Contario de inverno 12





seguimos em terra

 

 

Sentado sobre a capota de um jipe abandonado, nosso Bar’do voejava pela Sueste, Mar de fora. Teimava em procurar pela sacola de juta, uma rosa, bons dias. O frei, seu tutelado, tinha Pan Wos para os socorros do corpo; bastava, por ora. Lá estava ele, qual bátega, a acenar para ninguém do convés. Pequenino como era, confundido com as andorinhas, o trasno pesava ações tangíveis de sua função, que obrigação tinha ele de ficar atado pelo pulso a um esfarrapilho mulambento. A falação em sua cabeça era uma reunião de velhas, cujo azedume não valia a pena por em prosa. 

 

Crianças, as que viam além,  detinham aquele chapeuzinho e sobrepeliz em alguns momentos, para perguntar se lhes arrumaria uma moeda, um consolo para o estômago ou qualquer ato mágico de mover quinquilharias. O bom de se distrair com meninices era não pedirem além das medidas. Bar’do não sabia lidar com gente crescida, limitava-se a apontar, com a mão direita, algum auxiliar de perímetro, eles sempre disponíveis em todo lugar.

 

Quando deu com o saiote vermelho sangue atrás da bancada de livros, o mesmerinho achou que sonhava. Aquela mulher bonita andava na companhia de três ou quatro emissários nobres, de diferentes paisagens, certamente que ela não sabia da presença deles. Um dos poetas era nepalês, caramelo tostado, grandes e luminosos olhos, sorriso de orelha a orelha, cabelo noite sem estrelas. Usava sari laranja e um percing no nariz, Sabitri se chamava. Sua comunicação se dava sem palavras, cantava ragas e sagas muito doces. Era o que fazia no momento. Sua mão pesava sobre o peito de uma freguesa melancólica, que folheava líricas de Geeta Tripathee

 

Um cruel tumulto, traduzido pelo vento, desejo de desistir da vida. Esmeralda captou o desvairo. As duas mulheres permaneciam quietas. Não se tratava de um coração totalmente despedaçado. Leve magoa, breve tedio, razão tola, assim é, na maioria das situações de abdicação. Orientar aquela raiva não seria fácil. Bar’do, de boca aberta, sentiu-se refém da cena. Quis, ele também, folhear um livro, ou espiar sob o vermelho sangue que enfunava com a brisa. 

 

Vinha da Rota da Seda o outro dos emissários, ainda mais exótico que Sabitri. Era Tae-oh. Acompanhara, enquanto habitante da Terra, mercadores de especiarias. Ele exalava olor pungente de alecrim. Fora designado para proteger Esmeralda quando ela contava um ano de idade. O ser girou, lento, em torno do próprio eixo, como se flanasse em energia escura. Entre os braços, trazia algo como um caldeirão, que emitia centelhas em tons de verde. Ele emprestava ao mar unguento para causas perdidas e o despejava entre os seios fartos de Esmeralda. No terceiro movimento, a moça  começou a cantar, de si para si, versos de Lorca[1]

 

El aire es inmortal. La piedra inerte
Ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

 

 

Todos, passantes desavisados, inebriados pelo cheiro, a um só tempo despertaram de estranha hipnose, ao escutarem aquela voz. O que incomodava se diluiu, o que era impudico, a terra absorveu. O que era licito, tornou a embalar-se com a maré. Angelina, esse era o nome da freguesa, pediu para levar Scherazade. Esmeralda sorriu, desejou-lhe suerte. Como marcador de livro, ia um lenço bordado com os versos da canção murmurada, espécie de gatilho, a dar coragem, bom animo. 

 



[1] Sonetos (1925-1939)




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