Contario de inverno 13
Quando pensei que emprestava minhas mãos para que eles escrevessem
E então, ironia é para quem a sabe sustentar, é machadiana. Há algum resquício de ética para um bardo. Dou-me conta de que falo sem ter posto, uma única vez, um autógrafo. Os livros de Esmeralda, todos tingidos, prefaciados com amor Jacinto, com amor Eunice, com amor Calêndula. Com amor Inácio de Narval, ninguém. Não, não há do que sentir pena. Fiquei eu, pendente no escapamento do jipe, que o trasno voejou com as andorinhas de asa negra. O que diremos de gentileza, de agradecimento? Diremos que o céu somos todos e as nuvens, bem, as nuvens são os outros. Inventos. Ventos adversos, sopram outras vozes. Beleza columbária. Cais, faróis, lençóis a mourejar nos varais. Calais. Rimas de quem verte quadras aos arames. O poeta descansa sob o visgo.
Ah, quanto tempo mais? Sem Évora, sem Faro? Sem teus dentes? O que faço eu a mendigar nos Brasis?
O que eles querem de nós? O que queremos d’eles? O que fizemos de tão insano? Melhor nem perguntar, pátria nosocômio. Vai passar. Os fogos de artificio, os balões, os abalones, os feijões que compõem a sopa, ossos quebrados, fogo tingido de surdos. As estrelas. Se houvera provençais, Elba, canaviais a arruinar-se, ah, vaidade das vaidades, tudo é perda, tudo é encontro. Tudo é som. Alexandre de Olinda.
Bem-te-vis altaneiros nas eiras, nas beiras, como gritam. É Carcavelos, é manso, ausência. Os dias de olhar ilustrações esmaecidas, de enregelar do simplesmente assovio, é o vento, é unguento, tudo aguento e espero. Quer mais?
Depois a caneta desata, desfila os palavriais. Sem alvo, na sombra, consolo ou alivio. Sem esposo, sem filhos. Sem amor. E mais, agulha fio, laser, padrão. Pele arrasta, ferida, desfila a lei que corrompeu. Um igual, peito abcesso, coisa intransigente. E nem é isso, é dor prêmio, pedra de tropeço, faz aquietar.
Bom dia tarde, hora boa desta fieira nublada, é julho de Extremoz. Estamos todos bem. Protetores, Mentores, Aurores, a paz do céu em nós. Eu tinha que contar da viagem do Recife a Salvador. A índia fizera um filho comigo. Depois virou-me as costas, voltou à aldeia. Estranho, posto que os olhos da cria serão azuis, cabelo louro, encaracolado. Eu o vi em um sonho, a correr com as galinhas do quintal. Há de vingar, será poeta basco. Lá, no fundo da sua juta, terá um caderno com meu nome. A Alcayaga por luz.
O griteiro do Frei, ao invés de atrair fiéis, fez a marujada dar conta dos fazeres de navio. Como amavam aquele Ligaya 1, que mais parecia a Marabô estendida sobre o arrecife, a pegar cor. A franja vermelha, a sorrir no casco, traia sua condição de Bomí-micê. Palavra dura, que atraiçoar não calha neste rincão.
Bátega, ligeira, assoviante, fez Esmeralda salvar suas paginas como foi possível. Nada se perdeu, tudo criou faróis. Era momento sem entender, sem sofrer, sem companhia. Por um instante, Becker voltou, se deu conta de que o mar é de Ptolomeu e voltou a vigiar a dama de Scherazade, que poderia tirar-se a vida por nada.
Queridos das leituras, nada os assuste, nada os aparte deste convívio. Ler é romper com os desterros, sigam comigo, por todos os marinheiros escreventes que afundaram com seus livros. Tolo que sou, estendo-lhes as mãos, tremores sem fome, que o dziecko Maja já me deu a tapioca.
Quem me agasalha o coração de encanto
alma gentil dos riachos de esperança
O ser de luz que nutre a ceiva, enxuga o pranto
E me permite caminhar na prancha
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