Vértebra 51

 





Dt1 Naipi ou as heroínas dos livros ou os entregadores de  livros


Já é sabido que Isi curuminha conhecia muitas coisas. Não que tivesse aceitado a decisão da mãe de viajar longe, mas nesse caso não havia o que fazer. Era medida corretiva para alguém, serviria de exemplo aos colegas do Hospital. Fia propôs ao diretor do Santa Cecília uma solução, com humildade e clareza. Para os devidos efeitos, ela foi demitida no mesmo dia do desligamento de Julieta, como se não houvesse atingido as metas do período de experiência. Isso encerrava as contendas junto ao corpo de funcionários, que passou a receber novo treinamento, mais rígido, a fim de melhorar o serviço à comunidade. Onde já se viu pautar o trabalho médico em disse-que-disse. Com o doutor Silva acamado, não foi difícil fazer os cortes. Na carta à chefe dos Médicos Sem Fronteiras, o Dr. Hidalgo descrevia com detalhes o bom trabalho da enfermeira Fia, recomendando-a para várias funções onde seria bem aproveitada. Confidencialmente, ele contou o episódio que o obrigou a dispensar a moça. Mesmo com ressalvas, Fia tornou-se enfermeira assistente no acampamento. 

 

A índia recebeu a nova puca com decência. Na floresta, ela voltava ao estado Byr. Primeiro dia de trabalho. O lagarto, com o qual vinha sonhando há dias, dormia sobre um tronco, ao lado da tenda que lhe fora designada. O réptil passou a seguir Byr por toda parte, surgindo de surpresa em lugares inusitados. A presença do animal manteve os colegas a respeitosa distância da mulher silêncio. 


O estirão de crescimento de Isi lhe outorgou, dos treze para quatorze anos, a altura de um metro e oitenta. Leve como garça, a moça, mesmo em sua boniteza, transitava invisível pelas ruas de Manaus, na bicicleta da mãe. Ao invés de esse detalhe, o de ser bonita, representar embaraço, permitia a ela um notável posto de observação. Então, estava parte da  família de volta à capital, agora sem Fia. 

 

Vieram três, para dar sequência aos estudos de Isi e João Claro. O velho Selim ficou tutor, em seu posto de Eirunepé. O turco Jade estava contente com a missão que lhe coube. Passava bem, a mazela da qual padecia andava controlada. 

 

Perto de seu aniversário, ao voltar do colégio,  Isi parou diante de um galho de jacarandá dos tempos do império, relativamente baixo. Tinha, ao alcance do nariz um ninho de pássaro, que serviria a salteadores de todo tipo. Ao olhar os filhotes tão sossegados, recordou uma tarde longínqua, um congresso de aves sediado no Juruá. In memoriam de uma gralha azul. Isi não sabia como aquele ninho viera dar em Manaus mas era, sim, um ninho de gralhinhas. Onde estariam os pais? A moça sabia que, se interferisse na forma ou posição do ninho, poderia destruir a família. Como era difícil manter o respeito, o equilíbrio. Desejou que uma ariramba, um gavião, algum passarão viesse montar guarda àquele condomínio. Não tardou, os pais das crias chegaram, com alimento. Isi afastou-se, daquele seu jeito reverente com as coisas. Um lugar a revisitar, todos os dias, até que ela testemunhasse o primeiro voo. 

 

Foi surpresa rever Jovino, belo rapagão cor de chocolate belga. Ele agora tocava contrabaixo na Orquestra Sinfônica de Manaus. Estava cumprindo a jornada da L’Arianna[1] no Teatro Amazonas. Quando Isi foi visitar Ceição em Cidade de Deus, ela o encontrou, saindo para o trabalho. Aceitou acompanha-lo ao concerto naquele instante, encantada. O seu pescoço, o seu transoceânico, foi o que ela sentiu. Não sabia ainda o que significava tanta emoção, era seu amigo querido, que a conhecera ainda nuazinha na beira do rio. 

 

A lírica, muito bonita, tensionou as cordas daquele estado novo. Isi doía, sem saber que o sentimento era bom. Como o contrabaixo ficou no teatro, para ensaio no dia seguinte, ambos caminharam livres pela cidade. Difícil dizer alguma coisa, corpo embargado, voz amolecida. E se ele não vibrasse mais em sua sintonia? Pararam em uma sorveteria com iluminação velada. Ficaram frente a frente, na mesinha junto a janela. Dava para ver o teatro dali. Isi quebrou o silêncio, pediu que o músico contasse sobre sua vida. Ele não era de escrever, falavam pouco ao telefone. A primeira coisa que se disse foi da falta que fizeram um para o outro. Tão acostumados aos tropeços, aos acontecimentos rudes, às alegrias de conviver meninices que, quando foram separados, um mar de gelo envolveu Jovino. Ele partiu sozinho pela sua Islândia, focado nos estudos musicais, à procura de sol. Formou-se violonista pelo conservatório e logo passou no concurso da Orquestra. Ainda tocava as cordas dedilhadas e, quando sobrava tempo, ia violar com a de arame, mais os seresteiros, em um bar perto do rio. Sua vida era o branco das partituras, pontilhado de eventos épicos. O jovem abria espaço para mais nada, a não ser a ocupação de entregador de livros. Era seu momento de lazer, andar ao vento, olhar as coisas, as pessoas. Trabalhava para a Livraria Cultura. Um serviço especial e elegante, ofertado a intelectuais em sua maioria. Uma ou outra senhora que ainda lia romances. Uma jovem, escritora, que lia muito. 


Isi chegou em casa quando Jade lia As mil e uma noites[2]. Foi ao quarto olhar João Claro, que dormia tranquilo. Discreta, sentou-se em uma poltrona diante de sua mesinha de escrever. A um canto, havia vários livros. Heroínas parecidas com a mãe, a saga de Naipí[3] entre elas. Sentiu de novo a dor, uma fisgada funda no peito que a fez gemer baixinho. Jade, um extraordinário paimãe, sabia que naquele caso precisava posar de vaso. Aguardou que a mocinha chamasse. 

 

Byr sentiu uma agulhada no dedo médio, em um dos pontos que pressionava tanto nos pacientes. Deitada na rede ao relento, recebeu Taraguira de bom grado. O lagarto fez-lhe emplastro entre os seios e a índia respirou. Há mais de um mês as mãos esfriaram, a mente não tinha recepção sutil. Havia tanto abandono naquele elo perdido da Amazônia que a Xaxim Verdadeiro não restava muito em que pensar. Isi veio inteira, séria, feito pintura rupestre. Não era caso para alarme. A moto de Duda ficara no trapiche, na outra margem, junto com vários veículos. Que não se preocupasse, dissera o velho Selim ao telefone, o rapaz já tinha outra condução. Si, estoy bien, Patativa es paciente, Catira con los lapsus, la buena indaié. Los niños estan bien, estudiando, mantén la calma. Jade es lo mejor, muy contento, la tiendita avanza, habrá de enriquecer. 

 

Não era possível chegar ou partir do posto naquele momento. Somente em casos muito graves e havia muitos. A guarda florestal mantinha a ordem, ajudava a conter a contaminação. Em poucos dias chegaria o primeiro lote de vacinação, dividindo opiniões. Byr anotava no diário da abobé uma frase diária, escutada aqui e ali ou em sua mente. Fizera a tarefa antes de deitar. A pele fria do lagarto provocou-lhe sentimentos confusos. 

 

Os médicos voluntários combatiam, naquele momento, várias endemias localizadas, de periculosidade moderada, bem como a pior pandemia de todos os tempos, que derrubava gentes em qualquer condição, status, aos borbotões. A tenda para atendimento da moléstia era mais afastada que as outras e lá só iam alguns poucos, escolhidos a dedo, mais resistentes a contágio. Havia vinte pacientes em estado gravíssimo. Passaram por um procedimento chamado intubação. Chegavam de barco, quase mortos. O enfermo precisava ficar de bruços para poder respirar, com muita dificuldade. Um doloroso olho da vida. Os atendentes não conheciam manejos específicos para os casos. Faziam o que lhes estava ao alcance, inventavam. Muitos se desesperavam. Muitos temiam o mesmo fim. Houve dois suicídios.

 

A varíola e o cólera voltaram ao quadro de socorro. A poliomielite, cuja vacina havia promovido quase que erradicação, não foi detectada. Malária, febre amarela, dengue, Zica, H1N1 com variantes. Aids. As predições do final dos tempos alarmavam a todos e criavam um halo mais grave que a própria pandemia. O preceito fatalista e punitivo, comum ao universo sertanejo, era sussurrado pelos cantos. A fama de gente atrasada e alienada excitava alguns mais apaixonados. Surgiam os doutrinadores ardorosos, os místicos das mais variadas seitas, com seus jeitos penitentes de causar pânico, com seus preconceitos, segregações, coações e aberrações. Palavra amiga, poucos. 

 

Nessas alturas da história do país,  a mistura de raças e credos era fonte eterna para pesquisa etnográfica. Era possível se embrenhar na mata e se perder, entre tantos ritos, costumes, predições. Não faltavam descendentes de Antônio Conselheiro, Padre Cicero, Zumbi dos Palmares. O olhar apocalíptico era comum à maioria das gentes. Todos a esperar, ver o mar e se salvar. Onde, como, quando? Tupã estava no comando. Xaxim Verdadeiro se guiava por Uraci, corado e disposto, a cada dia no mesmo leste, mesmo que andasse meio jururu, enleado em suas cobertas. Iaci trocava de turno com ele, em seus vários estilos de sorrir. Só não tinha como saber que, tanto sol quanto lua, sofriam severas transformações.

 

Num espaço com tanta, tanta água, um problema crucial: tratamento de esgoto. Cada vez que a índia se embrenhava na mata, levava consigo dois sacos para lixo e voltava com eles cheios; materiais desprezíveis de todo tipo. Fazia o serviço sem alarde. Não havia vigilância para isso. A presença da índia, anônima no acampamento, tornava o mister aparentemente sem sentido. Discreta, Byr deixava os dois sacos junto ao lixo hospitalar. Fazia alguns dias, a guarda não passava para coleta. Byr não sabia o destino daquele lixo. Para a floresta, era veneno. 

 

A índia viu tênues jorros de luz saindo de várias mãos. Era sustento em meio a polarização. Chamou a atenção o jeito de manejar a força. Quase todos os possuidores a desconheciam, o que tornava a doação mais eficiente. Byr detinha essa condição, a de perceber os protetores da floresta, que agiam sem alarde, em grande número, muitos através das mãos dos atendentes. Ela entendeu que sim, vários seres vivos seriam reconduzidos a outros quadrantes, por normativas bastante peculiares. Haveria vida na Gaia por mais algum tempo. O desejo de irmandade, sororidade, existia desde o início dos tempos. As grandes flagelações eram marca dos povos indígenas. Eles acreditavam na dor pública como condição de amadurecimento. Muitas nações já haviam testemunhado o fim do mundo, do seu mundo. Era mérito de ninguém relembrar, reagrupar, repensar, recomeçar. Corpo leve, Xaxim Verdadeiro agradeceu por ser mais uma graça da força. O Taraguira perto, a respirar junto.

 

Cinco pessoas havia, morreram em poucas horas e foram prontamente incineradas. A chefe dos médicos achara melhor poupar Byr do contato direto com a moléstia devastadora. Por ser índia, a doutora Ângara acreditava que a resistência da moça fosse precária. Byr não estava em posição de argumentar. Aquietou-se. Já que vivia mais uma puca, era trançar cabelo e cumprir o certame. 

 

A médica orientou a equipe, baseada na descrição do colega de Eirunepé: aqueles que sentissem necessidade, fossem tratar dores musculares e outros achaques com Byr. A índia pode usar suas ervas, sob a supervisão do bioquímico de plantão, que só fazia maravilhar-se com os conhecimentos da moça. Jesuíno tomava nota de cada detalhe, procedimento. Fazia os apontamentos em duas vias, uma para Byr guardar consigo. Juntou-se à dupla de pesquisadores a Catarina, paramédica muito alegre; ela tirou muitas fotos, documentando o trabalho in loquo. 


urutau ou mãe-da-lua

 

Ao olhar as estrelas naquela noite, a mente de Byr abriu uma imagem vista na igreja em Manaus: um manto cor de céu, com fios dourados. No lugar do rosto, pura luz prateada. O ser recolhia, com indizível carinho, as mães que acabavam de morrer. Uma dor mais forte lhe esmagou. Xaxim Verdadeiro pensou que ia com aquela comitiva. Descansou, contudo, quando o ser lhe pôs as mãos sobre a face. Logo em seguida, a índia viu Isi outra vez. Tão alta, suave, a andar de bicicleta perto do rio. Parecia abatida, nada previa doença orgânica. Era um desassossego por conta de alguém. Byr firmou as têmporas. Viu João Claro na sala, debruçado sobre uma lição. Viu também Jade, desvelado com seus filhos como nenhum marido o seria. Cumprimentou-o com amor.  Dentro do coração de Isi, a mãe localizou uma quebra sutil, uma espécie de arranhão, o primeiro de sua vida sentimental. As lágrimas de Byr foram derramar-se feito láudano sobre o ferimento. Que a dor não manchasse a bondade da filha, o brilho terno de seus quereres.

 

À margem do Amazonas, Isi sentiu falta da mãe, como se lhe corresse um riacho quente dentro. Elas não se viam há mais de dez meses. Com todas aquelas mortes, com a mãe no olho do furacão, era como morrer segundo a segundo. Havia bandeira vermelha para o mal que se abatia sobre o mundo. Jade era vulnerável para se expor a contaminação. Isi parou diante do rio. O comércio havia baixado as portas até segunda ordem. Isi, ao olhar a água, recuperava a coragem. Abalo de ternura, frustração sexual, dignos dos balaios de Jade. Jovino contou, por email, que se casaria com Minapoty[4]. Com as letras lhe queimando diante dos olhos, a moça levantou-se, beijou Jade nos lábios e saiu, a cumprir sua tarefa. No caminho do jacarandá, Isi testemunhou o voo das gralhinhas, rumo ao sul. Ali, diante da expressão natural do voo, pode se dar conta do que significava amar e o que era desejo sensual, movido a interesses. Ficar perto de Jovino nos últimos dias, escutar sua música, era como uma revolução das formigas cortadeiras, como se elas decretassem falência ao objeto a transportar. O formigueiro em perigo, um fogaréu. Isi, os olhos a dançar com as marolas lamacentas, estancou o choro e também o sentimento de frustração. Não seria o último. Deu-se conta do prazer que sentira com os pássaros em voo, o de olhar o horizonte aquoso, que lhe causava aluviões, águas das maiores dádivas do mundo, para tantas pessoas. O sentimento primordial por Jovino seguia, intacto. O anseio por amor, esse sim deveria ser cuidadosamente redirecionado, para não virar câncer. Lembrou-se de Julieta, sentiu compaixão. O que seria dela? Soube que o Dr. Silva e a esposa tinham sido transferidos para São Paulo, a fim de recuperarem sua saúde. Havia boatos de que a doutora Maria não poderia ter filhos. 

 

Jade, exemplo de distinção e senso de reerguimento, disse que não seria a última dor que Isi sentiria. Que havia coisas mais extraordinárias, como as limitações de João Claro, a jornada da Indiara, a morte de Maverick, a luta do velho Selim, a sina da cantante Mayara, a missão de Xaxim Verdadeiro, a experiência do sarcoma de kapov. Jovino não está lindo, saudável, não toca muito bem seus instrumentos, perguntou Jade à índiazinha. Se você lhe tem amor, continuou, pode seguir amando, mesmo estando o rapaz junto de outra pessoa. Pode envolver aos dois no mesmo gesto afetuoso. Pode, sempre, depositar flores em sua lápide, como um querido capítulo da infância que dá lugar a outro, quem sabe mais picante. Tal mensagem, em especial a imagem da lápide, provocou um sorriso em Isi. Sorriso durável. Ela escreveu a ideia e a pregou diante de si, em seu canto de estudos. A cada leitura, renovava os protestos de amor ao amigo e o tempo ia fazendo sua parte. Para Jade, aquele carinho de Isi foi o melhor medicamento que poderia ingerir.

 

João Claro só fazia surpreender. Seu progresso com as letras era tão transparente que a possibilidade de prestar o vestibular ficava cada vez mais viável. O rapaz cumpria com afinco o programa do ensino médio, mais rápido que os colegas da turma virtual. A professora de português, em palestra com Jade, falou sobre a forma encantadora com que ele expunha suas ideias, um instrutor nato, acolhedor com seus colegas e com ela. Era mais sabedor que a professora, ela não se ressentia com a ideia. A chance de fazer o curso online, por conta da pandemia, era um facilitador para João. Jade, encantado com a reviravolta do amigo, entendia nisso auxilio de Allah. Mais, João Claro o impelia a lutar por sua própria existência. Ser digno garantia que João seria promovido. Os dias foram se somando em leitura, escrita, conversação. Os aniversários floriam. Jade remoçava naquele convívio, andava pleno. Seus trinta e cinco anos valiam cada segundo.

 

A decisão veio em uma noite de muita chuva. Um apagão permitira cear à luz de velas, saborear uma mojica de tambaqui e beber vinho. Os três compartilhavam a historia das Icamiabas[5]. Isi começou a conta-la e deixou um silêncio que Jade preencheu de imediato, levando a trama para rumo singular, o cenário feito de balões da Capadócia. Quando o turco respirou, foi a vez de João Claro tomar fôlego e propor uma batalha épica em Nossa Senhora do Desterro[6], à beira mar. Foram várias horas de enlaces e desenlaces hiper-realistas, que lhes arrancaram muitas risadas e também momentos de introspecção. A história não teve fim. As heroínas inventadas voltariam a lutar mais tarde. Havia doce de umbu para sobremesa. 

 

E se fizéssemos, os três, o vestibular para Letras? Quem formulou o alvitre foi João Claro. Isi e Jade se entreolharam. Ambos poderiam não alcançar média. Eles riram ao comentar isso. Convenceram-se, contudo, de que seria, no mínimo, divertida a empreitada.


Isi andava mesmo precisada de bom ânimo. Queria ser médica, mas sabia que era mais falta da mãe que vocação. A moça já preenchera três cadernos com contos soturnos, crônicas, pequenas historias indígenas. Andava trabalhando a saga de Zumbi dos Palmares a seu modo. Tinha alguma familiaridade com o vocabulário tupi-guarani. Estudava também o iorubá, o que lhe dava mobilidade com letras, história, geografia, sociologia, antropologia, etnologia, psicologia cultural. Eram caminhos encantadores, com bases cientificas, humanitárias, religiosas, filosóficas. Encampou o desafio de vestibular-se. Quanto mais ajudavam Jade a se preparar, mais capacidade os três amigos adquiriam para alcançar seu ife. 

 

Para João Claro era um feito. Rapaz de quatorze anos, paraplégico e são. Talvez ele não conseguisse a vaga, pela pouca idade. Mesmo que o feito parecesse fanfarronice, valeria como experiência. 

 

Manhã, véspera de Natal de 2021. Os  guardas florestais autorizaram aos médicos e enfermeiros do acampamento a atravessarem o rio. Uma trégua para a puca de Xaxim Verdadeiro. Despedir-se de Taraguira lhe custou. O animal, ancestral experiente, entrou pelo arvoredo sem olhar para trás. Ela pode então navegar. Foi logo ao rancho, chamou os amigos para irem a Manaus. O velho Selim e Catira aceitaram viajar, Patativa com eles. Tinho, outro morador novo da travessa os levou à capital, de van. Estava para ser divulgado o resultado do vestibular da UFAM nas próximas horas. 



[1] Ópera de Monteverdi

[2] coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e Sul da Ásia, compiladas em língua árabe a partir do século IX.

[3] Referencia à lenda Naipi e Tarobá  

[4] Referência a Lia Minapoty, artista e escritora, uma das líderes do povo Maraguá.

[5] Muito talentosas com o arco e a flecha. Essas guerreiras, mulheres sem marido, não permitiam a aproximação de homens em suas tabas. As Icamiabas tinham a Lua como sua protetora. Portal Amazônia.

 

[6] Antigo nome da cidade de Florianópolis, SC - Brasil

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