Contario de inverno 27

 




linha do equador

 


A marujada havia providenciado cremes de iniciação, enlatados especialmente para o evento, uma mistura elegante de óleo de tubarão-azul, extrato de euglena e mais algum odor desse naipe. A Comandante Julieta Aragon tinha alguma reserva em relação àquele fetiche, porém as tantas concessões que fizera nas últimas horas obrigaram-na a ponderar sobre tradições seculares. Todos os olhares apontavam para aquela morena de rosto forte, Esmeralda bela como uma palmeira, candidata ao batismo fedorento. Almuneda já soprara nos ouvidos da tripulação, lavassem primeiro os pensamentos com o tal cosmético.

 Ficassem todos mui tranquilos, também o leitor, era historia batida em liquidificador. Os passageiros semi materiais do Ligaya1 nada tinham de hostis, formavam generosa rede magnética em torno do navio, ostensivamente em maior número que os banhados por unguento. Sim, aquela seria uma pandega carnavalesca, no bom estilo lagareiro, praticada para que atravessassem em paz o depois do Círculo Máximo. Chegariam, em três dias, a Cabo Verde. É certo, a viagem tornar-se-ia encontro de reconciliação. 

Foi nos tempos de Lisboa, Mouraria. Uma festa de rua, reprodução das Bodas de Caná, patrocinada por um frei dominicano, instrutor de noviços. Maja Wos conheceu, naquela tarde solar, as raparigas Beatrice, Laura, Maria, Viola, Ophelie, Helena, Lisa. Também estava a bailar, sobre as pedras do Largo do Terreirinho, a estudante marinheira Julieta Aragon. Talvez o rapaz nunca tivesse visto tantas mulheres juntas, sorridentes, saudáveis. Encantado com o momento, encostou-se a uma floreira e puxou da casaca branca, com abotoaduras douradas, recém cortada para o seu corpo juvenil, um caderno de capa preta e espiral da mesma cor. Era assim que ele passava a pausa dos estudos e exames finais, a tomar notas do cotidiano lisboeta. Aquele era o seu batismo como marujo. De aspirante a frei, o rapaz decidiu-se pela Marinha, embora olhasse o mar ainda com certa angústia. Era tempo de desmanchar os nós com suas mães azul e vermelha, sumidas ambas, também com o pai britânico, sepultado há poucos dias, no Highgate. Ganharia o mundo, homem de bem em que se tornou. Troska gostaria de o ver no cais. As lembranças do luto fizeram Pan Wos, aparentemente, ignorar a jovem Julieta em meio aos convivas. Tal descaso não passaria em branco.

Ele era lindo, seu nome dizia tudo. Estava rodeado de um pequeno cortejo inofensivo. Aslan se chamava. Seu cabelo, rente aos ombros, era de um vermelho fogo cintilante, dava-lhe um ar de ator. Trazia uma bolsa amarrada à cintura, cheia de dobrões, dos tempos de Alexandre, o Grande. Vestia toga, a maneira grega. A corte flutuava e gemia, toda vez que o felino girava a cabeça em câmera lenta e segurava o queixo entre o polegar e o indicador da mão direita. Almuneda sorriu, ao vê-lo chegar ao Ligaya1, jamais pensou em retratar um ser daqueles como personagem. Lech e Lada, que dormitavam ao sol do fim de tarde, antes da correria ter início, ergueram as orelhinhas ao som dos címbalos, que ressoavam presos a tornozeleiras.

O som peculiar trouxe Pan Wos de volta; ele segurava seu diário de bordo, capa preta e espiral da mesma cor. Sentado em sua bancada, a aferir rotas, respirava com dificuldade, dono de uma ânsia que não o abandonava. Tantos anos de caserna e ainda se lembrava da tarde das mulheres na Mouraria, do apaixonamento que experimentara, feito raio, não por uma delas, mas por seu Hefestião. Eles nunca se dirigiram a palavra. O outro era frei. E isso era tudo.

 

Beatrice, Beatrice

 

Baila a oração entre os convivas do rio

Enlaça o que lhes vai de esperança

As vozes soam úmidas, acima das gotas

Trazem consigo o hálito do Pai

Ressumam espumas, nutrem o verde

Indicam o caminho, o horizonte ali em frente

Cantam bem, valsam forte

É a fortuna da Vida, a vigiar, de perto

 

Baila a natureza pura

Escoadouro inseparável da bonança

As almas lucidas, despertas

Trazem consigo as Leis do Pai

Rendem graças, rejubilam

Impõem ritmo e conclamam aos irmãos

Cantem, bailem, vivam bem

É a beleza da vida, a vibrar, decerto

 

 


 

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