sábado, 12 de julho de 2014

Gelo, julho e outras guloseimas




10 de julho

A poesia é água tinta às vezes.
Eu não fui às minas de carvão da Bélgica.
Nem fiz valer palavras tristes
sobre bombas explodindo no Japão.
Não empunhei paus e pedras na Revolução.
Fora do país, cantei na Argentina, no Chile.
E lá os dias foram todos sol.
Os argumentos às vezes não se sustentam,
mesmo poesia.
Melhor fazer uma ode à flor,
a Nena, gata-coruja que vive comigo.
Depois, o vento leva as cinzas...

12 de julho


às vezes tenho a sensação das árvores
memória ancestral de respiros
e fotossintese.
quando desarvoro, padeço.
na terra de pinhões
sou seiva.
minhas folhas farfalham
caem sob a bruma.
produzo cauim e canto.
às vezes tenho a consciencia limpa
os temores de longas eras
e armistícios.
quando declino, padeço.
na terra dos pinhões
sou seiva.
minhas palavras marolam
enquanto a lua cheia.
produzo sumo e sede.
às vezes tenho as mãos doridas
os terrores de longa data
e pactos.
quando durmo, padeço.
na terra dos pinhões
sou seiva.
minhas horas acenam
caem sob a bruma.

29 de julho

a mao terna da poesia
firme sobre a mesa
tesa
resmunga um canto silabico
e insiste em adiar-se

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