sábado, 2 de agosto de 2014

Flip, agosto e algumas notas, enquanto a poesia passeia por Saint Tropez

1 de agosto

21 dias
despi o negligê
desci a sandália de tiras
escorri o sofá esfarrapado em que durmo
o caderno amarelado na banqueta
o lápis rolando de lá para cá, lento.
Sob um varal improvisado
onde secam três pares de ceroulas
e um vestido floral
remexi jornais de trinta anos

as manchetes cantavam novas enchentes
e Itaipu potencialmente salvadora
Paraguai tinha um que de Araguaia
Brasil uma partilha de Tucumán
o coração sonhava em Porto Mont
algo em tom de Ignácio de Loyola Brandão
ou hotel La Moneda
ou tiroteio no Balança Mas Não Cai

e o destino das gentes era viver rasamente
rezando sem rezar

um arrepio, frio
puxei a coberta amarfanhada a pelo de gato
e perdi-me na fumaça do albany sem filtro

a janela suja, coberta por um lençol
tremia vez ou outra ao assovio do vento

mais um trem de Parati
repicou os trilhos

murmurei uma canção da Martinha
e fui-me entregando a sono breve,
ela (a poesia) voltaria amanhã.

20 dias
Salzburg
A igrejinha de São Benedito
escondia uma peleja de pastéis
que não se aspira em Maria Alm Church
o pó, fino e calcáreo
esquadrinhava os bancos gastos e vazios
e sonhava a irmã longínqua, talhada em 1374
percuteria e viola caipira
talvez lograssem paisagens febris
em algum console, no altar
a flauta cantou seu aquecimento
as luzes precárias e azuis
tremularam em suspensão
eram o chão antoninense
em mozarteum scherzo
meus pés, calcados em estribo firme
eram mãos no cimento
do banheiro
rústico
mas limpo
minha voz era nanquim

19 dias
Paris
as cerejas esperavam
no saquinho em forma de cone
Montparnasse evocava Vincent
vitrines azuis

18 dias
Miami
No aeroporto
teu olho direito debruado em cascatas
dizia um adeus incômodo
Saturno, o tempo é seu


17 dias
Lima
os dias em não dormir
foram-se em digressões
pedidos de amor debelados
porque amor não se impetra.

16 dias
São Paulo
o mapa aberto sobre a pedra
clareou a rota Barra Bonita Aparecida
tempo bom que vem

15 dias
Detroit
rodovias tonteadas
o dia dos solteiros se ria
de sua sandice

14 dias
Salamanca
o palco azulado
plateia às escuras
teus ombros à mostra
pequena nudez

13 dias
Vicenza
o esforço é grande
já cantou Fernando
Eu, Diogo Cão, navegador
sentado em cadeira com rodas
afundei em bruma profunda
capitulado, soçobrado

12 dias
Creta
o sol habilitou meus dias lianos
a sombra de Spinalonga singrava, calada
ombreando as encostas
tinindo o formão

11 dias
Brighton
ali começou um amor
as algas da beira
acarinhavam as ondas marolinas
e eu, exilado em campo geral
esperava o dia da ribalta

10 dias
São Miguel Açores
sol tórrido, ecos de escravos
cheiro de gente, panfletos
a sociedade modelo era um sonho
caído em tolas mãos

9 dias
Ilha das Cobras
quem seria essa megera em miniatura
a receber a furiosa mensagem
de que seu gênero era vilão
sua alma era imodesta
e seu coração cheiraria a pano de chão?
Quem poderá perdoar isso?

8 dias
São Jose do Rio Preto
Eis um caminho 
talvez fosse amoroso o chocolate em Monte Verde
Ou aguada a gelosia em Poços de Caldas
exilado, ainda, meu coração se despedia
olhando o branco do próprio rosto no ataúde

7 dias
Lisboa
Eis-me, querida de Fatima
debulhando o rosário de teu corpo gentil
em dias assim, rezar é cantar trinta vezes

6 dias
Aparecida do Norte
Vidoeiro ou Teixo (madeira que enverga mas não quebra)
Tua súplica no vídeo causou reticências em minha canção

5 dias
Cruz das Almas
ouvia teu dedilhado tão limpo
o piano é um instrumento onírico
entre uma tosse e outra,
falhando os meus músculos de canto
pensei outra vez nos filhos que não fiz...


4 dias
Campos
O tsuru alça voo.
Sobre a mesa riquezas espirituais,
Xicarinhas e o movimento das tuas mãos.
O cheiro do combustível machuca a laringe
E revela o significado: voraz.
Suspiro. Tudo está no seu lugar.
Eu tenho fome de viver. Fome de ser feliz.
Tanto tempo, nenhum tempo passou.
O sereno é noz moscada, uma pitada,
Maresia e cor.
O açafrão do fogo beija teu contorno,
Que não me é dado beijar.
A voz da Giuditta ensina: tu viras agora à direita...
A sede pode me matar.
Tenho as atenções vivas
E o coração curvo, do respeito que te devo.
O que não será assim será, fazer o que... 
Não é viável acusar a infância
A falência, a falta, a ausência, o acaso, o seio.
Tudo é por nossa conta e risco.
O fog a meia-noite embeleza a cidade banguela.
O amor está no ar.
Olha, outro tsuru alça voo...


3 dias
Monte Verde
Por hora vou agradecer.
Pela beleza do encontro, que dá asas a esta manhã de segunda-feira.
Pelos caldos, pelo vinho, pelo sagu.
Pelos irmãos alcoólicos e perdidos, para os quais manifestamos apreço e dobramos mentalmente grous.
Pelos pais e mães lamentados, desejados, adorados.
Pelos idosos, exemplos.
Pelos casais com 60 anos de casados.
Pelos amigos.
Pelas dificuldades.
Pelas limitações.
Pelas superações.
Pelas terapias.
Pelas depressões que desejamos longe de nós.
Pelos animais que nos fazem companhia.
Pelos humanos em primeira instância.
Pela reabilitação dos doentes por adição, dos colecionadores de lixo, dos que vivem como feras, dos que vivem envoltos por brumas, sonhos vãos e desilusão.
Pelo esforço de obter o perdão, esse que ainda não conseguimos nos dar.
Pela musica das solidões e cais.
Pelo canto.
Pelos salvamentos e vocações.
Pela coragem de viajar.
Pelas nossas vidas, que conseguimos administrar.
Pela longevidade.
Pelo fogo das tochas.
Pela companhia breve.
Pelas distintas formas de encarar a vida, pelas certezas e incertezas.
Pela aparente segurança e domínio da situação.
Pela iluminação para todos nós.

2 dias
Antonina
Os seixos do caminho contados,
um a um
Fizeram curva a esquerda,
Rimaram cismas, rondaram, ralharam
Apadrinharam o azul dos olhos teus
No infinito cúrcuma, coincidência,
O musgo dos meus espreitava, bovino.

Haveria de chegar (a poesia), haveria de chegar...

1 dia
Rio da Prata
Um desatino te querer, bem sei
Entendo parcos os andaimes da vida
Empaco, feito camelo em solo tuareg
cismas, cismas, cismas a me conduzir ao teu encontro
os pés inchados, as dores nos braços
Apoio os remos no respaldo da barca
e meus cabelos roçam teu peito virtual
poucas lágrimas me caem, é inviável chorar
dei-as (as lágrimas da poesia) ao rio

o dia
Pinhais
Ainda há muito que viver, meu amor.

Há que se completar a lacuna entre 
O fecho do brinco perdido em teu carro
E a partilha do canto em spot azul.

Há que saciar a fome e a sede
De uma vontade entre primeva e sublime
Que a força da vida imprime ao corpo.

Há que aglutinar afinidades e transubstanciar, sem transgredir.
Difícil encher de cor este último verso.

Há que nada desejar.
Deixar que a vela tremule, lenta
Enquanto a falta da tua mão na minha
É como um tronco atravessado em estrada de terra.

Há que perceber, 
para depois, 
quem sabe milênios,
Evoluir.

Há, ainda, as crianças histéricas. 
As crianças azuis.
As crianças cristal.
As que não fiz nesta vida.
Quantas eu tomei ao colo, e ninei cantando...

Também há a conversa de camarim.
Conversa de corredor.
O cartão de natal expedido em 1990.
O ano da morte e renascimento
De José Carlos de Proença.

Há o que eu não aceito, feito criança birrenta...

Há um pedido de morar na areia. Contigo.

Há um frio artificial no pescoço.
Tua gravata.
O som das trombetas infernais.
Os Anjos de verde, acenando encontros
Que quereria liquidados.

Há o pôr-do-sol.
A magia da noite, dentro de nós.
A frase, que soaria lamuriosa, se eu a pronunciasse.
Então eu te sorri.

Ainda há muito que viver, meu amor.
Meu amor, meu amor, meu amor.

28 de agosto

Sera um elefante?
Uma bela conexao descrita por Lowen?
O escudo do espinheiro?
Por detras se esconde um vespeiro?
Ou as vestais?
Sera a Ave Maria improvisada?
Ou a urna cilindrica repousada em campo gris?
Sera um cachorro?
Uma bela conexao descrita por Reich?
Dulcinea esmerada para Quixote?
A primavera adormecida?
Ou vesperais?
Sera a cancao de cura dos Humanos? Ou uma urna menor, em marfim?
O que sera so nos e que sabemos. De algum jeito, nos queremos bem.

31 de agosto

Uma flor em um espinheiro... a poesia piscou para mim e virou agua, dentro da planta em defesa.

E se eu remasse, e Saint Tropez me ouvisse
quem sabe, la naquele fim de mundo
o amor, ou a poesia, e o mesmo...

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