bom retiro


No bom retiro há paredes caiadas de verde, de branco,há pessoas vivendo lá há muito
e portões se fechando com chave e cadeado à nossa passagem.Há uma senhora gorda e toda de preto. Há muitas mulheres gordas,velhas,com roupas de armazém barato, grisalhos de descabelos de toda cor. Há cheiros da morte enquanto se está vivo, de sujo, de mal lavado,de mal amado,de desistir,de cruz. Há um arvoredo lindo,não me lembro de um único pássaro,deve ser o inverno. Há um brilho desvairado nos olhos daquelas paredes. São os psicofármacos. Há a falência da ajuda,há assistencialismo,há vergonha,piedade,comoção e impotência e choro engolido a custo. Porque somos humanos,só aprendizes nos seis bardos. Há gente a visitar os seus e os de ninguém na tarde fresca. Gente humilde. Crianças correndo nos pátios largos. Há bolachas maizena em sacolas plásticas,garrafas pet, elma chips, drops que uma mulher põe na boca de outra no domigo de tarde. Por sorte Deus, generoso, mandou um inverno 2010 ameno, nostálgico de tão ameno, com muitos dias de sol e cachemire. E a memória dos olhos pantaneiros de Almir Sater a me invadir o canto.
*
Então fui ao bom retiro, num silencio mudo, sisuda. E acabei dando a mão, com uma imensa sinceridade, e acarinhando, e dizendo calma, sou uma igual, confie, Jesus está aqui. Acabei regente auxiliar,ou libélula capturada numa peneira de feijão. A senhora
gorda e toda de preto regeu ao lado, e me apertou o chacra craniano.
Henrique de Sagres ou alguém a seu favor estava comigo, incandescente e denso.
A tarefa é vibrar e oferecer algo de sereno. O Filho do Homem de bem em cápsulas de som.
*
Eu estaria no bom retiro, não tivesse sido em outro tempo salgueiro, carvalho, árvores que morrem em pé.
*
No fim da noite, após olhar Baal e os seus desvelos,senti sob as rodas do Uno velho
um tropeçar. Uma criatura silvestre do Parque Barigui cruzou a pista. Eu a vi parada no meio da rua pelo retrovisor. Eu quis voltar, vacilei, não sei se a matei...

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