Contario de inverno 20




E tudo o que se disser

                              

Ils disent mille escolhe

Dicen mil coisas

 

Como explicar que não, não se vai invadir os pensamentos de um homem com vibrações desconhecidas até do emissor? A troco de que abriríamos um capitulo dessa maneira, psicossomática? Sorumbática? Haveremos de fugir de um romance sem futuro, mais um de um rosário. Eis a meta.  Mesmo assim, tenhamos calma, para transmutar tal sentimento sem perder a ternura do voo.

 

Temos uma carta marítima na mente, caro leitor, para os acertos diários, honestos, sãos. Eu te digo: sentir respeito é prato requintado, de comer em Mindelo. Admiração não garante boa convivência. Há o campo gravitacional entre terra, céu e segredo. Não desejo revelar o milagre, tampouco o santo, menos rumores sobre burlaria, eu não posso suportar. O combinado então, para este dia, é apresentar um feijão com arroz, tempero leve, de alho e sal. O coração é a distancia entre o Porto Antônio e Porto da Palmeira. Vamos aos fatos, se os houver lícitos, há muito que evito as fofocas por escrito.

 

Todos possuíam as mesmas três horas para os arremates finais. A partida do Ligaya1 fora confirmada por Julieta, Comandante Interina daquela nave, sua primeira missão dessa envergadura. A tripulação, se condenada a mais um dia naquela ilha, haveria de praticar atos ilegais. Melhor ir embora, com todos os problemas pessoais embalados, de febres, delírios, luto, o que fosse. A carga do navio exigia movimento.  Havia na oficial uma nobreza que a destacava de todos os outros passageiros. Nada de arrogância, tirania. Julieta era correta, como pode ser um humano já em vias de ganhar a segunda asa. Nada de polemicas de gênero, tratava-se de aura feminil, yin e yang equilibrados. E como cantava aquela dama. Adonava-se da proa e sussurrava para o mar cantigas espanholas, sempre que a folga permitia. Uma plêiade caminhava-lhe ao redor, generosa, prestativa, inspiradora. Já falamos disso, leitor amigo, não temos permissão para pintar o invisível. 

 

Arroz e feijão, foi o pedido feito por Julieta a Malika, para o café. O chef da nave sentiu-se honrado em lhe servir o simples, com todo afeto que possuía. Como que intuído, cozinhara o feijão fradinho logo cedo e o arroz carnaroli ficaria pronto em vinte minutos. Acrescentou ao pedido, por conta e risco, um vetkoek sem recheio. O chá, já o conhecemos da manhã anterior, o rooibos. Um derretimento contido ia com o rapaz, uma paz bem nutrida; assim, acompanhar aquela mulher em seu cotidiano marítimo era um drama de Soyinca[1]. Julieta era dessas estrelas vermelhas, aviso de bons ventos. Malika, asteroide potente. Não, não é deste enlace que trataremos hoje.

 

Não era porto de retorno constante o Santo Antônio, então se fazia necessária uma despedida efetiva. Narval voltou de seu letargo em meio aos barcos-pedra emborcados e deu de cara com os jacintos do vestido de Esmeralda. Pensou tratar-se da Imaculada em pessoa, pronta para o andor de festa de rua. 

 

O frei já estivera em um deserto de agua antes, o Lençóis Maranhense. Para ele, era uma questão de encontrar, agora, o próprio estado, entender que sobrara alguma clareza e localização espacial. Não sabia onde estava, por que, para que, nem que se tratava de mar, ilha, porto, sequer navio. Entre olhar as pedrinhas e as flores, optou pelas panturrilhas, melhor, os tornozelos. Como ainda se encontrava oculto pela lona, deixou seus olhos amarelados a mercê do sol. Não moveu pelanca sequer, embora o ventre reclamasse pôr as cartas no correio. 

 

A bolsa lilás de Esmeralda estava um pouco mais aberta, ainda a cobrir-lhe o peito. O gato se permitiu por as orelhinhas de fora. Um griteiro de gaivotas anunciou o agressor, que de violento nada tinha, ao contrario, era tão dócil que permitira à dona transportá-lo sem reclamações. O bichano iria com ela ao outro lado do mundo. Do céu, sem pedidos, desceu uma sardinha pequenina, caída do bico de um martim fêmea, direto ao focinho de Olíbano.

 

A mão da Vida deu a semear

Um lago sereno

O clarão róseo, lótus do nascimento

Emprestou esperança àquele momento

A criança viria, em noite de boa lua

Presente que só pode receber

Mulher simples, de coração puro

Sorria, mãezinha 

A terra há de cantar contigo

Com os ventos e os pássaros

A poesia da colheita

 



[1] Wole Soyinca, escritor nigeriano, Nobel de Literatura

 

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