Contario de inverno 21
bordado namorado
o fim é o começo
chocolate quente
aos domingos
tudo parece resina e gelo
o coração acena paz
o peito canta beijo
Não me parece maneira amena
de falar de solidão
Amável leitor, bom rever-te. E se eu saísse a dizer: um encontro inventado, como todos os outros de uma jornada. Melhor gerenciar expectativas, evitar refugo jogado ao mar. Encanto não acontece a qualquer instante. E para se transformar em descanto, longo raciocínio musical é necessário. Pois era este o horizonte que ia estampado no quepe de Pan Wos - mais para chlopiek -, ele parado na rampa do navio, sapatos mal engraxados, paletó amarfanhado, ao lado da passageira recém admitida. Havia rigorosos protocolos para tais ações.
Valho-me deste veiculo faz de conta para investir na historieta que sim, parece fadada a dar com os burros n’agua, feito as demais, três, que o rapaz viveu. Depende de mim, ou não, a cor do vestido. Vamos a ele. Para o Ligaya1, um trelele com que se ocupar, como se todos ali tivessem tempo para matraquear, ler e sonhar.
Eram 14e16 de la tarde. Céu de um azul verde. Julieta Aragon, Comandante em exercício da nave, respirava contente no convés. Dera as ordens, estas prontamente acatadas pelos imediatos. Zarparam afinal, Fernando de Noronha ia acenando os lenços namorados da tradição. Sabemos que o mar é tempestuoso.
Como se fazia necessário lavar o convés, o Imediato 2ON Acyr foi recrutado para despachar o senhor Inácio de seu refugio catatônico. Um rapaz cheio de bonomia o Acyr, por isso mesmo Julieta escalou-o. Haveriam de conseguir, juntos, que o homem encerrasse sua temporada de mendigo. Talvez o passo seguinte fosse ousado: Inácio viria a ser útil, seria integrado à equipe em projeto inovador, pelo menos até chegarem a Cabo Verde. Novamente, leitor, a quem confio pensares, eis situações insólitas para a Marinha Mercante. Sigo com proposito romanesco, peço que me concedas a licença.
Ponderaram, Julieta e o doutor Himari. Rodas de leitura cairiam bem aos marujos, uma breve conversa sobre obras náuticas, que inspirasse e motivasse o trabalho. Trinta minutos - um dia sim, outro para preparar o próximo encontro - dariam, é possível, algum alento ao coração que desistira do seu oficio, até da jornada. Só faltava Inácio jogar-se mar afora, sem salva-vidas. A obra que sugeririam para o primeiro encontro era do escritor japonês Yukio Mishima[1]. O doutor possuía dois exemplares, que rodariam entre a tripulação. O formato, perfil da tarefa, sairia do mérito do professor, muito elogiado por Pan Wos em varias ocasiões. O Oficial de Navegação - responsável por aquele velho enleado na lona -, ainda não sabia da proposta. Inácio, muito menos.
Bar’ correra de um lado para outro, durante os preparativos para a partida do navio; escutou aqui e acolá. O fato de ver tantos mentores veteranos e nenhum a quem pudesse abordar, deu-lhe um enfado maior que seus quase cinquenta centímetros de altura. Não, não nos esquecemos de que existe um burrico invisível na historia. Este mastigava uma bela porção do ar marítimo, mais especificamente, o sal faiscante das gotinhas. O animal mais sossegado do mundo dava um alento diferente ao ambiente. Era só parar ao lado de alguém e já inspirava afeto. Foi então que aquela dama diáfana, trajada de verde, veio ter com ele, afagou sua orelha. Bar’ a conhecia das andanças pelo Rio Juruá. Era a Alcayaga[2] . Tudo o que é diáfano, melhor que assim permaneça. Um corte elegante o do tailleur, da cor dos olhos daquela fada, faróis que chegavam primeiro ao alvo, sugeriam fascinação e medo. Ainda no movimento de carinho, recitou quatro versos
La luna vino a la fraga
Com su polison de nardos
El nino la mira mira
El nino la esta mirando
Se havia algo de surpresa na presença de um vestido a bordo, toda tripulação suspirou. Flagrou nele, mesmo, a lua que sorria, tênue, no azul da tarde. Da sacola lilás começou a mover-se, discreto, o Olíbano. Com um salto leve, preciso, desceu ao convés e iniciou sua sondagem com controle de riscos, ocultando-se assim que algo suspeito se mexia. As gaivotas voejavam longe, não deram por ele. Seu Tonico encantou-se ao primeiro gesto. Veio devagar, amistoso. Era do instinto os pelos da nuca eriçarem, porem, logo ao certificar-se de que se tratava de protetor, o gato relaxou por inteiro, esticando-se todo, após tanto tempo na sacola. Esmeralda olhava o mar, em puro deleite. Pan Wos ao lado, esperando ocasião para trocar alguma impressão. E foram os versos da Alcayaga que ele murmurou.
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