terça-feira, 1 de abril de 2014

Tens as musas e outros poemas de abril


*google images

Murmura a noite, por Osíris.
Ouve, que és tu Isis, a cantar o azul chumbo sobre bordão.
Responde, ó casto címbalo gentílico de Ápis,
Tens as musas suspensas pela mão.
É tarde já, o umbral da madrugada te saúda.
Dizes elegias de aliciar os deuses
E coroas de lilases o samovar de Zaferan
Cantas, sôfrega, feito deusa desvairada
O cântico de Belenos
Mais zéfiro a cada estrofe.
Pões a palma sobre o regaço desnudo
Onde a curva lasciva mais descai
Ris, triste até, de tanta verruga que tens
Fazes um carinho desmaiado sobre o mamilo rijo
E lembras os dezesseis anos que já vão sem mão outra que a tua
sobre o seio.
Rolam pedras sobre pedras
Tanta des ilusão
Inúteis relíquias a dormir em baú mofado.
Lutas pela galeria
Idade pérfida essa que o Anjo ponteou
Zílex e Vangarden a repicar o carrilhão.
A noite metáfora te jura ambrosias.
Rubra de pejo a tua face
Gelo seco na varanda e rubi.
E tarde já, o umbral da madrugada te saúda.
Sabes que anseias chamá-lo e não deves, o teu deus dos cristais
o teu morfeu dos bisturis, distante e indelével.
Tateias essas galanterias greco-egípcias por não poder gritar
A verdade mais abrasiva – ama-o, do mais revolto dos amares
Rumor dos mares das navegações primevas
Recôncavo dos mavericks havaianos
Enamorou-te de um corsário atávico ou pórtico madeira-metal,
tu que és cristalinas águas azuis.
Nenhum farol te dará guarida, deusa dos nadas...
Atravessas solitária a fímbria da manhã perdida
Sem vintém e gentilezas, que isso é lá para as outras
Curva-te, dama de um futuro que não vem
Impossível enxugar-te o pranto quando ele jorra
Muitas vezes já choraste
E nem eras a era de pó que és
No momento só devo mirar-te
Tonta
Onde foi que se perdeu a tua égide, ó Isis?



www.facebook.com rafael rocha

6 de abril
jovial a palavra que se apresentava na pauta em branco
útero, jubilate
blástula, servite
intimidade ancorada por uma madrugada insone
lys e eu pestanejávamos e trocávamos odes 
as novidades nem sempre alegres
tempos de meditar, de aprender, de ser pacientes
em mim desejos de amparar o coração 
sabendo que o outro pode querer ou não tal intento
então apertou-se meu plexo,  lembrei-me do ninho de ópio
reverdecendo calado no abdome murcho
vidas que não vieram pelo viés da minha
intangível ainda a lógica informacional deste evento
tenho comigo a interseção de tantas mães
eu não me recusei, apenas fui outra...
   frutillar, terra sonora, 2005, Osorno

13 de abril, outono, friozinho, chuviscos


Fez a marola na cama dos verbos
Repousou o corpo dorido de uma semana a cantar
Alegre, o semblante esvaziou-se dos pesos dos outros
Gostosa sensação de areia a invadir os olhos
Inspirou o mundo com as mãos dormentes
Lavou os pensamentos e pegou o sono no pulo
Paz do outro lado é poucas vezes que se vê
Espera pelos cantos, mas é avenidas a pé a percorrer
Referências diárias colhidas em sonho
Viadutos, livrarias e camas alheias, Berlim
Estranha angústia de quem nada tem
Rompe mais uma aurora com gatos a farfalhar
Suspira toda a areia acumulada nas bolsas sob a pálpebra
O sol não veio, mas uma chuvinha fria e amarfanhada

de outros abris:

Vogam as roupas no silencio da tarde
e o inverno segue, embalado nelas
Secam com vagar as roupas,
entretidas em seu intimo sussurrar
A china, que as lavou
olha da janela o terno bailar
E mais uma noite que vem
em sutis delicadezas, a cantar

mi cante y un poema
mis lagrimas y una flor
un tiquitito viento
y un poquito de tu amor

duma rosa tão catita
que catei
e não viste
não são horas
de desfolhar
o rosário
de riachos d'alma
do futuro do canto
oxalá é do mar
que me chega
o sentido
de tudo isso



                                          *osorno, fevereiro de 2005, foto de flavio mottin

poemeto de 19 de abril de 14

Contudo

eu posso guardar distancia
posso guardar silêncio
só não posso cortar as asas dos sonhos
e lá está
a rosa que não me deste

contudo, é o livro
que me devolve o que sou de mim
enquanto tal rosa murcha em seu vaso tumular

ps: recomendo, "Mamas Sicilianas", e viva Santa Ágata!

                                          Salve Ogum, Salve Jorge!!! Liane Guariente, numa da apresentações do Terra para a FCC, 2009, penso eu... foto de alguém de lá, desculpe não saber...

outro, de 23 de abril de 14

Tombo. Capa e espada enlameada.
A noite chove.
É a vez dos loquazes…

Tombo. Na lama dorme meu corpo
Parado, confuso.
É a vez dos vorazes.

Tombo. A água passa-me o dorso
E o gemido de outros homens assombra.
Ainda não os abutres.

Tombo. Mas não, há de mim o cordão das horas
Suspenso.

Outra vez um parto.

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