varreram o que era pudico varrer?
E não coraram de falso pejo os paletós escuros, de linha estrangeira?
Ah, Zeca, o que vai ser de nós, sem ar nem fogo nem cal, que a vida já vai?
Demoro-me na mira de um mar sonhado.
Trago à mesa, ao branco da folha, Zeca,
os sonhos desgastados que teço para José.
E eles são de ninguém, e são meus, o único sopro que me vale cantar.
E sou eu, farol alcançado em horizonte tardio para a mim consolar.
Sempre estremeço ao som dos helicópteros.
Sempre tropeço no descompasso, no contra, no presto arbitrário.
Ah, Zeca, Zeca, quantas canções mais, Zeca?
Quantas Grândolas, quantas praças de maio, quantas fáluas, quantos emparedados?
Respiro, confortada pelo acorde melancólico, José volta à cena.
O branco da folha, rabiscado, espera.

9 de maio

 Mãe,
Dou-te meu mais humilde verso.
Dou-te a folha amarelada
E todas as lágrimas que já chorei.
Dou-te o suspiro mais ameno.
Dou-te o coração que me deste.
A flor de lótus da minha canção.


12 de maio


Os galhos nus do abacateiro.
Uma folha paira, amarelecida.
Os galhos nus do abacateiro
o que é e o que será.
Quando a folha cair
A noite terá chegado, fria e ocre.
Os galhos nus do abacateiro
Miram as brumas úmidas
E permanecem, sendo.
A folha se aconchega, então,
Junto ao tumulto da calçada.
Virou húmus, cobriu a terra de liz.
Os galhos nus do abacateiro aguardam,
Ternos
As folhas que virão.


20 de maio

Quatro canções curtas
Um conto de sol
Na tarde outoniça
Declaração de amor
A clave dos dias
Repicando o mesmo padrão
Chuvarada
Ouço a valsa flor
Polaca cantoria
Meu coração chora
Um lamento breve
Em renda e veludo
Tua mão antiga

28 de maio

eu te bendigo, noite fria
porque tuas asas gélidas
desenham formas na janela
o vidro vira mosaico
a surpresa descansa
em cada delicadeza
e são grãos
e pétalas
e gargantilhas
e sorrisos tímidos
eu te bendigo, noite fria
porque o rumor angélico
desperta em mim
matéria digna
de gotejar janelas
de garatujar decassilabos
de os desmontar
de escorrer
ante o inevitável inverno
que vem
um hálito quente
faz contato
um gato
um casaco
o ruído do aquecedor
eu te bendigo, noite fria
que navega guiada
mais um brilhar do sol
em equador celeste
mais um ponto no verso breve


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