terça-feira, 4 de novembro de 2014

Novembro me devolve um pouco de fé

4 de novembro

Um ar me faltou por esses dias
E eu cantei a pulmões plenos:
Uma graça me alcançou.
Posso ver dormir este ser dos matos
Mais uma vez.
Fico pensando quais aventuras viveu
De que foi prisioneiro
Que sustos,
de que mortes escapou.
Sinto seu cheiro dos breus das brenhas
E recordo meus apelos a Nossa Senhora da Purificação.
Mãe de todos nós, ó doce dona
ó beladona, ó camomila
Obrigada por entender minha interrogação.
Sou de algum lugar entre o mato a foz.


5 de novembro

O sistema que adotamos para o presente blog em 2014 diminuiu consideravelmente as visitas.
Porém, facilitou a visibilidade deste escritor.
Vemos sempre futuros nas plantações.
Nada é escrito a esmo, para ficar estagnando no ciberespaço.
É um continuum aprender a escrever.
Obrigada a você, que ainda folheia este rascunho.

7 de novembro

Com um sorriso
A voz ecoou chuva adentro
Surpreendida, em tom firme,
Esta frase tão impacto dita diante da Igreja, que muda vidas
Sela o destino dos sós
Expande a energia dos homens, detentores de tal poder
Corrige desvios, desvãos, desvarios.
Ouve-se ainda, no farfalhar das águas dos bueiros,
Música doce, prece afável de um coração partido
Intenção daqueles tempos em que o mundo seria lindo.
Guarda, ó noite, a frase interrogativa, súplica votiva,
Olvido dos tempos, paga pelas febres terçãs que causei.


9 de novembro

O problema causado pelas fantasias é que elas alimentam o ego. E ele é um cara guloso. Quando a realidade explode, como copos de vidro azul esquecidos em armário – e eles explodem assim, do nada, sem nada os ter tocado, o ego espatifa com ela. Já disseram isso nas terapias, o ego ama o amor que ele sente. Disseram a mim, que sou EU. O ego é surdo, daqueles surdos sutis, que só captam o que querem. Quem sofre? EU. Porque então fico desguarnecido com a louça que quebrou. Fico sem ter o que servir à mesa, sem ter o que escrever. Quanto tempo um momento pode durar? Uma refeição pode durar? Um amor egóico pode durar? Para meu alívio, sou EU quem escreve. Tomo a vassoura, a pá, que são também algo de MIM, e varro a esculhambação. O EU, meio lanhado da explosão, respira, respira, se abaixa em atitude humilde e devolve o ego ao seu reservatório, todo quebrado. Olho lá dentro, lá no fundo, e aceno para ele, compassivo. Um dia, amigo, haveremos de nos completar. E as fantasias, não nomeadas nesta crônica, seguem camufladas, pedindo arrego aos santuários.

10 de novembro

Todas as noites,
imagino meus pés dentro de belos sapatos.
E caminho, ondulando a saia rodada e floral
ao longo de orla distante,
baile nas calçadas à portuguesa.
Este é meu exercício diário,
tirar do meu corpo
a mornidez do instante em que sento
e rolo a cadeira pela casa.
Sempre me doeram as mãos.
Sempre me sangraram, mãos e pernas,
sustendo amarras e apoios. Espero acabar com isso.
Embora tesos, meus braços são incapazes de socar,
talvez possam torcer, quem sabe esmagar. Espero abraçar.
Fiz voto de silêncio para proselitismos.
Espero que nenhuma palavra se perca de mim.
O bem da noite é deixar
que os pés alcancem domínios,
arrastem os saltos, vagueiem pelas ondas,
como quem persegue o barco apostólico.
Imaginar é diferente de fantasiar.
Imagino, sapatos nas mãos,
Um caminho até tua casa,
Um roçar das pedras brancas em meus pés virgens.


16 de novembro

Aquele canto da mesa
Lençol ponteado de mosaicos

Intui começos, meios, eclipses entre agulhas

Pesei os tentames, sai, tornei a pousar, espetei

Aquele canto da mesa

Rodava mansinho, ia, vinha, pedrarias pra lá e pra cá

Aquele canto da mesa

De repente, em completa desordem

Irrompeu a trama de fios, delicados, quebradiços

Não eram ouro nem vela, eram os fios do destino

Habilitei meu passado em eons e antevi rosas

As rosas que se podem colher aos novembros, sem espinhos

Suaves, etéreas, amoráveis. E toquei tuas mãos.

19 de novembro

Imerso no tecido rosa
O verde, musgo dos olhos
Acolhia-te o torso
Paz, calenda da noite
Esperada
Renovada
Revelada
Imerso no tecido preto
O verde, apanágio dos olhos
Acolhia-te a palma
O amor, maduro dos dias
Ensombrado
Revirado
Ressoando
O verde transpassado, em penumbra
Entornava a lágrima
Rósea e negra, em festim
Mãos, respiros, saudades
Saudades, saudades


20 de novembro

Dia virá em que caminharemos abraçados
Imunes às bulhas mundanas
A força do marketing pessoal dará vez à luminescência que somos
Seres arenosos, airosos, voláteis, feito fogo de palha
Põe a mão na consciência, tu que não partilhas conosco o cantar
Olha em volta e pensa: trabalho conjunto, convivência semanal
Risca do teu caderno o desejo ideológico e olha, verdadeiramente, por nós
A voz, pressionada, evola, vai cantar em outras plagas.
Outras bulhas então virão.


21 de novembro

Dia repleto de canto.
Vários aconselhamentos, desapontamentos, quem sabe.
Fato é que os ouço cantar e me espanto.
São bonitas as expressões de canto.
Alguns tem medo.
Outros se desesperam.
Desarvoram.
Querem que o canto soe pronto
quando o trabalho é um eterno macerar.
Dia repleto de canto.
O meu amado, envolto em luz azulada,
lindo, doce
eu o acomodei
entre Nossa Senhora e São Francisco de Assis.
Para que cante mais.
Para que ofereça mais vezes sua mão de amor.
Dia repleto de canto.
Eu fiz o que pude até o sol se por.
Depois, precisei de repouso, GMPB,
que minha garganta secou, meu peito virou gatil.
Agradeço a todos os que cantam.
Estes são imprescindíveis.


22de novembro

Oro todos os dias
Pelo fim das crueldades
Pela possibilidade de amor indistinta
Pela impermanência doce
Pelo compromisso de um toque
Pela lucidez das ações
Pelas palavras que maltratam
Pelo entendimento da lei do outro
Pela possibilidade de cantar
Pela delicadeza
Pelas transmissões galácticas
Que tudo corra bem para todos nós
Olha por nós, Santa Mãe do Cristo
Para que possamos permanecer em prece
Que assim seja.


25 de novembro

Contas azuis
teus olhos
luz
céus revoltos
chuva
teu capuz
ainda ouço o murmurar da corredeira
corrimão do mundo
desvão do coração
uma palidez profunda
tingiu o véu
depois daquela tarde
eu canto, contudo
em terna calmaria
os olhos prosseguem
azuis


26 de novembro

Eu nunca te peguei de jeito
e te disse
eu te amo, Vida.
Faço-o agora:
Eu te amo, Vida.
Meus pais auxiliaram no nosso enlace
E então eu te encontrei, Vida,
cinquenta e dois eons passados.
Eu não te convidei para dançar, Vida.
Fiquei assim, cafona, abestado,
Achando que eras tu quem me convidarias.
Ou embasbaquei, temeroso de te pisar o pé.
Somos parceiros, segreda um anjo
Soprando na literatura
Tenho que te aproximar de mim
Amassar o bico do teu sapato, que seja, mas dançar contigo.
Faço-te emblemática,
Mais carregada de bagagem
Do que nos foi dado partilhar
Olho-te tímido, às vezes magoado
E não sei perguntar o que tu queres de mim.
O que eu quero de ti?
Sentar-me na varanda e olhar-te
Essa imensidão de céu que são teus olhos
E agradecer-te
Tu tens infinita paciência comigo
E me espera, respalda, acolhe
Me oferece teus sinais
E o melhor, dá-me esse espetáculo diário
De natureza e convívios
Eu ainda te espreito de olhos baixos, Vida
Ainda debocho de ti.
Ainda te aponto o dedo acusatório muita vez
Chamando-te madrasta e injusta.
Tu és parceira, já disse
E eu não preciso mover uma prega
Para que tu te desdobres por mim
Brindando-me o tempo.
Enquanto trabalho, alquebrado,
Te sinto pulsar e abrir teu leque de possibilidades
Para mim.
Esta noite, Vida minha, vou te sopesar.
Vou fazer um ninho, feito de todos os poemas escritos
Para ti.
Esta noite, querida Vida minha, eu dormirei contigo
Sob o travesseiro.
E quando o sol voltar a raiar, teremos dado conta
De nossos nós de amor.


 27 de novembro

Árias à mulher que canta.
Animosidades com a mulher que canta.
Tragédia: a mulher canta.
Telúrica, a mulher canta.
Estoica no seu cantar, eis a mulher.
Enlutada no seu cantar, eis a mulher.
Protesta e canta, mulher!
Provê e canta, mulher!
Canta mais!

Recitativos ao homem que canta.
Loas ao homem que canta.
Tragédia: o homem canta.
Hercúleo, o homem canta.
Imperial no seu cantar, eis o homem.
Enlevado no seu cantar, eis o homem.
Dita e canta, homem!
Delira e canta, homem!
Canta mais!
E quando cantam, mulher e homem, as serenatas despedidas
Eis que o que se ama refulge
O trabalho prospera
A cantata espera
As colheitas de perdão

28 de novembro



As canções (aquelas) espafiram no asfalto
Faz tempo.
Eu tenho uma companhia potente,
ideias coerentes
e luz nos olhos
continuarei escrevendo... e cantando.

Os cavaleiros do século 12
Ainda erguem seus elmos nas marquises,
Gritando frases de efeito.
Tudo é efêmero, cruel, mas efêmero
Em certos momentos a égide acena
Por dentro, de dentro.
E a mente refreia.

As demissões viram lição de viver.

O padrão dignificante já foi patenteado.

Afeito a drama mexicano
ou tragédia verdiana
wagneriana
Subo ao parapeito do apartamento
E prossigo o cantar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

verso bordado

Lá fora a luz do dia, baça. Tu me disseste qualquer desafeto, verso E foste embora sem adjetivo que se interpusesse. Eu, às...