Contario de inverno 9













Escolhas

 

 

Um seu criado, Bar’do, deve lhe contar mais, perdão pelos atrapalhos da grafia e pela misturada de situações. O pequeno coração farfalha, ainda não dá conta das emoções humanas, do que elas realmente revelam nos fatos, nem prisma tem, para por destaque. Passo por tolo, então, basco solitário e desentendido. Tu podes fechar o portal agora, caro leitor, caso espere algum acontecimento notável ou esclarecimentos sobre o que já passou. 

 

Ah, que tarde bonita aquele dez de junho, qual ano, o jornaleiro a gritar manchete. Que aromas inebriantes os de Vila dos Remédios. Aqui, os protetores da minha ordem são aparentados a golfinhos e às temíveis caravelas azuis, não compreendem meu dialeto. Sinto tédio, o que me desqualifica ainda mais. Que falta me faz uma companhia de saias, das de bom humor, como se eu já tivesse conhecido alguma. 

 

Já escutaram cantigas de marinheiro? 

 

Vou-me embora, vou partir, mas tenho esperança

Vou correr o mundo inteiro, quero ir

Quero ver e conhecer, rosa branca

A vida do marinheiro sem dormir[1]

 

Eis que a tripulação do Ligaya 1 canta. Mais bonitas, somente as cantigas dos coretos do Salgueiro ou das feiras de Santana, as das caixeiras, das baianas de Marabô, cirandas de Lia. Uma mãe de santo acabou de doar-me a cocada mais doce do mundo. Deu-me também um alforje, para que eu guarde lembranças e um pouco de fé. Essas brasilidades me comovem, igual as cantigas que escuto agora. Como que por mágica, a mãe arrumou, junto da cocada, um rolinho de lenços, amarrados com fita azul céu e vermelho sangue. Pasme, são quadras do frei, bordadas nos paninhos, que a mãe foi colecionando, desde as calçadas da cidade baixa de Salvador, umas trinta, em muito bom estado. 

 

Ainda não me lembrei do nome daquele jumentinho, aquele com o Antonino, o da fita no pescoço. A mãe Dina se ofereceu para perguntar, mas precisa de dois dias para o fazer direito. Pena. Ela me pediu para segurar as fitas do rolinho de quadras alguma vez. Se for da vontade dos mentores, eu escutarei sua voz e terei noticias. Sinto uma falta do quadrúpede que dói, aquele sim entendia de folguedos, apesar de já estar estropiado. Tornei a pedir permissão para o visitar, um outro dia. Parece que tal autorização vai criar algum problema temporal, espacial, algo assim. Três gaivotas me garantiram que há paz entre os silvícolas, que as crianças são boas e alegres. Cumpro as ordens então, lápis e papiro na mão, agora tenho onde guardar meus pertences. Almejo abeirar-me, digno, dos Pirineus. Que o jumento siga, feliz.

 

Aquele som tão grave outra vez, o mugido do Ligaya 1. A contagem de pessoal foi concluída, todos a bordo, nem todos tem mentor. Melhor, alguns amigos seguem a embarcação de longe, afeiçoados do mar, das almas, do equilíbrio planetário. O cortejo não é pequeno, já vi alguns antes, até celebridades há entre eles. Também com eles é difícil manter prosa. Sorrio, respeito e me deixo acolher na equipe, quando nos é facultado descanso.

 

Próximo porto, Ilha da Madeira. O capitão Antônio de Almeida devolveu o quepe à cabeça, parece mais corado agora. Estão ali, apoiados ao gradil, o frei careca e seu pupilo. Acyr ao lado deles, a dizer anedotas de pouco vigor, não me apetece repetir. Ele tem nos braços e afaga um ser peludo, muito preto. O capitão torceu o nariz quando deu com o animal, mas não se opôs em que viajasse com eles. 

 

Nos tempos de colégio, em Barcelona, ficava eu no pátio, a brincar com os pombos e outros companheiros de indumentária, sei que nem era tão menino para traquinadas. Havia certa liberdade naquele período, digo sobre essas necessidades de pajear o frei. Contava que ele, como professor, tinha bom juízo. Eu viajava sozinho amiúde, de trem. Ia visitar o mar de Vigo, lugar onde desiludi-me de um amor platônico. Como não fui flor que se cheire, não guardo mágoa. Se os leitores me perguntarem quando fui convocado a ser guardião do frei, direi que perdi de vista as reminiscências. Como é que um homem das letras tem por conselheiro um trasno? Combina com a alma dele, é o que posso adiantar.  Passamos juntos pelas invasões francas, por visitas mouriscas, uma confusão de lâminas,  elmos e artefatos de igreja, pergaminho em branco entre eles. Grasparossa, outros produtos de vinícola, oliva, damasco cristalizado, ervas finas, jade, marfim. Caravanas vindas da Caxemira permitiam escambo de vária natureza. Em uma delas fui chamado e me vi, bolha de ar, dentro de uma caixa com destino a Espanha. 

 

Fui para a Gamla Stan enquanto Antônio Inácio de Narval construía a educação do menino Maja Wos. Visitei parentes que não via há muito.  Aqueles dias eram da jurisdição de três escritores com patente, lugar em prateleiras de bibliotecas distintas, que tutoravam o frei e lhe davam instruções. Não é que o homem tenha regredido de lá para cá. Certas ações nos afastam dos protegidos, não temos como os auxiliar,  é o livre-arbítrio. Também não digo que figuro como saldo de liquidação, ou como o último biscoito da sacola de juta. 

 

As anotações que fiz podem não ter pé ou cabeça. Deixarei assim, enquanto não tiver algo mais profundo a dizer. Quase noite, quase quente demais, sem brisa.  Seu Tonico, o jegue, eis o nome daquele danado.

 

 

 

 



[1] Nuno Pereira

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