Contario de inverno 8
Frutas cristalizadas. Barcelona, Espanha
Catabiuna, o navio desgovernado
Difícil afirmar todas as vidas são válidas. Vidas pálidas, quem olha de longe faz muxoxo, vidas mesmo inúteis. Mais, difícil informar que, ao redor do orbe, cinco vezes a população da Terra espera, arrasta, desespera, empurra, aglomera, para formar um corpo bom, um nome, um código de identificação, uma linha da mão longa, ininterrupta. O que moverá tal contingente? Maternidade, um barco de madeira pintado de azul. Que feitos extraordinários, para domar grupos, criar belezas de papel, idiomas novos, novos passos de dança, posições de dormir, formas canoras bizarras, estridentes, novas traquitanas que cozinham retinas?
Narval nunca perdera a verve dos sermões de domingo. O mais estranho, nunca proferira um sequer. Mesmo assim, sem leitura, sem tomar notas, a cada dia cismava nova prédica, a ser salmodiada diante de poucos fiéis cegos, na capelinha de pedra, a qual sonhava erigir com os próprios recursos. As cartas do apóstolo eram seu refúgio predileto. Mesmo sem alcançar o teor profundo dos versículos, Narval recitava par coeur um a um, sempre que a lucidez o visitava. Sonhava dialogar com voz direta, iluminado como santo.
Temos uma pista, então, da decisão de partir em missão brasileira. Endoidou, delirante com as historias de Manoel da Nobrega[1], pensou na igrejinha, tomou uma embarcação, ingressou no seminário recifense. Amigos leitores, paciência, tal narrativa pode ter longas pernas e não sei se me encontro, aqui, entre garimpeiros. O Frei, de algibeira vazia, de panelinha de esmolas, foi à terra prometida, meio da mata brasileira, atrás do ouro para as pedras, para o telheiro, eira e beira. Que força franciscana o moveu, um dia virá a explicação. Por poucos meses, aquele não ungido carregou consigo uma fortuna em diamantes. Até o encontro estriduloso, do qual se lembrava como uma grande profanação, do qual desejava livrar-se em forma de conto sombrio. Até que ensaiou, vale minerar.
Todo esse pensamento impreciso era anotado com frenesi por Bar’do, que o sopraria de volta ao protegido mais uma vez e outra e outra; a chama do progresso não se apagaria da memória daquele pobre diabo, feita de desejos presunçosos e culpa peçonhenta.
A distração ia custando caro ao Frei Narval naquela tarde de Vila dos Remédios. Se o oficial Wos se atrasasse um segundo mais, o homem macilento subiria a rampa do Catabiuna, navio de silagem que distribuía soja para barcos menores, dentro dos limites da costa, com certificado do Ministério. O frei maltrapilho já ia sendo escorraçado pelo imediato, ameaçado de ser jogado ao mar, quando foi resgatado. O anjo, que mais uma vez salvou-lhe as pelancas, merecia promoção. O imediato, surpreso por ver um oficial elegante, educado, com sotaque, a intervir por um mendigo, pensou tratar-se da mão do céu. Bar’do, a rolar de rir no sobe e desce da rampa, tanta mesquinharia, fuxicou no ouvido daquele novato que ele tinha muito mar para ver.
Apaziguada a fome, acalmado o episodio da rampa voltaram, discípulo e professor, bem quietos, para bordo do Ligaya. No caminho, toparam com o Capitão Almeida que ia, cabisbaixo, quepe nas mãos. Muito detalhe para enredar, somente amor de mãe poderia dar rumo a essas histórias sem laço. Como irei explicar isso, leitores, na falta de mãe? Darei um jeito, sempre há ventos alísios, o inverno se aproximava no hemisfério sul.
Sigo desta forma: ontem registramos sessão matrimônio. Uma noiva encantada, grávida, grande, mal vestida, sem adorno algum, a não ser a cauda do véu, um bordado a mão de Nossa Senhora do Pilar. Como teria sido bom ver, de fato, a manufatura, e não por ouvir dizer. Quase desleixada a dama, porem contente. Um ventre robusto, seis meses, a precedia sobre o pedrelho da Sant Pere de les Puelles. Um diamante em vaso sagrado. Parentela reunida, pareciam acalmados. O pai, que sentou praça nas tropas francas, estava presente em espirito, para conter as cobiças, invejas e dar passagem ao poeta, que retornava ao chão barcelonês. Alguém posou, na foto, de matrona. Cabia-lhe o mérito, o bordado da santa era de sua autoria. Não sei que poder aquelas mãos tinham.
Sessão depreciativa não pode faltar nesses encontros, mesmo os mais amoráveis. Os buchichos circulavam em torno de um varão, cinquenta anos no papel de provedor de família. Acabara de vir a tona uma paixão, por jovem seminarista de beleza feminil. A pergunta que escorria pela fenda das bocas seria a primeira vez? A esposa sabia? Um homem desses tinha brios, coração? O que importa saber quem habita uma alcova? Cada um e a sua responsabilidade. As cobranças humanas, elas são coisas do reino de Hades.
Ah, aquela hora trágica de ‘esfregar a cozinha’. É, em definitivo, a hora de ingerir o veneno. Ah, a vassoura verde, de cerdas duras, cantou pelas lajotas, desde o portão à caixa de gordura, bom trabalho. Espelhos, vidros, todos espanados com o pano mágico, que tomou chuva no varal a noite inteira. Estão, lá também, a mortalha azul e um pano de enxugar pratos.
Passou-me agora, leitor, fazer uma prece bem feita em tal cozinha, enquanto eu estiver a almoçar. Ali é o coração da casa, deveria inspirar somente pensamentos auspiciosos. As escatologias em hora de refeição, o egoísmo e o orgulho envolvidos nas proferições viciosas, automáticas, repetitivas, doença mesmo. Não sei se investigo a moléstia, ou se me locupleto. Eu fomento a prosa, acredite. Talvez eu queira dividir a dor contigo, leitor, entender o processo, por que caímos tanto, insistimos no lodaçal. Talvez, se eu pedir para ficarmos em silêncio. Em um primeiro momento, a companhia importa. Saber que escrevo e alguém lê. Até falei disso, que me alimentei com mais prazer, por ter companhia naquela celebração. Fomentei, por diversão, parece, escárnio profundo, fomentei. Talvez eu esteja atrás de uma novela rodriguiana[2], uma poesia milloriana[3]. Todo o meu respeito a esses brasileiros corajosos, plantadores de rosas em tempos de apuro.
Maledicência é vicissitude contagiosa, em segundos envolve o ambiente e quem estiver presente. Tento transformar o bolo estomacal em ironia, figura de linguagem que sustente os fatos não revelados. Que pensamentos comuns, de fato, poderíamos trocar, leitor? É apenas uma boda, de vinho doce e amaro. O que representamos, de fato, um para o outro, leitor? Sou eu, a tentar fazer de um encontro um acontecimento. Será que, lá no fundo, nada teríamos para ensinar, dividir? A mesquinharia é assim tão explícita? Será que a cupidez, invídia, tem tanto poder? Nem sei, leitor, se o quadro é profundo o suficiente, para prender-te por mais tempo. Acompanhar a volta de um poeta ao orbe oferece alento. Isso, a dama mal vestida traz em sua caravela o poeta Melro[4].
Sou aspirante a romancista, escrevedor de caserna. Tentarei ser mais jovial, menos zombeteiro. Mais polvoron, frutas da Boqueria, mel. Pé-de-moça, outra historia. Escrever é perigoso, disse alguém. Não se trata de caso perdido, mas de difícil solução. É um chafurdar de milênios. Caso tu me queiras arguir, leitor, te digo honestamente. A solidão é irmã.
Convivi, por muito tempo, com gente que dizia não se pode confiar em alguém com lábios finos. Olho aqueles lábios de matrona, pintados de vermelho vivo borrado e me arrepio. É preciso elaborar uma prece de rosas, de espinhos que não machuquem a flor[5]. Ao mesmo tempo, pasme, leitor, há algo aproveitável naquele ser, algo aproveitável em alguém que, todas as quartas-feiras, faz novena para si na Santa Ágata. Pede que não lhe falhem os joelhos.
Polan-Brazil, o que temos neste encontro? Avó, o que temos neste encontro? Encontro de comer quesadilla. Depois de cinquenta anos casado... assim começa o relato. Doçura no olhar da gestante que tira fotos aqui e ali. Dureza nos lábios da senhora, que rumina lá e acolá. Tudo historia, tudo possibilidade. A celebração se concluiu no portão. A avenida soprava um vento a la Barceloneta, cheiro de mar, tormenta e fungo. Dentro do salão, se ouvia Poeta en el mar.[6]
Tudo isso ocupou o tempo do trasno. Assim que viu uma coberta de bordo amarrota perto do observatório, novamente a bordo do Ligaya, acomodou-se e dormiu.
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