segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Dezembros, quantos mais?



                                        

                                                    * Chile, 2005


Te perguntar, dezembro, quantos mais
gera despedir-se
e se tudo é impermanência,
tal vazão é rio, caudaloso
Ao longe, numa casinhola em clareira
Chopin compõe seu Prelúdio em Dó menor

Te perguntar, dezembro, quantos mais
gera futuros
e se tudo é um suave continuar
tal vazão é rio, a desaguar em rio maior
Ao longe, na campina
A janela aberta deixa ouvir o prelúdio

Te perguntar, dezembro, quantos mais
gera homilia
e se tudo são coisas inefáveis,
tal vazão é rio, foz
Ao longe, na campina
o piano soa seu compromisso

Oficina de quadras


O mote:
“Santo Antônio de Lisboa
Era um grande pregador
Mas é por ser Santo Antônio
Que as moças lhe têm amor.” 
Fernando Pessoa

1 - Ó Sant’Antonio de Lisboa
ouve o meu canto doído
que me devasta a alma
um amor quase bandido



2 - Ó Bárbara, Santa Guerreira
Que a chuva abençoou
Lava teu manto de prata
Na ribeira do meu rio

Na beira do meu rio
Colho terna flor
Pra por nos Teus cabelos
Num gesto d’amor

Num gesto d'amor
me dobro a meditar
Tua lágrima bendita
veio consolar

Ó Bárbara, Santa Guerreira
perfume de glosa sem fim  
Cantiga, frêmito do rio
a prece chuvosa pra mim

3 - Com lambidas de amor
As lavas de fogo do sol
Singraram a Terra em nós
Era dia de concerto

                                 **la bioguia - Volcan Cotopaxi

10 de dezembro

Sinto na palma a textura curiosa
e nos ouvidos os suspiros do vento
das brujas, diriam eles
Sinto no coração a geleira a me chamar, distante
Tenho cumprido a missão, minha mãe
Tenho cumprido a missão

Sinto no lago dos meus dias infinita saudade
e no encontro entre água e foz
as minhas feitiçarias
Sinto, e a lava é premente, lodosa
Tenho cumprido a missão, meu avô
Tenho cumprido a missão

Pai, eu falo com os mortos
e te deixo sem saber de mim por meses
Sinto que está bem assim
Fui moldada pelas erupções
e hoje torno-me cinza

Não extingui a chama porque a memória
das coisas boas
está sofrendo mutações
para trocar de corpo em breve

Não tenho dó, às vezes sinto a rudeza do apego.
Os vulcões do mundo aguardam meu voo solitário.
Entretanto já não vou só.

E assim, sem disposição para sanar as palavras
Consinto por cumprir o poema
Que seja leve, que seja beijo, que seja teu.
Tu que não me deixas escolha.



13 de dezembro


Conta a lenda que a donzela cismava, cismava, amparada pela moldura da janela
Atravessava, com o olhar, a vastidão da planície, o azulão do céu
Murmurava, suave, cantiga de brinco, de roda, de estória, que as de amor esquecera
Acalentava projetos futuros, ademais, da janela era o que se podia fazer
Roendo seus devaneios (ou seriam desvarios?)
Ia e vinha de uma ideia a outra sem deter lugar algum
Mais valia estar ali, em nada estar
Pois que ainda era imaturo o seu proceder na vida
Ela, donzela já entrada nos anos, ainda insistia em ansiar
Sabia, por saber, que a vida lhe exigia rendas, bilros, tramas e filhos
Só que a donzela lhe devolvia realejos
O tempo desmaiava aos olhos da donzela, encantado com tamanha lassidão
A cortina da noite amarelou o azul do céu, verdejando-lhe a íris.
Lágrimas lhe escorreram. Fim da lenda.

Para o Terra Sonora e Paulo Santos

Com lambidas de amor
As lavas de fogo do sol
Singraram a Terra em nós
Era dia de concerto

17 de dezembro

O dia envidraçado pulsava
Cálido, airoso.
O frescor brilhante das vitrines
Transpirava macadâmia
Era dia ímpar
De estar contigo
Na curva de uma alça bem talhada
Antevi teu abraço
Que jamais acontece
Não é preciso
Pois que ele está na voz
Bálsamo grave e cantarolante
O dia encantado valsava
Doble, charmoso.
O dourado das decorações
Convidava ao luxo
Era dia de advento
De estar contigo
Num momento, eu não vi mais nada.
Teu sorriso invadiu minhas entonações
E o que acontece são os sinos tocarem
E isso é preciso
E está na voz
Lira de sol escaldante
E quando terminou o dia
Eu ainda podia ouvir os sinos
A dobrarem alegres
Livres
Donos da própria vida


19 de dezembro

criar e dissolver
eis o grande segredo da poesia

Os dias vão ficando dias.
Vão flertando dias.
Dispondo os dias.
Espero poder tocá-los todos os dias,
com carinho.
Vem falar comigo, Meimei, vem.

22 de dezembro

O poeta
Em transe pela musa a traveste
Calliandra
Calliandra
De espinhos
De grotões
Escarpados
Quereria a tirana da rosa
Rosa imorredoura
De espinhos
De umbrais
Cobertos de hera
Ô rosa - tirana
Ah, tirana da calliandra
Ô calliandra
Tirana
Namorei a um centauro
Ô calliandra
Calliandra
Que nunca foi namorado
Ô calliandra
Calliandra
que nunca foi namorado
Calliandra
Calliandra
Ah, Hamilton de Holanda
Ô Calliandra
Calliandra
Nos teus dedos silencia
poesia
Calliandra
no rupestre memorial
Calliandra
Calliandra
Vai tocar o meu amor
Ô flor
Calliandra
Vai tocar o meu amor
poesia




Hoje quis pegar a literatura e a música no colo.
Quis protege-las, como o faria um super-herói.
O que será que é de se ensinar nessa vida?

Aprender a falar, ler e escrever
é imprescindível neste orbe.
Sem o exercício da leitura
os livros seriam apenas mariposas.

A música é vaga,
não precisa de nada,
ou precisa do Frederico,
passarinho empresariado
pelo músico Lenine.

Então, hoje eu tive compaixão pela música
pela literatura
por Monteiro Lobato
por Tia Anastácia
por Macunaíma.
Pelos referenciais obsoletos.
Pelos discursos que não se sustentam.

Saudades de Pauliceia Desvairada.

É bem bonito
ser pesquisador.
Prefiro, entrementes, os que
mexem com formol
pipetas
centrifugas.
Esses são ícones
Da minha alma.

Farei um aqueduto para
Unir

saúde, literatura, música e afeto.
No mais é sentir o vento do tempo a saudar o novo dia.

Tia Anastácia,
Sereia,
Lisboa,
My Lord,
todos os seres alados
que guardo em mim
Firmam-se sob minha pena.
Todos são seres
marinhos
rastejantes
que mamam.
A vida é boa
porque
podemos ler
revisar
E cantar

 29 de dezembro



deusa do espaçotempo
cúmplice das minhas demoras
musa das veredas tortuosas
relatora do meu encantamento
eu estou aqui
jamais estive à mingua
doce amada
dos sonidos mais dolorosos
ora venenosos
ora potentes
ora simples
ora ditosos
deusa do espaçotempo
a ti me entrego
em perene espanto
visita-me, o senhora dos ais
e canta para mim.


31 de dezembro de 2014


Outonico no verão
Foi assim que muitos anos bons
Entraram
Sem bater
Evoé candeeiros do samba
Que posso oferecer
Fogo aceso
Cuia de chimarrão
Eis o meu coração São Silvestre
Na avenida
O bom de vir a frigideira
É que ela vira tamborim
E o ano dança
E dorme
E sonha
Outonico no verão
E as palavras sorriem
Apesar
De o corpo não ver nada há dias
Evoé todos os livros
É assim que saudo
Ao instrumento que me cabe tocar
Embaixo de um coqueiro em Zanzibar
Outonico no verão
Outonico no verão
Outonico no verão
Feed out




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