Contario de inverno 15

 







La Barceloneta baila

 

Ele se mantinha muito polonês no intimo, mas semeou-se das aves praianas e afinou, feito bailaor. Atingiu seu metro e oitenta e cinco centímetros aos treze anos. Congregou o clima provocador da nova vida. Uma terceira infância merecidamente criativa, para sancionar a lenda da Barca Nona. Seria Teseu, não fosse adepto de Aquiles. Dos argonautas, ele torcia por Atalanta. Tudo para o rapazito ganhou mais sol, mais luz e o mar verde, próximo ao Porto Vell, era inspirador e lhe deu à mocidade ser homem do mar. 

 

A cada dia, mais lhe chamavam os navios. Um deles, com uma tarja azul e branca, oriundo da Grécia, sem nome, o atraia sobremaneira. Aquele idioma percussivo embalava seus ouvidos. Chorou quando ouviu um coro de marujos meio alcoolizados a girar em roda e cantar Strosse to stroma sou[1] ; também os narizes dos personagens que iam e vinham com mantimentos o nutriam, imóvel, a prender a respiração. O que dizer dos jogos de dados, dos versos improvisados que os marujos davam a brincar em breve folga. Maja procurava, entre eles, Vassilissa Olga.  Os uniformes dos oficiais. As tratativas entre eles. Os marinheiros galhofas, a mexer com damas e cavalheiros de fino e não fino trato, as gargalhadas e exibições até constrangedoras, mas deliciosas. 

 

Se a mãe vermelha não viesse buscar o filho, carinhosa, ele ficava o  dia todo a correr pelo cais com suas calças de suspensório até os joelhos, a ver se descobria mais detalhes sobre a origens das coisas, dos lugares, das gentes. As calças desceram até os tornozelos, o jovem já caminhava tranquilo, para dar adeus com vagar. Já a mãe vermelha não vinha. Já o filme super oito dava lugar ao cinemascope. 

 

Foi ali, entre naus e quinquilharias, que Maja Wos aprendeu o espanhol coloquial e o respeito aos ciganos, às gentes do mundo inteiro. A gramatica e a semântica vieram pouco depois, com aquele professor serelepe que o encantou. Veio também o inglês, o francês, o alemão e o italiano. Embora o menino gostasse mais da liberdade a beira mar, estudar ganhou novo significado em seu cotidiano, definiu seu proposito. Maja descobriu logo que o mundo se abria em varias dimensões, ao menos cinco, e que amar pessoas se o podia fazer em carne e osso e em palavras de saber. Se não fosse marinheiro, talvez a poesia épica o chamasse.

 

A mãe azul povoava os sonhos do menino Maja. Era beneficiada, ela também, por aquela mudança de ares que os pais estrangeiros proporcionaram. Ao invés de se apegar às costas do filho como desejava, fluía, do lado direito, as mãos de fumaça atrás do próprio dorso, para evitar caricias, causadoras de arrepios inéditos, indevidos. Depois da jornada terrestre, para a mãe azul, escoltar a criança foi o dom mais sagrado que recebeu. Um almirante de fragata também os seguia, esfumaçado, translucido. A mãe azul, morna, calmaria, não podia ver aquele ser, o triunvirato nuclear. As vezes, ela se distraia e ficava a olhar as barquetas de pesca, também o dorso nu dos marinheiros. Ainda não percebera as belezas próprias do plano em que se encontrava. Mal tinha noção do que era estar morta. Pelo filho, ficaria sempre ali, à direita, um pouco atrás. Não era encosto, tampouco deixaria o rapaz a descoberto quanto a intuições. 

 

Havia um momento, a cada manhã, em que  Frei Antônio Inácio de Narval, mais conhecido como Frei Ain, convidava seus alunos a formarem uma roda sob uma alsina, no pátio do colégio, para contarem historias uns aos outros. Não havia regras, apenas o limite de um minuto para iniciar e passar adiante. Em algumas situações, o religioso dava o mote ou mudava o curso da narrativa, a fim de reforçar algum ensinamento que deixara no ar de outra feita. 

 

Era dia de Orfeu. A citara soava triste. Eurídice havia partido. E quem havia chegado? Uma garrafa de rum, destampada, jazia sobre a caixa, onde os marinheiros antes baralhavam versos de improviso.  

 

La madre roja vai o buscar ao cais

O nascente tinge de laranja a espuma

os varais de peixe rezingam

Alamanda e clusia bailam sem som

 

Não há rimas no passo que passa

Nem bodegas abertas a meio pau

O riso, se o escuta atrás dos becos

O poeta escolhe o mote, afinal

 

Fibra, ética, zelo de faroleiro

é hora de acender o lume primeiro

se faz quente a manhã de pouco vento

ilustre imagem esfumada, teu rosto frio

 

La madre azul, flor azul

caminha ao largo de cabeça baixa

esfrega os mamilos na areia

pequena, desfilada, barca de Estambul

 

a brisa de sal beija aqueles lábios

un café con leche y una tostada

tan alta reluce la situación

la dignidad del dia que desnuda

 

as flores praianas abertas

tem pouca valia na paisagem

lista, la soledad que lhe dormiu

três palmos le creció el bigote 

 

dizer coisas sem dizer

dormir sem dormir, acordar já não pode

a Esperança a chamar, o tridente de Ptolomeu

ah, poesia, eu te deixo a acenar no cais

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Composição de Mikis Theodorakis

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