Contario de inverno 23







o longo caminho de volta

 

Vou-me embora, vou partir, mas tenho esperança

Vou correr o mundo inteiro, quero ir

Quero ver e conhecer, rosa branca

A vida do marinheiro sem dormir

 

 

Frei Antônio esteve sob a lona, no convés, por longas horas. Que metáfora maçante essa, vamos combinar, caro leitor. Homem feito, estudado, largado ao res da mendicância. Livre-arbítrio digno de nota. Belo exemplo para um gato. Olíbano, que ensaiava os primeiros passos no navio em movimento, eriçou a cauda após cheirar aquele ser e foi cochilar em um cordame mais adiante. O ambiente era por demais diferente, cercado de agua por todos os lados. Um olho aberto, fixado na dona, a melhor opção para o momento. Para Esmeralda, também foi preciso dar tempo.

 

Todos tão atarefados, passavam pelo encerado amarfanhado e seguiam seu destino. O tempo estava firme, não havia previsão de ventos ou temporais. Para a lide da embarcação, que exigia tanta disciplina e zelo, aquelas gentes reunidas eram um destempero que não podia perdurar. Houve um consenso geral. O de ninguém julgar alguém, nem mencionar o Bojador. Cabo Verde, terra querida[1], que aguardasse o Ligaya1.  2º Oficial de Náutica, Acyr Silva, teria êxito, na incumbência para a qual fora destacado. 

 

Em que mundo nós estamos, tu poderias me perguntar, leitor amigo. Coloco este desastre fabulístico na conta do mar intimo que chora, vidas a procura de correção, à maneira de um desafino em ensaio musical, dois antes do geral. Seguimos com a narrativa, haveremos de aportar em breve. Acyr aproximou-se da lona, como se fora o primogênito que trata um pai, velho caçula, franzino, desistente. Descobriu a cabeça de Antônio e acariciou-lhe a face macilenta por um momento. O homem abriu os olhos sem querer e o oficial perguntou se ele não levantava, o acompanhava ao dormitório, para banhar, vestir roupas limpas, quem sabe comer uma refeição. A força persuasiva de Acyr tinha fama entre a tripulação. 

 

Foi recitando, sonolento, a hora de viajar chegou, afinal, singramos os mares com destino a Lisboa. Era bom que Antônio desembarcasse à terra mãe com bons ares, asseado, quem sabe um livro entre as mãos, que lhe parecia a Eneida, vamos, vamos, vamos construir um novo lugar; quem sabe Emerson[2], no vayas a donde el camino te lleve, ve a donde no hay camino y deja un rastro.

Com gesto vagaroso, o frei conseguiu sentar-se, a melancolia o arrastara voluntariamente a claustro profundo. As poucas forças não lhe permitiam falar. Acyr, com amável aceno, chamou Carlito Ortega, paioleiro, que já tinha sido instruído a trazer uma cadeira de rodas. Seguiu a promover a saga de Eneias, aquele que conduziu sua gente a uma nova terra, onde despontava a gloria, o nascimento de um império. A narrativa se misturava, claudicante, a frases soltas do filosofo americano, propositalmente lançadas ao vento, para instigar réplica.

 

Os dois homens, mais robustos que o necessário para a situação, sustentaram Antônio pelos ombros, um trapo a flanar no varal entre eles. O estrago nem era tão grande, apenas um cheiro característico de melancolia e fraqueza, mais de caráter que físico. Não havia outro jeito, era deixar-se guiar e só dar conta do novo estado quando se viu nu, sentado sob o chuveiro do dormitório, em espaço onde mal cabia um . A ducha molhou com rapidez e Acyr tomou a frente nos primeiros esfregaços. De um ponto em diante, Antônio pode cuidar de si. Um pouco mais de agua doce para retirar o sabão e estava, afinal, mais apresentável o nosso construtor de homilias. 

 

Tomo a liberdade de respirar um pouco, senhor leitor, de refletir sobre a tarefa insólita que será sugerida, uma roda de leitura em barco mercante. Ainda não temos ideia detalhada do funcionamento do projeto, ainda nos causa comoção ponderar a respeito. Certamente, em todas as travessias, houve ao menos um improvisador, capaz de inventar mirabolantes, excitantes, apavorantes épicos náuticos. Um contador de anedotas, um trovador. Um palhaço. Tudo para manter dragões do lado de fora das embarcações.  

 

Ainda na cadeira de rodas, traje a paisana doado por um marujo sobre o corpo magro, Antônio foi conduzido ao refeitório. Malika pôs, diante dele, uma tigela de mingau de aveia e mel. Surpreendeu-se, o homem comeu sozinho, sem exasperação ou enfado, denotava boa origem. Foi-lhe oferecida uma garrafa com agua, tomada a goles pequenos. Acyr cumprira a primeira parte da missão. Deixaram-no quieto por alguns instantes. Com tato e decisão, o doutor Himari se achegou, foi arengando uma pagina de Mishima[3] no idioma original e o som percussivo da voz encantou o frei. A ideia era essa, atração pela fonética. 

 

Interessante pensarmos: quantos de nós sonhamos com oportunidade igual. Alguém que nos resgate dos infernos, auxilie na viagem de volta, cuide intimamente, mude nossos cueiros e ares. Entoe acalantos para nós. Ah... Sem esforços, sem dores, sem provas, reptos, o mar azul das quinze horas diante dos olhos. Que imagem descabida é essa, amigo leitor de tantas batalhas? Quantas vezes isso já te aconteceu? Pelo menos, esse homem que nos ocupa o pensamento durante a breve historíola, possui nome, sobrenome, pai, mãe e numero de identidade. Estava preso a um Triangulo das Bermudas pessoal. Não, Antônio Inácio de Narval não foi criado especificamente para ser amado, ou suficiente, ou gostar de verde ou furta-cor.  Quem sabe quiséssemos nós, humildes, que nos penteassem os cabelos, afagassem as bochechas, aquecessem nossos estômagos. O Ligaya1, longe de ser berçário, acolheu almas errantes, confiante de que se revelariam peças uteis à comunidade.

Ao conferir as latitudes pelas quais navegavam, a comandante Julieta aguardava a normatização de pelo menos um, dos insólitos casos que lhe cabiam gerir. Era difícil para ela sentir-se a altura das insígnias que ostentava no braço direito. Da cabine, a mulher Afrodite olhou o céu, as ondas e disse palavras encantatórias, que o oceano fosse generoso durante toda a rota até a ilha. Que sua tripulação fosse diligente. 

Não longe dali, um gato, um jumento e um trasno confabulavam suas coisinhas no segundo convés. O mastaréu da gata lhes proporcionava sombra suficiente. Olíbano deixara Malika contente ao aparecer em sua porta. Ganhou, sem pedir, um prato de sardinhas misturadas a ração e um pote com agua. Um afago no pescoço e um pedido, que visitasse a cozinha mais vezes. Havia, em algum lugar da nave, outros dois felinos, responsáveis por vigiar vários setores. Eles garantiam a quase inexistência de insetos e roedores. Como recompensa, tinham ração garantida. Até  a manhã da partida do Porto Antônio, reinavam, absolutos. Agora, era ver, se lançavam  o intruso ao mar. Trataram de sumir quando descobriram o colega naquela sacola suspeita. O motivo da presença dele poderia justo. Para Cris e Jocafi, no entanto, invasão de território. Enquanto eles tinham apenas um ao outro, o visitante trazia consigo aquelas duas criaturas bizarras, um gigante barrigudo de orelhas pontudas, outro nanico, com um nariz que lembrava tromba. Ao ouvirem o zurro de Seu Tonico, provocado por um gracejo de Bar’, não houve jeito de chamarem aquela gente as falas. Um novo encontro só aconteceria quando a lua brilhasse no céu. O que os bichos não podiam adivinhar era a presença de uma égua belíssima, branca, duas vezes maior que Seu Tonico entre eles. Ela chegou ao meio dia, sem rebuliço. Beijou a testa de Seu Tonico e pediu a Bar’ que não dissesse nada, por ora. 

 

 

 



[1] Alusão à canção Sodade, de Armando Zeferino Soares

[2] Ralph Waldo Emerson

[3] Referencia ao escritor japonês Yokio Mishima

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