Contario de inverno 18
como um objeto não identificado
O frei se levantou em meio à madrugada escura, um raio e outro a cortar o céu, sem trovoada. Bar’do o espiou pela fresta da porta, a passar voejador. Ainda no cumprimento da tarefa de segurar a folha sobre a escrivaninha, o trasno estava também a velar por Pan Wos, que acusou um pouco de febre, dormia agitado, não queria deixa-lo só. Já vira muito com o frei Ain, preferia a serenidade do moço polonês.
Valessa, recém chegado, lhe fez um sinal com a mão, que fosse atrás do velho, ele assumiria dali. Bar’do, estarrecido com a presença – tanto que queria saber d’ele -, desceu da escrivaninha; sem jeito, teve a intenção de beijar os pés daquele homem. Foi acolhido por braços como se fora algodão, apoiado no joelho, que logo virou num cavalinho. Um afago em seu chapeuzinho fez Bar’ estremecer de um sentimento diferente, bom. Derretido em suas pequeninices, o ser das fadas voejou, escotilha afora, tomado de não sei que elixir.
Querido leitor: em tempos de polarização, tenho todo o cuidado nas apresentações do elenco. Valessa veio para mim como brisa invernal, entrou sutil pela janela, mal ergueu o cortinado; sem som, dono de todos os honoríficos que o puseram Nobel da Paz, vestido com terno escuro, camisa branca e uma gravata curiosa, preta, cheia de pequenos livros brancos, bordada à mão. Calvície contida, fios muito alvos no cocuruto. Um sorriso tão terno que moveria as raízes de um iceberg. Não me apareceu em desdobramento, sossegues; foi aqui, na bancada de trabalho, às nove e dezesseis. O nome. Surpreendeu-me em foto antiga, quando o fui buscar, ainda a ponderar se o revelaria nesta sessão. Uma doçura que dispensa explicações. Por enquanto está sozinho, convidei-o a sentar ao pé do catre de Maja. Deu-me um nó agradável no peito a sua presença, pois dele eu também muito pouco sei.
Sim, podes fazer a associação que achares mais adequada aos teus ideias, leitor. A vida segue para Valessa. O arqueiro poderia estar, neste momento, em um mundo feliz; no entanto, teve permissão para ficar às voltas do orbe, aplicar o sentido de solidariedade que nutria quando no banco de chefe de nação, em beneficio da raça humana, da Natureza. Escolheu marcar por ala, foi o que me disse, pequenos feitos aqui e ali. Mão amiga, sem pretensões, uma historia do outro lado da ponte que eu não carrego mérito, ainda, para narrar. Olhava agora, em especial, pelos patrícios espalhados por todos os continentes, estudava as condições de cada um, seus valores, crenças, aconselhava. O intuito era amenizar a agressividade, instruir sobre a potência da dor, que pode ser sanada com afeto em estado bruto. Alertou-me sobre pensamentos pueris, românticos, para que não enfraqueçam o verdadeiro sentido de viver; sobre o teor das historias, sobre a força dos escritores, sobre o trabalho firme que tenho pela frente.
Valessa vinha visitar Maja sempre que as circunstâncias permitiam. Os operadores de voo, pilotos, oficiais mercantes vez ou outra flagravam um veiculo pelos radares e mesmo a olho nu. Não havia divulgação do evento, código de ética para o equilíbrio da Terra. A aeronave parecia um prato laranja gelatinoso, emborcado sobre outro, violáceo, luzes argênteas às bordas. De grandes proporções, levava dentro um consulado inteiro. Mais uma vez leitor, conto com sua discrição, para não passarmos, os dois, por diletantes irrefletidos das coisas do céu. Teremos, como testemunha do feito, o doutor Himari, que meditava naquele instante, a dois palmos do chão, sobre a marina.
Quando encontrou Maja ainda pequenino, a brincar com um barco de madeira pintado de azul em meio à neve, diante de uma casa amarela no meio do nada, Valessa soube que se tratava de um desses seres portadores do ágape; que, em futuro próximo, poderiam trabalhar em uníssono. Por isso, aproximou mais outro menino do jogo, que lhe roubou o ensimesmamento quando atirou uma bola de gelo. Dali, daquele encontro lúdico, firmou-se uma amizade que atravessaria os mares.
Na madrugada que não choveria sobre o Ligaya1, Valessa tomou as mãos do chlopiec, escutou seu coração. A página frágil sobre a escrivaninha, esboçada pelo protegido, queria contar do pai Troska, do por que perder a vida por romance. O choro era quieto no rapaz que dormia, escorria-lhe pelas faces avermelhadas. Valessa, que tinha metas mais profundas a nutrir, entendeu. A mocidade, a companhia da família, de uma dama. Era uma espécie de fundamento das escolhas humanas. Se o rapaz precisava de tal fundamento, teria a ajuda do arqueiro, que honrou a vida de tantos com paz. A orientação daquele momento, o sol já a irradiar os primeiros beijos para a lua, deitada no outro extremo, foi a de que poderia ser assim mesmo, uma escrita simples, dissociada da literatura oficial, ao mesmo tempo que elegante e sóbria, com pequenas licenças para comentários jocosos, que não ferissem qualquer ser, como Troska fazia, ao narrar os contos de Shakespeare. Por ser diário o projeto em gestação, tratava-se de documento pessoal, cuja exposição carecia limites.
Valessa contou ao chlopiec que tinha um amigo investigador. Para este sujeito todos eram suspeitos, carregados de energia elétrica, magnética e outras menos conhecidas. Que uns levavam consigo o poder do laser na imposição das mãos e não deveriam saber disso. Em um mínimo de palavras, lecionou que Maja desse ao tempo as ferramentas de que dispunha, que permitisse ao elenco que se apresentava assentamento, uma pátria, uma bandeira, um poço, um coração intercambiável, com embaixadas irmãs onde pudessem se abrigar. Despediu-se então do protegido, voltaria mais tarde. Agora, Aninka faria as vezes de cuidadora, como o fizera em Zakopane. Ela traria noticias de Malgorzata.
A nave já emitia sinais sobre o Ligaya1, os radares da torre de comando não deixavam duvidas, o Capitão Antônio de Almeida pode ler. Foi isso, puro deslumbramento, que fez Bar’ ir parar no colo de Ain. O frei retirou o barrete de sua cabecinha, afagou com carinho, satisfeito com o rumo que a vida ia tomando. Tudo parecia febre de poetas sem corpo, alma aberta em outra dimensão, nada de patrulheiros, olheiros, mateiros, ou amigos da letra.
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