Contario de inverno 17
Rey a quien. Para um magistrado de grande poder.
E então, algo inusitado sacudiu o Ligaya1. Nosso Inácio, sentado no convés, bem perto do mastro da vante, tinha as pernas esticadas e uma porção de pedrinhas, as quais lhe serviam de barcos. Parecia que compusera uma batalha naval, ou era só um encontro amigável de cais, introspectivo. Movia uma pedra, que batia em outra, empurrava outra, todas mantidas ao alcance das mãos, jogo caótico, surdo e pessoal.
Quem olhasse de longe, tinha diante de si um velho de seis meses, a arrumar suas coisinhas no cercado, sem mãe por perto para acudir; velho neném é desengonçado demais, fastidioso demais. Por enquanto, o frei não necessitava outra coisa que cantarolar, dar som peculiar a cada nau. Brincava, esquecido da vante, dos marinheiros atordoados pelo sono, da solidão, da saia vermelho sangue, até do perfume da mulher que ele abraçara, como quem estrangula.
Depois do rompante que vivera na praia, diante de uma mesa com livros, há que se pensar que o desnorte açoitou de vez o Inácio, o desarmou de vez. Nós, que já o vimos de posse de diamantes, em meio do preto e amarelo do rio, nas mãos de um verdugo, lamentamos e não. Quantos de nós perdemos o rumo... e não. Fauno e protetor, Pan Wos trouxe o amigo, sem resistência, de volta ao navio, pôs o desafortunado no catre do dormitório, aplicada nele uma dose de tranquilizante leve. Ainda tocou o lute por longo tempo, Rey a quien[1] repetidas vezes, variações mirabolantes de dormir e sonhar, sem entoação ou excesso de melismas. Um desejo de leveza, em meio a manancial estiolado, tempestades duradouras.
O Ligaya1 andava bem servido. Capitão Antônio de Almeida enlutado. O passageiro do deserto aboletado ao castelo da proa, inocente feito menino de corda, inútil paisagem, seria jogado ao mar, assim que o navio esboroasse, mesmo que Pan Wos chorasse. O médico da nau a prestar contas na Capitania dos Portos. A enfermeira, em desuso, nem para aplicar a injeção compareceu, lia alguma revista de moda em seu compartimento, protegida por biombo. Nem ficamos sabendo qual marinheiro abriu a porta da farmácia e que ciência possuía para pegar o remédio correto. Dentre outros enroscos, que enfarariam nossos leitores, ficamos só com estes, a viagem a Lisboa interrompida, a carga na espera de destino, todos a garantir que nada seria perdido, nem homens, nem sementes. Calmarias na vida são bem comuns. O navio lindo, sua faixa verde limão siciliano a traduzir saudades, embalava docemente a paisagem do Porto de Santo Antônio. Ainda aportamos em Fernando de Noronha, Brasil.
A mestre de cabotagem, Julieta Aragon, dera as ordens no convés. Tudo paciência. No comando, ela entendia a vulnerabilidade de tudo, as ondas do mar onde seu amigo não se via. Aquele, afinal, não era cenário de circo mambembe. E era. Tudo se transforma. O primeiro, de dois dias sabáticos, já roseava a lua nova. Marinheiros namoradores fariam sarau. Isso não é romance de pescaria, é alguém a passar uma chuva, enquanto seu lobo não vem.
Não podemos, assim do nada, invocar a proteção de San Jeronimo, acoitado ao deserto, sem chapéu vermelho a lhe proteger os longos cabelos.
Embora os saudemos com escusas leitores, abrimos alguma pagina onde há villancico natalino, partes repletas de cadências melódicas, condes com golas redondas, perucas cacheadas e, talvez sob as vestes, carrapatinhos ferradores.
Aquecemos a mente investigativa, nós, simples escrevedores de diários de alcova em noite fria. Coitadinhos de nós. Claro, seria esplendido ganhar uma burra de ouro por tal façanha. Ter o nome fictício cantado pelo mundo: o grande, the magnificent Homero do século vinte e um. Não, não são justificativas para bloqueio criativo. É rebote de algum passado enfadonho, algum sentimento pensamento de magoa, simulacro de grande perda, um baleeiro afundado, supomos.
O frei se levantou em meio a madrugada escura, um raio e outro a cortar o céu, sem trovoada. Foi até a cozinha. Malika dormia perto do fogão, que ainda se mantinha quente. Tomou de um pedaço de broa, puxada sem jeito, sem faca. Subiu à proa, tirou as pedras da sacola e se pôs a brincar, enquanto rolava a massa fofa do pão de uma bochecha para outra. Sim, ele possuía a maioria dos dentes, muito amarelos.
Vai, não vai, Narval seguia com seus barquinhos, as pernas esticadas. Nenhum plantonista fez caso de chamar Maja. O frei, em dado instante, pareceu despertar. Olhou, de relance, o sol já se anunciava; por entre a amurada a viu, vestido de jacintos, faixa azul mais escuro, amarrada com esmero, cabelos ajuntados com fita verde musgo. Era ela, a mulher da praia, a mulher da Barceloneta. Também a mulher do Juruá, também o bebezinho com nome de cipó. Também aqueloutra, a dos sacos ao lado do fogão, onde escutou fogos de artificio, onde viu a lei sumir, com embrião no ventre. Se Narval mesmo não tomasse conta de si, teria corrido para beijar Malika nos lábios. Ai, estava armada nova confusão. Ele teria gritado, braços abertos, Juruá me traz suas aguas. Miragem? Era ela, vestido de jacinto. Era ele, habito vermelho sangue, faixa vermelho sangue na cara.
Sobre a mesinha de trabalho do Oficial Maja Wos uma folha, displicentemente largada, obrigou ao trasno manter-se aboletado sobre ela, senão poderia voar pela escotilha aberta
O mar, tingido do vermelho nascente, abriu os olhos de mãe sobre as crias. De cabelos soltos, uma luz ouro espraiou as espumas. Espraiou as espumas, permitiu contemplações transitórias. Manto de retalhos, fundo de um barco, fundo de barco aqueceu o pescador, ele encolhido junto à rede, trama de cipó. Trama, a exigir costura em alguns pontos, reclamou obrigação. Diligente e são, o pescador endireitou-se, foi tomar a benção do Pai. ‘Bença’, Pai, hora de beijar o mar. A conta dos ventos promete boa pesca, hora de beijar o mar. ‘Bença’ Pai, hora de beijar o mar. Cinza chumbo contra laranjais, as ondas acolheram aquele tarefeiro sem camisa, sem sapatos. Em breve tempo, sustento da barraca de feira garantido. A sorrir, o pescador deu graças pela graça. Aquele instante, aquela inspiração, peixes limpos, vida de areia. O pescador tratou de por em pauta a esperança, outro talento que tinha. A moda, sorriso de mãe, encompridado pelos olhos das crias, foi ouvida pela gente do istmo. Dia de nascimento. Dia de rezar as mais gentis lembranças. O pescador tratou de por em pauta a esperança, aquele sopro de mãe e cria. Outro homem, magistrado da cidade grande entrou na feira, grato ele também, por tocar o ar, por poder amar e conhecer. Quinhentas gramas de linguado, aquela lula para o risoto grego. Era a ceia, parto bem sucedido. Era a ceia, natal de um amigo. Pescador achou o homem bonito, distinto, de voz meiga, o respeito à frente da camisa; o afeto, luz de cada gesto. Pescador da praia mansa tratou logo de pedir licença, de engendrar verso novo pra moda, desses de jamais esquecer. A bondade do Pai se confirmou no encontro. Não era o caso de revelar tal verso, somente regar um sentimento bom, desses que renovam marés. O magistrado seguiu seu rumo, peixes frescos na sacola, deixou a forte impressão de vir com o Pai. A viola deu mais três notas de saudade, que é assim que se conclui uma canção.
Tudo isso parecia febre de poetas sem corpo, alma aberta em outra dimensão, nada de patrulheiros, olheiros, mateiros, ou amigos da letra. Da tela de Mantegna[2], que não entrou na roda, falaremos outra hora.
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