Contario de inverno 27
linha do
equador
A marujada
havia providenciado cremes de iniciação, enlatados especialmente para o evento,
uma mistura elegante de óleo de tubarão-azul, extrato de euglena e mais algum
odor desse naipe. A Comandante Julieta Aragon tinha alguma reserva em relação
àquele fetiche, porém as tantas concessões que fizera nas últimas horas
obrigaram-na a ponderar sobre tradições seculares. Todos os olhares apontavam
para aquela morena de rosto forte, Esmeralda bela como uma palmeira, candidata
ao batismo fedorento. Almuneda já soprara nos ouvidos da tripulação, lavassem
primeiro os pensamentos com o tal cosmético.
Foi nos tempos de Lisboa, Mouraria. Uma festa de rua, reprodução das Bodas de Caná, patrocinada por um frei dominicano, instrutor de noviços. Maja Wos conheceu, naquela tarde solar, as raparigas Beatrice, Laura, Maria, Viola, Ophelie, Helena, Lisa. Também estava a bailar, sobre as pedras do Largo do Terreirinho, a estudante marinheira Julieta Aragon. Talvez o rapaz nunca tivesse visto tantas mulheres juntas, sorridentes, saudáveis. Encantado com o momento, encostou-se a uma floreira e puxou da casaca branca, com abotoaduras douradas, recém cortada para o seu corpo juvenil, um caderno de capa preta e espiral da mesma cor. Era assim que ele passava a pausa dos estudos e exames finais, a tomar notas do cotidiano lisboeta. Aquele era o seu batismo como marujo. De aspirante a frei, o rapaz decidiu-se pela Marinha, embora olhasse o mar ainda com certa angústia. Era tempo de desmanchar os nós com suas mães azul e vermelha, sumidas ambas, também com o pai britânico, sepultado há poucos dias, no Highgate. Ganharia o mundo, homem de bem em que se tornou. Troska gostaria de o ver no cais. As lembranças do luto fizeram Pan Wos, aparentemente, ignorar a jovem Julieta em meio aos convivas. Tal descaso não passaria em branco.
Ele era lindo, seu nome dizia tudo. Estava rodeado de um pequeno cortejo inofensivo. Aslan se chamava. Seu cabelo, rente aos ombros, era de um vermelho fogo cintilante, dava-lhe um ar de ator. Trazia uma bolsa amarrada à cintura, cheia de dobrões, dos tempos de Alexandre, o Grande. Vestia toga, a maneira grega. A corte flutuava e gemia, toda vez que o felino girava a cabeça em câmera lenta e segurava o queixo entre o polegar e o indicador da mão direita. Almuneda sorriu, ao vê-lo chegar ao Ligaya1, jamais pensou em retratar um ser daqueles como personagem. Lech e Lada, que dormitavam ao sol do fim de tarde, antes da correria ter início, ergueram as orelhinhas ao som dos címbalos, que ressoavam presos a tornozeleiras.
O som peculiar trouxe Pan Wos de volta; ele segurava seu diário de bordo, capa preta e espiral da mesma cor. Sentado em sua bancada, a aferir rotas, respirava com dificuldade, dono de uma ânsia que não o abandonava. Tantos anos de caserna e ainda se lembrava da tarde das mulheres na Mouraria, do apaixonamento que experimentara, feito raio, não por uma delas, mas por seu Hefestião. Eles nunca se dirigiram a palavra. O outro era frei. E isso era tudo.
Beatrice,
Beatrice
Baila a oração
entre os convivas do rio
Enlaça o que lhes
vai de esperança
As vozes soam
úmidas, acima das gotas
Trazem consigo o
hálito do Pai
Ressumam espumas,
nutrem o verde
Indicam o
caminho, o horizonte ali em frente
Cantam bem,
valsam forte
É a fortuna da
Vida, a vigiar, de perto
Baila a natureza
pura
Escoadouro
inseparável da bonança
As almas lucidas,
despertas
Trazem consigo as
Leis do Pai
Rendem graças,
rejubilam
Impõem ritmo e
conclamam aos irmãos
Cantem, bailem,
vivam bem
É a beleza da
vida, a vibrar, decerto

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