Vértebra 54
Dc5 hiperextensão ou pirarucu de casaca ou o dia de pintar o hábito de urucum ou por que Ain não andava nu
A notícia foi favorável. Três calouros das Letras, sentados diante do jornal, na sala da casa de Manaós. As aulas começariam online e, ao longo do ano, conforme a vacinação ganhasse em adeptos e assepsia, eles frequentariam os anfiteatros da UFAM. João Claro foi avaliado como prodígio, poderia matricular-se direto, cursaria o quinto período; pediu aos arguidores para frequentar o curso com os familiares, no primeiro. Facilitaria os cuidados de que ele precisava com locomoção, foi assim que se expressou diante da banca.
Por aqueles dias, a jovem Isi publicou seu conto, a catadora de luz. Um concurso da prefeitura a motivou; tirou o primeiro lugar. O trabalho figurava entre outros, de autores iniciantes; recebeu certo destaque nas mídias sociais.
A história retratava uma alma que tirou a própria vida e procurava desesperadamente pela mãe. Os guardas do Vale dos Suicidas concordaram com uma nova chance para a alma, que aceitou um ventre são e desconhecido, radicado perto do Rio Negro, Brasil. Haveria surpresa, pela sua chegada à Gaia. A gestante se arrependeu de continuar com a gravidez no quarto mês. Após os familiares descobrirem seu estado, a mãe foi posta fora de casa. O pai da criança sumiu. Desesperada, a mãe culpou a alma que chegava, desprezou-a e tudo fez para expulsá-la. Produziu um útero ácido, envenenado por pensamentos de ódio. Torturou ambas as vidas e enfraqueceu a coluna vertebral do ser em formação. A mãe, grávida e debilitada, fez a vida no cais, para ter alimento e lugar onde dormir.
Humilde, a alma aceitou as doze provas a que seria submetida e veio ao mundo, levemente entortada, em corpo de rapaz. No dia do nascimento difícil a parteira da barca[1], encantada com o bebê, decidiu ficar com ele. A alma pode então sossegar, cumprir os doze anos que roubara à própria existência e mais alguns, mérito por seu esforço em se manter ereto.
João Miguel se tornou bailarino. Criou coreografias para contar dos cuidados dispensados às grávidas sem companheiro pelo país. Em especial, eram balés sobre as mulheres que queriam tirar o embrião. O bailarino, cheio del luz, teve a oportunidade de socorrer a mãe biológica por três vezes. Na primeira, foi busca-la quase morta no cais, um quadro abortivo. Na segunda, para tratar lues. Na terceira, para lhe segurar a mão antes da morte. O rapaz escrevia poemas de amor, todos dedicados a uma mulher, a Alcayaga[2].
Discos intervertebrais existem para impedir a hiperextensão das vértebras. Alguns inflamam, viram hernias. João Claro adquiriu três discos tutelados, um na cervical e dois na lombar. Não murmurava; seu cotidiano era áspero, contudo.
Atendido pela equipe onde Xaxim Verdadeiro estaria voluntária por alguns dias, chamou a atenção a forma como João Claro procurava posição na cadeira-de-rodas, sem sucesso. A consulta ocorreu quando a índia chegou a Manaus, contente por ser ela a portadora do jornal com a lista dos aprovados no vestibular.
A comemoração se deu no apartamento. Em meio à alegria, Jade e Isi sabiam do desassossego do seu querido, respeitavam-lhe a dor e sofriam com ele. Já haviam proposto uma ida ao médico, João Claro negou, não desejava obnubilar o brilho da ocasião. Catira, inteirada do mal estar, fez chá de gengibre bem doce. Byr, no final da noite, pôs compressas quentes com cânfora.
Ao manipular as vértebras do rapaz, a enfermeira deparou-se com inflamações no quadro de escoliose em S. Olhou os olhos de João Claro e eles eram éden. Perguntou ao filho o que ele gostaria que fosse feito. O rapaz confiava naquela pajé, receberia inspiração antes de recorrer à medicina tradicional. Byr lhe falou de acupuntura, que poderia minimizar as dores enquanto o socorro maior não vinha. Cheiro de cânfora e cravo-da-índia pairava sobre tudo. Todos, de alguma maneira, foram beneficiados por aqueles eflúvios.
Muitos quilômetros os separavam. As dores nas costas de Aín eclodiram quando ele pensou no índio Tijuca. O frei vestia uma camisa de saco sem manga e calças claras, estava descalço. Ia entrar na igreja para o rosário matutino quando divisou o sujeito. Feições familiares, cabelo cortado em forma de tigela, uma tira de cipó trançada na testa.
O homem vestia camisa de algodão rústico, calça no mesmo tecido, o peito aparecendo, canelas e antebraços a mostra. Usava alpargatas. Só não havia o chapéu quebrado sobre o rosto, o que afastou as esperanças de Aín. Ambos cruzaram olhar. O do estranho, nada amistoso. A comoção provocou uma estirada abrupta dos músculos do tórax e o espasmo agudo quase que joga Aín nos degraus. Ele entrou na sacristia capengas, a segurar os rins, peito para cima. Foi deixando que a inspiração entrasse devagar até conseguir mais ou menos se aprumar e expirar. Acostou-se a um banco próximo ao altar. Só pelo meio das orações, pode sorver uma quantidade maior de ar e encarar o Crucificado. Para surpresa de Aín, o homem entrara pelo outro lado e estava sentado no outro extremo do mesmo banco que ele ocupava, olhos baixos. No final do ofício, um frade se aproximou do homem e o convidou ao confessionário, o que deixou Aín embasbacado. Bar’do, vai lá escutar o que dizem, pediu Aín ao seu protetor. Estás avariado, homem. Que invasão me propões? O frei caiu em si, compungido, pediu perdão. O trasno, já acostumado com as patacoadas de seu protegido, passou a saltitar entre os bancos, já que era imperceptível.
O índio Tijuca, sozinho na mata, procurava Uraci. Tomara o punhal de um irmão que dormia. Deixou uma partida de castanhas no lugar. Fazia tempo, ele perdera seu chapéu. Andava sumário, apenas o cipó na cintura e na testa. Esteve no jardim da abobé, de passagem por Eirunepé, e pediu aos seres que ali cantavam inspiração. Nunca tinha falado com luzes da floresta, agora vivia entre muitas, que o circundavam. Tijuca escutava, pelo menos cem, dos mais de duzentos dialetos indígenas existentes. Quase nada compreendia da grande assembleia. Sentia pequenas ondas de calor, que serviam para lavar suas dores, também manter distante um ou outro irmão, dos perdidos pela sua mão. Alguns queriam se vingar. Tijuca ouvia os desgraçados de um jeito que atraia mais seres de luz para perto.
Uma força maior arrastou Tijuca ao Pico da Neblina. Ele já não se sentia cansado, com raiva ou desorientado. Estava até disposto. Pulsava, animava-o a sensação de que encontraria, no cume, os humores de redenção. Tomou muito banho de cachoeira pelo caminho. Alimentou-se somente de frutas. Os pássaros começaram a voejar mais perto, curiosos das mudanças que se operavam naquele ser.
Quando Tijuca despediu-se de Moeemo, no hospital, um alivio temporão abalou sua estrutura. Ao deparar-se com a professora na escola, abraçou-a com delideza, roçou as costas de Dona Tem. Ela jamais se esqueceria do toque. O olhar do homem era de gratidão e algo mais, desconhecido para ambos. A professora ficou imóvel, não queria que aquilo terminasse. Sabia que, se pedisse para ele ficar, ele teria apenas quebradeiras para oferecer. A mão de Tijuca desceu e subiu, parando suave em cada vértebra. Até pensaram em acostar-se a uma parede externa do prédio, mas o fogo costumeiro dele deu vazão a água lúcida. Ficaram só as mãos a se afagar. Tijuca partiu tranquilo. Dona Tem ficou triste, mas apaziguada. Se Moeemo vivesse e aceitasse, ficavam juntos, ela mais o menino, encontro significativo, são, razão de viver.
Em uma mesa como aquela Aín nunca se sentou. Fumegava a travessa do peixe, o cheirinho da banana da terra provocava siricuticu em seu estômago, tão privado de bons sabores. Sentia-se quase agastado pela deferência, nada fizera a não ser ter a pobreza como companheira. Ficou a olhar para o capelão, que esfregava as mãos de contentamento. As vestes brancas do religioso contrastavam com sua pele atomatada. Era um bom homem, bom cristão o Padre José. Sabia dar consolo a homens, mulheres, falava direito na catequese e manso na homilia. Kauany, a beata que o servia, pôs também no prato de Aín a refeição. Este baixou os olhos, vexado. Ficaram em silêncio os três, entrecortado pelas sutis interjeições de José, que fazia o sinal da cruz, como a pedir perdão pela gula.
Aín, entre uma colherada e outra, se perguntava o que era aquele desassossego que não o deixava, se um dia ele poderia assentar-se nesta vida. Lembrou do evangelho da manhã onde o padre, movido por força maior, falou da necessidade do trabalho para se conseguir a salvação. Que não era somente ser bom, mas ser bom para os outros era o que traria lucidez. As caras embasbacadas dos fiéis brilhavam, não entendiam que conversa era aquela, já que só faziam queimar o couro de sol a sol, para evitar que a seca os enterrasse vivos.
O frei Aín, em sonho, falou pessoalmente a um luzeiro da madrugada, beijou seu cordame. Nada prometeu, apenas confessou lassidão, vazio. A luz tocou sua careca, alegou compreensão. Aín, ao lembrar do sonho, tomou um gole de água e empurrou o prato de cerâmica. Comeu tudo apenas para não fazer desfeita.
A água da tina ficou barrenta de repente. A camisa, para o branco, virou um riscado de urucum. Posta ao sol para secar, até que atendeu justamente à situação. Aín havia se sujado ao vomitar a refeição, longe o suficiente da Igreja de Santo Antonio; a nuvem de testemunhas, agora, era de outra estirpe.
Final de tarde, as estrelas chegavam em coro, a lua tinha o olhar baixo. O calor convidava ao relento. O santinho ganhou em boniteza ao vestir a camisa tingida. Apesar de muito magro, Aín tinha encorpado com a dieta que vinha compartilhando com o Padre José. Arranjara um chapéu que, quebrado à testa, amainava-lhe a claridade para os olhos. A circunferência do artefato parecia abraçar as têmporas, conter-lhe os delírios. Era isso. Febre intermitente vinha causando em Aín batedeiras no peito, turvações. O moço já não tão moço andava assim, saudoso do burro Tonico. Apoiado na canga, próximo ao rancho do capelão, ocupava um catre por empréstimo.
Kauany chegou de manso. Pôs-lhe a mão na testa. Sussurrou em seu ouvido tens febre. A mão direita desceu por sobre o rosto, enquanto a outra escorregou devagar pelas costas, parando sobre os rins e fazendo leve pressão. Os dedos fecharam os olhos do frei, contornaram o nariz, os lábios. Ela tirou um pouco a mão e retornou, o barro da tina a circundar a boca e escorregar, macio, pelo queixo, pelo pomo, pelo peito imberbe. Seguiu com o rito, umedeceu de lama o cordão cuidadosamente desamarrado. A roupa não arriou de todo, só o suficiente para um passeio seguro, sincero. Aín foi deixando aquele mais que consolo sintonizar com sua temperatura alta. O estômago enjoado lhe deu dois engulhos, depois repousou.
Foi então que ele perfilou batata doce, lama macia. A índia sabia como pilar. A mão direita pilava, a outra tendia. Os sussurros não cessavam tens febre tens febre tens febre. O doce, misturado a lodo e leite, Kauany o convidou a beber. Os sussurros prosseguiram tens febre tens febre tens febre. Ela dobrou os joelhos, as vestes e cobriu-lhe o corpo de argila, as mãos dele apoiadas contra os seixos. Um pouco da mistura, que cheirava a pó e lavanda, penetrou as narinas e segredou lonjuras. O frei se consumiu em tigelas e tigelas. Um luzeiro olhava de longe, tinha dó, compreendia.
O frei Aín quis ficar nu para sempre. Isso ia de encontro às normas de vida no Salgueiro. Escravizou-se. A roupa tingida e a pele avermelhada caíram na boca do povo, que Kauany cozinhava com urucum.
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