Contario de inverno 24







olhos cor de jabuticaba


 

Já a Primavera. Musica de golfinhos. A lua, minguante. O ciclo das estações, generoso e hábil, acompanhava o grande barco, a apagar últimos vestígios de inverno.  A doce metáfora da vida terrestre.

 

Nosso Oficial de Navegação conferia os aparelhos, fazia contato com a Guarda Costeira pelo radio, corrigia a rota e prestava contas à Comandante Julieta Aragon. No intimo, memórias insistentes chamavam, exigiam até, tomada de consciência, do próprio curso, da própria razão. Maja, diante do mar, do ocaso, reconstituiu, em um cálculo de latitude norte, o que lhe sobrou da casa amarela de Zakopane. O frio cortante, a lareira apagada, o homem irascível a bater a porta, a mãe azul a chorar, cheia de hematomas. O exato momento em que Aninka entrou, o tomou nos braços e o levou. Com seus olhos verdes, boreais, a senhora olhava aquele menininho e orava uma prece desconhecida, cujas palavras Maja bebeu, como contas de sal. Agora, diante do sextante, o rapaz as repetiu Nie jestem godzien, abyś odwiedzał moje skromne mieszkanie[1]. Aninka, onde estivesse, haveria de escutar.

 

Bernard também veio ao pensamento, o seu Troska humano, homem que lhe  garantiu amadurecimento, de quem herdou brandura. A lembrança carinhosa trouxe outra cantiga, April is in my mistress face[2]. Como que por encanto, a lareira do peito acendeu, bem no instante em que Olíbano punha a carita no vão da portinhola. O gato não se fez de rogado, nem permissão pediu. Entrou, olhou o marujo do quepe ao bico do sapato, confiou que se conheciam há muito. Enroscou-se, sem cerimonia, entre as pernas do oficial, fez o bale oitavado quatro vezes e saiu novamente, excitado demais para ficar parado. 

 

Quando Maja subiu a um navio mercante pela primeira vez, lhe cresceu o primeiro pelo no queixo. Lá atrás, esperava um barco de madeira pintado de azul, Aninka, poucas peças de vestuário que já não cabiam mais, também uma pequena caixa, que pertencia a Maja, sobre a escrivaninha de Bernard, no sobrado de Londres. Naquela cidade, a porta que bateu e levou a saia vermelha. Depois, se lembrarmos de contar, saberemos que a caixa viajou a Barcelona e está segura em um cofre de banco. 

 

Deixamos, em capítulos anteriores, o dorastający sobre as areias da Barceloneta, aos treze anos. Foi lá que a viu pela primeira vez e a confundiu. Desse assombro veio o desejo de conhecer Lisboa, matricular-se em seminário e tornar-se frei. Que ventos lhe ergueram o habito, sinceramente, não sabemos se faz sentido mexer com tais ideais. Olhar o mar de dentro alargou a vista de Maja, ele, que escrevia diários. Não se tratava de buscar novas terras, novos tesouros, desafiar a Natureza. Tampouco fugir. Quando perguntavam ao Oficial de Navegação o que ou quem foi o responsável por sua decisão, Maja respondia, encabulado, Yin Yin. E nada mais dizia. 

 

Um costume que o leitor pode sentir como duvidoso. Maja abria dez livros ao mesmo tempo e lia, distraído, uma pagina de cada um, quando se lhe dava na veneta. Como adentrar uma comemoração sem ser convidado. Dessa pratica desatenta resultou uma cultura superficial, de não saber contar historias do inicio ao fim, de esquecer detalhes importantes, o cerne da lição, os atrativos que poderiam resultar em boas orientações, chave para solução de problemas cotidianos e administrativos. Obvio, Maja conclui varias obras – evitava os clássicos -, pode tecer até que boas considerações filosóficas, senão telúricas. O valor cognitivo que hospedava era de cinquenta pontos, inteligência bem fraca, portanto. Diagnosticado hipersensitivo, eis que conseguimos perfilar sua presença. Apresentamos um profissional mercante responsável, de boa lide. Alguns escritores falaram com ele, isso é certo. Insistimos, ainda não temos autorização para comunicações entre portos. Assim que a primavera firmar, trataremos de Yin Yin, o rapaz que possui olhos cor de jabuticaba.

 

 

 

 

 

 

 



[1] Não sou digno de que visites a minha humilde morada

[2] Composição musical de Thomas Morley

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