Contario de inverno 14

Entre curar e sarar
Olhar a psicose instalada, floribunda, emboletada na janela do quinto vagão do trem em movimento, deu a Narval a dimensão do que ele causava a si e ao entorno. Difícil experiência: enlouquecer e estar ciente do fenômeno. É preciso ser forte. O homem deixou o trem demorar-se, empastelou-se da visão. A culpa demoníaca há muito ia com ele, já se acostumara ao medo, virara uma espécie de sem-vergonhice.
Tudo com que nos adaptamos passa a fazer parte do corpo, da luz e do sopro. Se nos embelezamos ou enfeamos, não importa. Os humanos, quão poucos os que compreendem e verdadeiramente estendem a mão compassiva a um irmão de estação. Entre curar e sarar, o frei, aparentemente, preferia perder-se. Assim é este mundo, mar de lágrimas. Que ficasse, trem desmiolado, sem fumaça, diante das pupilas dilatadas, o quanto quisesse, havia tempo. O religioso tinha as roupas molhadas, tinha-lhe escapado urina, estava lastimável. Que o louco ficasse, passion o desaseo, el tiempo que durasse aquele estado geral, de temeridade. Yo me soy la morenita. Balbucios sem sentido carimbavam o status.
Antônio Inácio não queria saber onde estava, que horas eram, que rumor aquele, que azul, que vento, que dor, que aroma. Se morresse naquele momento, não saberia, não ligaria. Fato é que conseguiu correr muito, e não havia meios, agora, de o soltar dali onde se imiscuiu, às pernas de Esmeralda, sob o tecido vermelho sangue da saia. Um aglomerado de turistas só piorava a situação, o ar se tornou quase irrespirável. Até o mar ficou quieto, à espera de escândalo. E então Antônio Inácio destrambelhou a cantar, esganiçado tanto que chorei no domingo a tarde, aqui está meu lenço que diga a verdade. Da via publica alguns riam, outros se abanavam, outros faziam o sinal da cruz, outros reprochavam, outros ainda achavam que era algum mambembe novo, representado entre os passantes, para os distrair. Alguém perguntou onde estava o regional com a música.
Todos os livros tinham sido guardados nas malas, a mesa fora dobrada. Em poucos minutos, Paco encostaria a carroça para levar a irmã de ideal ao bairro onde acamparam. Pois foi nesse lapso que o senhor macilento mergulhou, feito morsa descomunal. As mãos ásperas tatearam todo perímetro antes de abraçar. Tudo começou pelas panturrilhas e subiu, até encontrar o espartilho, onde Antônio apoiou a cara e sossegou. Uma força de mil braços fez as pernas da cigana perderem logo a sensibilidade. Jogar agua, primeira providência, não pareceu racional. A mulher aviltada, encharcada, ameaçava desfalecer.
Antes de se dirigir para a banca, o frei tresloucado subiu e desceu a rampa do Ligaya 1 pelos menos cem vezes. Dez marinheiros tentaram demove-lo e foram atirados ao mar. Agora, aquele espetáculo de destempero. Não havia dúvida, a cena era autêntica.
Um alaúde soprano, amparado pelos botões da farda, o som da voz o precedia. Melismática, suave, quase feminil, um belíssimo contratenor. Maja entoava um romancero sepharadi, tranquilo, seguro do poder que o envolvia. Já havia presenciado, em sala de aula, surto parecido, também naquele tempo o trem assombroso a levar um pedaço da alma de seu querido mestre. Naquele tempo, ele menino de todo, não contava mais de nove anos, viu Narval agarrado às pernas da escrivaninha. Depois de muito pelearem para sossegar àquele pobre diabo, veio o garoto com o alaúde. Tocava com certa fragilidade à época. Sua voz, contudo, sempre fora luzeiro adocicado de caramelo, analgesia de primeiro escalão. Das pernas de Esmeralda o mestre demorou um pouco mais a soltar, cheiravam a alecrim, era inebriante. Quanta saudade. Pelo menos o frei afrouxou o apego, o que permitiu a Esmeralda equilibrar e recompor-se. Su boquita deseada, com aliento perfumado...
Maja Wos seguiu a tocar, agora a voz era murmúrio. Ao se aproximar de Antônio, também o oficial sentiu-se embriagado pelo perfume e, por segundos, quase perdeu a consciência. Tal seria, pensou ao tomar tenência, endoidar eu também, pela força do olfato. Abaixou-se, tocou o ombro do mestre, que respondeu a soluçar, cheio de arrependimentos. Do que, ia demorar a dizer.
Tem uns comportamentos perpetuados, difíceis de mudar, ia dizendo o mestre ao aluno, enquanto ficava para trás uma Esmeralda perplexa, com quantia em dinheiro entre as mãos para vinte livros, pelos prejuízos. Antônio Inácio seguiu a tagarelar que instalou-se, em um canto da pátria, colônia de humanos do plioceno. Isso é 1800ebolinha. Expulsos os que lavravam aquela terra, em diáspora rumo norte. As leis taparam buracos aqui e ali, terra das oportunidades. A erosão só fez aumentar, contudo, os mais velhos se agarraram a antigos padrões. Hoje não há mais tradição. Tampouco o idioma, costumes se fortaleceram, a fé murchou, nada que una tal comunidade. Nem profetas, pendurados em cruzes fininhas, esquecidos nas cozinhas. Se pudessem, homens e mulheres atirariam uns nos outros. O oficial procurou afastar aquela nuvem de gafanhotos da mente do professor. Voltou a cantar e já estavam no convés, o navio respirava melhor. Dez marinheiros bateram continência. O Capitão Antônio de Almeida, que tomava a fresca, sabemos dele enlutado, dobrou a voz, ele também necessitado de nova brisa.
Adeus, adeus, minha terra, vou partir
Mal de ti, jamais direi a ninguém
Dá ao mundo muita volta, quero ir
Não sei se cá voltarei, nota bem
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