Contario de inverno 19
terra-terra
Meu coração inventa o charco, o lótus e o flamingo.
O céu azula nas beiras o cinza de guarda do jacaré.
A túnica de algodão esvoaça no galho do butiazeiro. Ah, meus personagens peregrinos; aqui, nos Alpes, Nicarágua. Malgorzata, só um nome de menino, olhos de neve e amarelo. Não falemos amores, que são palavras afiadas do livro de silêncios.
O sol cordel abre os braços, convida ao leme. Zarpa, sem pressa o imenso graneleiro, Ogum Xoroquê[1]gira, que gira no estandarte, ninguém jamais pensou em mostrar a face assim, na orla do porto, Fernando de Noronha a pulsar em zoom e pescado fresco. O canto, parlenda, sino de igreja, jacupemba, bastião. Uma gaivota grita uma nota, depois três e então...
Faltavam seis horas para a partida do Ligaya1, destino Lisboa. Antes, Cabo Verde, Madeira. O sol nem dera as caras, enrolara-se em edredom felpudo e marcava o céu com fina lucidez violeta. O mar, barulhoso, um tanto tisnado de safira. Lua Plena. Eclipse.
O Porto de Santo Antônio andava rumoroso, a festa do padroeiro durava o dia todo e as saídas de navio eram muito saudadas, mesmo os de função mercantil recebiam guirlandas, rosários e ladainhas, brincos dos repentistas. Os marinheiros adoravam tais perturbações, que lhes garantiam romper a ordem, sem rescindir, de fato, o compromisso com a patente. Candomblé se fazia presente na orla, o orixá e seus enfeites a acompanhar cortejos, batuques, cirandas e cantos, desde a noitinha do dia anterior. Era festa pra inglês, linda mesmo assim.
Quem diria que, em tempos modernos, em terra de turistas, a descrição tivesse esses pinceis de litoral primitivo, dos transportes de cana e livros pestalozzianos para os filhos de coronéis, cheios, os meninos, de civilização antiga e Odisseia. A filosofia, mais ou menos atual, frutificava no Brasil religioso como oásis. Nos dias de hoje abismos, quiçá otimismos.
A permissão para falar do invisível ainda não fora concedida, então a equipe do Ligaya1 respeitou o terreno alheio, o coração alheio, o corpo integral alheio. As danças de rua eram prêmios de quem, muita vez, só tem as ondas por embalar. Não faltavam regionais de choro, grupos de caixeiras, corsos. Samba de roda aqui e acolá. Os hinos escapavam vigorosos das portinhas humildes, enquanto a matriz recebia um coro do Paraná, só de homens. Também estavam presentes na orla cordelistas de vários rincões. Mães de santo, benzedeiras. Pais de santo, Exus. Cocares de varias nações. Padres a rezar missa a céu aberto, proposta de campesinos. Videntes apocalípticos a imporem suas vozes no vozerio popular. Cantos e mais cantos. Antônio, o santo, olhava de sobre uma nuvem, a ver se o sol vinha ou não. Mais um dia de poesia.
Um curioso movimento de caravanas nômades fazia sua aparição própria no cenário, diáspora que ocuparia todos os navios que aceitassem transportar pequenos grupos, em troca de escambo, alguma ajuda com combustível, prendas culinárias, alguma arte mambembe e serviço de manutenção, limpeza. Outros serviços seriam também ofertados, pensamos em luz com pitadas de sombra, tolos estamos longe de o ser. O velho continente clamava nos corações. A decisão era por demais arriscada e triste. A comunidade precisava desfazer-se. Muitos, talvez jamais se encontrassem outra vez. Ainda era fácil atirar corpos ao mar e beijos ao vento.
Maja Wos veio respirar o ar marinho; sentia-se mais forte, depois de uma noite entremeada de sutis delírios. Desceu ao refeitório. Malika já o conhecia desde os começos do Ligaya1, guardara para ele um pedaço de robalo grelhado e arroz de forno. O oficial aceitou uma caneca de rooibos para auxiliar na hidratação.
O lute não tinha intenção de transformar aquele momento em enlevo melancólico, somente daria aproveitar a folga àquele marinheiro de patente, antes dele assumir o comando da nave. Ain dormia amarfanhado sob uma lona, protegido do vento e do sol. Suas pedras–barco, artisticamente postas ao alcance da mão, refletiam um brilho próprio. Um conhecedor de arte veria no gesto traços do maneirismo tardio, não, não me aches presunçoso, querido leitor, estou a falar do que soube no cais.
Aproveitando-se de um boroeste que uivou fininho antes do trovão, Bar’ se aboletou sobre o deck e enfrentou o olhar lucido do frei, a rezar algo improvisado a Maria de Nazaré, a quem recorria sempre que ficava muito confuso ou sentia dores calejadas. Interessante, aquele homem não ter permissão para dar fé de seu protetorzinho. Poderiam então conversar, trocar impressões, sentir-se mais pertencentes a algum plano. Nada, nada, nada.
Narval posicionou os barcos-pedra em forma de triangulo; parecia muito cansado, deu a impressão de exalar um ultimo suspiro, porém foi o sono que o visitou, levou sua mente para o meio da mata amazônica. O trasno permaneceu em silêncio, a vigiar sem vigiar. O encontro na cabine, com aquela entidade tão ilustre, tão carregada de historia, promoveu no pequenino cismas que não se poderia contar aqui. Uma dadiva, poder ver o inefável, inda mais ser objeto de dengo de alguém tão carregado de bons fluidos. Brincar de cavalinho foi a ultima coisa que Bar’ esperou em termos de afeição. Estava enuviado, leve, satisfeito. Assim, meio pasmado, o ser das fadas olhou através da borda; deu com as primeiras carroças muito disciplinadas, distribuídas em grupos de cinco ou seis. Como mágica, seus ocupantes iam desmontando eixos, madeirame, rodas. Os cavalos de tração eram alimentados, todos acarinhados com gesto saudoso. Um único homem levaria aqueles animais para o interior do continente, para que servissem em chácaras, sítios. As carroças viraram bagagem de mão.
No meio do rebuliço havia uma Esmeralda, no vestido de flor azul orvalhado, do qual já falamos. Só não comentamos que se tratava de indumentária com corte revelador, para deixar pensativo um marinheiro. Sem carroça, uma sacola lilás trançada à frente do corpo, vez ou outra espiava do fecho um par de olhos amarelos, desconfiados.
E o dia amadureceu sem chover, veio da passagem da Terra diante do horizonte da Lua. Olhos humanos, lunetas, telescópios, animais, flores e amores a puderam contemplar, tapado o seu clarão. Eu a vi, ainda plena, do teto de vidro de minha casa, quando o evento começou, às vinte e três horas. Nada de sustos, leitor, sou eu, absorto em anotações que podem ser delírios de Maja ou meus, já nem sei.
Antes, eu vi a Lua nascer junto deles, a mãe, o pai, o filho, a esposa e um querido meu. Depois, nas despedidas, um beijo sem jeito no pescoço, desses que certas mães dão nos filhos varões muito amados. Complexo, descrever uma febre, perdoe aquele que flui comigo nesta fonte. Quantas mães sofreram e sofrem, um sentimento endeusado por seus meninos. O que poderei dizer, das que olham os filhos dos outros e morrem de pouco. Era necessário sorver o doce de laranja de Malika como quem ora. Era apartar-se do romance de Saura[2], para garantir-se alguma sanidade, nas letras e no coração. Ainda terra-terra, ainda sentir cheio de escombros, exigia da minha pena responsabilidade.
A vontade, ao subir a rampa do Ligaya1, era deitar em qualquer parte, sem higiene, sem coberta, sem regurgito cerebral; ou adormecer em cama macia, a luz da lua atrás do cortinado, a esquecer urgências, escolhas pessoais. A musica traduz tanto, sublima, só escutando para sentir. Casa ouvido, casa escuta. O navio casa. Eu digo, leitor amigo, a Beleza contemplou nosso Maja Wos. Talvez um componente sedutor em cada nota bordejada, desses encantos que pertencem a meninas de cinco anos, encobertos por sorrisos.
Quem quiser, que conte outro conto. Eu escutei o manto de uma santa, de minha bancada de trabalho. O conto é de sentar à borda do convés. E o novo dia É, cantado pelas gaivotas atentas, donas da pesca. Temos sol entre nuvens nesta manhã, fios amarelos de luz, nostalgia longe, longe. É sexta-feira ultima do mês agosto, o ano é aquele que o leitor desejar, por volta de oito horas, carga já empacotada para embarque.
Não sei se me cabe cantar uma casa neste instante, casa viva, habitada por ternurinhas e os desconfortos modernos dos papeis, os sociais, os da Lei, os dos anelares. Ah, compaixão, ah piedade. Júlio, eu chamaria ao meu filho Júlio. Deixei lá, escorrida pelas paredes, vidros, madeiras, talheres a minha voz, que sofre e consola. Sofre nem sei por que, não aguentaríamos cotidianos. Somos artistas, difícil encontro. Lembra, muito, Vincent e Gauguin. Eu sinto muito leitor, ainda não obtive autorização para expor tal historia, visto que pode ser a construção mental mais equivocada do coração de um compositor de diários.
Ontem não tivemos bebida quente. Foi o melhor taiá de todos os tempos, ervilha fresca e mignon suíno, regado de alecrim. Um suco de pêssego, que ornou muito. A louça foi lavada, por um tris; quase quebrei a terrina onde o legume foi descascado. Porcelana branca, discreta. O azul de Maria valsava, sereno, atento.
Soube que o piso de madeira do teatro foi trocado, então a metáfora da voz precisa evoluir. Eu pensara o dueto mais o lute, encerados ali para sempre. Agora é pelos alambrados e postigos que as notas vibram, frágeis. Ontem eu cantei casa adentro, telhado de vidro e aquela chama de carinho. É interessante, gostar demais de alguém. Tem o indefeso que morde ali, um olhar que é puro rio, que parece varar a gente direto do trópico. Saudade de repouso, de estudo sistemático. Um respeito tenso me ancorou, pelo homem. Horas, bem empregadas senti, encontro criativo, para tocar as coisas de Espanha. A Consciência da Lei a entoar seu hino de decência. Idêntico carinho, do tamanho do respeito. Ternura não é palavra que abrace a causa. É algo mais. Sentimento encarnado contudo, ainda pode causar dores do apego que vem, em geral, fulminantes, no terceiro dia após o evento. Por enquanto, o alimento da paz meditativa me suporta, talvez uma agulha poderosa no flanco esquerdo, do tratamento com o laser que recebo.
Não sei falar as preces matinais, tampouco as noturnas, Amigos dos amigos, peço perdão. Vibro mesmo assim, em agradecimento pelo fluxo, do sangue, do ar, do húmus, dos autos morosos, dos velozes e agressivos, dos sem horizonte. Ah, os pequenos trechos de correr, o auto parecia um cachorro com a língua para fora. A estrada tem um que de cansada. Ao lado dele na boleia, a falta de parceiro dói, como talho de florete. Companheiro de musica, merece atenção. Por ser quem é para mim, uma aduana austera nas nossas retinas, eu vibro por um motivo, ele por outro. Todos os Patrulheiros atentos, dispostos ao socorro de várias almas, à orientação, por bondade. Tenho uma tendência de ver o pior das situações.
Olhei o centro velho da ilha, por onde passamos, e não pude entender o que acontece. O raciocínio da cidade é o da velhice que perdeu tempo. Não se pinta uma casa para a contemplação, mas para viver em ela. A gente precisa destes corpos extras, como cachemira e casaco de marta. Pagamos impostos para que os espaços públicos estejam limpos, floridos. Tudo uma questão de respeito. O inverno é uma estação interessante, também no litoral.
Mesmo assim, com todos os atributos aparentemente negativos, entendo as modulações da Vida, presentes em todos os ‘largados’, ‘alagados’, desistentes, preguiçosos, zombeteiros, negligentes, ‘coitados’ a perambular, a se misturar ao monturo e anestesiar-se com álcool, sabedores de que sem o corpo casa será ainda mais humilhante. Mais afligente é ver bandos a errar pelas calçadas, diante de distribuidoras de vicio, meio que se abstendo de cometer selvageria maior.
Será que aquele poeta dos vampiros, ou o das verduras alegres e tristes já viam, há tempos, a situação como eu a vi? Pois, eu não fiquei triste. Eu não vinha só. Ele estava ao lado, na boleia. Senti, apenas, não ver as redes magnéticas a se estenderem sobre os abismos, para acolher os que entendem as Leis. Tenho um mastro célebre para me segurar, fibras boas de nutrir com letra.
Nesse dia de visita à casa com telhado de vidro, recordei muito carinho. Mi avuelo silente. Pedi perdão, toda vez que a nostalgia me visitou. Teve momentos sublimes o encontro. As coisas são o que as coisas são, tomes tal mantra para si, leitor. Houve momentos de dizer adeus e a musica vinha, apelo mudo, casa de fluidos, incompreensão que torna em compaixão. A Misericórdia podia ser tangida ao lute.
Podem ser delírios de Maja ou meus, já nem sei. O vento afastou qualquer notícia de chuva. Soube que posso voltar à casa quando eu quiser. Envolto por laser, posso ser veiculo, por minhas mãos, da concórdia. Neste momento, Maja foi despertado do devaneio, para sorver o recheio daquele vestido.
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