quinta-feira, 4 de junho de 2015

junho brigadeiro


 
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3 de junho

Eu sou a voz da tua mãe.
A voz do nascer do sol.
A voz do vento também.
A voz da tarde preguiçosa.
A voz da noite que vem.
Eu te abraço e corre um arrepio.
Eu te dou o seio.
E sopro em teu ouvido uma nena,
Bendita seja, bendita seja.
Eu, transparente, te acolho.
Meus braços são os braços da calma.
Vem, vem acarinhar o teu neném.


Para o Acalantos de Além Mar

8 de junho



Era de pouca conversa
Ás vezes olhava, olhava...
Lá pelas tantas,
Um aceno entre discreto e longevo
As pálpebras em quebra-luz
Mãos uma sobre a outra
E as duas sobre o colo.
Difícil dizer quando saia de si.
Indiferente não era, ensimesmado apenas.
Soava bem, era o que o distinguia dos demais.
Soava bem, e quando o canto lhe vinha
Embalava o ar com calor
Embora, talvez, fosse apenas lirismo,
Meu palpite e só.
Saí a busca-lo em toda parte.
Era tema de meu trabalho matinal.
Guardei-lhe as mais raras palavras
Redondilhas, sonetos, sextilhas.
Enredos de pó e rio.
Dei-lhe todas as despedidas.
O cleome rebentou em flor.

9 de junho



E o novo dia despencou seu olor.
O rosto, um tanto pálido
Pairava no ambiente como cândido convite
O jeito das mãos permanecia, as duas sobre o colo.
Riu das falas, cantou as rimas. Até dançou.
Doeu-lhe o peito, pareceu.
O horizonte irradiava futuros, cálidos, honorários
Sempre a mercê dos meus panfletos.
Ouvi chamar a nova estima
Livre de tanto pensar.
Sensação de frio, frio, frio, tanto frio.
O orvalho da manhã virou posta-restante da tarde.
Raiou algo como um almoço natalino
Rufou algum tambor argênteo longe, longe, longe...
Inflou o azul brigadeiro anunciando um dejavu
Um ocaso casual, um randevu, um candeeiro, por favor.
Pousei a pena sobre a pauta, um amor.
Rescostei-me à cadeira incômoda
Amassado o meu tronco, cansada a minha alma.
Meu verso pareceu (à luz outonal da tarde) um despejar de adeus.
Inútil pedir que o Sol ficasse.
Mais um cleome rebentou em flor.

10 de junho

Juncos, cleomes, açucenas,
Ervas de cheiro, capim limão
Seu coração perfumou-se.
Urzes brancas folharam em cachos,
Salsaparrilha se espalhou.
A vida parecia vivida
Dádiva eloquente de uma trilha de valor.
Iberis, iberis, iberis, onde esqueceste meu cantar?
O jardim acenava quieto, quente.
Últimos movimentos de outono
Sombras escuras pairando nas ribeiras,
Urdiduras.
A vida passando,
Inclinada sobre seu próprio álbum,
Dom de capturar o tempo num espaço de papel.
A noite cintilava gerberas celestes.
A tez do teu sorriso revelou-se.
Ventos brandos, espelho.
Encostei-me à cadeira incômoda (afinal este é o meu método)
Novos versos esperavam degustação.
Uma vez mais as palavras remediadas,
Sentido de aluvião.


11 de junho


Cleomes sombreados pelo muro
Heras entrelaçadas
Urzes roxas, a paz instaurada.
Ventos constantes, ventos mornos.
A chuva foi chegando como tia esperada.
Quando o sol entrou no horizonte
Um véu de caridade murmurou a nena
E todas elas, nenas de ninar criança,
Luminesceram pelo mundo inteiro a noite e o dia.
A voz tangida de certa melancolia
Vibrou direto ao coração dorido,
Atiçando as fímbrias mais ocultas
Acalmando o compasso célere de quem anseia
Tudo pareceu então alecrim dourado.
Em paisagem onírica, as ninfas cirandaram
Rasgou no céu um coro de nuvens densas
Rica combinação de raio, cúmulus e criação
A noite saudou a cidade e as lâmpadas tiraram o chapéu
Encostei-me à cadeira incômoda (há mais duas, mas esta, incômoda...).
Versos entrecortados por ramagens tantas
O jardim por colher
Era quase dia de Antonio de Lisboa.

30 de junho




Hoje eu gostaria de ter cantado.
De ter ficado em casa, bordado.
De olhar o sol tímido por mais tempo.
De ter ficado em silêncio
Guiado o auto para lugar algum.
Gostaria de ser livre.
Gostaria de ter o homem que amo
A quem ligar.
Gostaria de ver minha gata dormir
Ou mesmo dormir um sono vespertino
Paguei a prestação do imposto de renda
E segui,
Um trabalho estulto foi o que me coube.
Um encontro de equívocos e alterações
Eu recorri ao estado búdico
À cruz do Cristo
Ao manto da Virgem
E não orei.
Lembrei-me igualmente de Viktor Frankl
De Hanna Arendt
E do trabalho na adversidade.
Hoje eu gostaria de ter coragem.
De contar meu tempo e tomar meu relógio de ouro.
Nem isso haverá, ao menos um até logo haverá.

Isso é o que direi a meus alunos quando retornarmos... sinto tanto...


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