Vértebra 52
Dc7 o sentido ou Onde foram andar as nações das terras do Brasil
O gavião foi certeiro. Agarrou o roedor que se doava como alimento. Seu voo disparo foi tão maravilhoso que fez Aín perder a fome. Há dois dias não havia de comer. A água estava no fim. O sertão sabia ser implacável. Os três companheiros seguiram com as forças de que dispunham. Tanto Seu Tonico quanto o frei tinham desejos de manter-se vivos. Para o trasno parecia mais fácil. Até aquele momento a saga fora divertida, sem surpresas. Nenhum deles sabia o que fazia, somente caminhavam. Aín encurtara a barra do hábito, o que lhe dava uma aparência de andarilho, ainda mais com a calça de pescador pelas canelas. O traje, por alguma razão, foi de grande ajuda quando encontraram pelo caminho uma expedição Fulni-Ô. O fato de saber algumas frases em tupi deu ao frei credibilidade. Os índios tinham um bom carregamento de caça, pesca, frutos. De onde vinham naquele lugar esquecido? Coisas que Francisco responderia. Os índios perguntaram se o aveiro queria pernoitar com a tribo. Aín agradeceu, aceitou.
Aquele foi um encontro notável. O cacique convidou o viajor galego a fumar em sua tenda. Dividiu com ele o cachimbo. Contou das inúmeras tragédias de seu povo, das lutas com o governo na demarcação das terras, dos representantes da tribo que participaram de uma manifestação no Planalto. Das duas mulheres que uma peste misteriosa ceifou no espaço de três dias. Das águas barrentas que saiam pelo nariz e pelas tosses. Falou da presença de um pajé das luzes, da raça dos quilombolas, aparentado a Ganga Zumba. Agora o Anhangá estava na tenda das mulheres, limpando.
Seu Tonico foi muito festejado pelos indiozinhos, que lhe deram banho, raízes da horta. Um dos curumins tocou duas vezes no santinho pendurado ao pescoço do animal e então viu. Yin-Yin estava enroscado em um cipoal no igarapé. Chorava muito e pedia pela mãe. Como a criança não entendia aquilo, pediu ajuda a Iara Fulni-Ô, a pajé da tribo. Que conversasse com o diabinho chorão. A senhora, muito entrada nos anos, chegou de manso. Assegurou-se de que era entidade pacífica. Sim, um pobre sofredor que tirara a própria vida e vagava por algum tempo, até que os guerreiros do Vale o viessem prender outra vez. A feiticeira só podia escutar suas lamuriações. Sintonizou com a cantoria de Bar naquele momento. Repetiu luna que brilla en el cielo para rubios y morenos pa los malos y los buenos[1]. A saudação colocou os três em comunicação. Bar explicou à senhora toda a historia dos amigos, de uma forma tão simples que a feiticeira ficou parada por um tempo, apoiada em seu cajado, visualizando as paisagens sugeridas pelo duende. Para Yin-Yin tem somente uma saída, disse a senhora. Ele precisa nascer outra vez, na Terra. Precisa encontrar um vaso sagrado que o abrigue. Precisa pedir, com muito arrependimento, aos guardas do Vale. Precisa se entregar voluntariamente, sem resistir. Assim ele cumpre na Mãe Gaia o tempo que lhe restava viver antes. Fará outras coisas, será útil. Encontrar sua mãe da jornada perdida será difícil. Muito tempo ainda. Outra mãe pode ser consolo bom. Limpa a alma vagante, cria flores onde só há gravetos mortos. Nesse momento, uma caravana da guarda do Vale parou sobre a aldeia. Yin-Yin, pela primeira vez, foi deitar sua cabeça exausta no colo daquele manto da cor do azul do meio-dia. Um emissário jovem ficou na tribo, avisou aos caravaneiros que seguiria mais tarde. Era Curuatinga.
Encontros assim, esperançosos, eram raros. Um dia só e Iara Fulni-Ô recebeu energias para muitos partos, para curar muita tosse ruim. Ela tratou de aproximar o cacique da caravana de Orun Tamõi, em missão especial naquelas terras. Ao se olharem, um se alojou no colo do outro, feito uróboro. Princípio e fim a garantir continuidade de uma espécie combalida. A raça humana andava por um tris.
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