Contario de inverno 7
Parque Nacional de Fernando de Noronha, Brasil
a brisa beija e balança
Como não colocar os pés no arquipélago, como não comer tapioca no Boldró. A tripulação foi autorizada pelo Capitão Almeida a marear durante quatro horas, o suficiente para olhar o povo, o cais, a Vila dos Remédios. Cada marujo seguiu trilha diferente, aflito por um pouco de privacidade, por dar vazão a um vicio ou virtude. Aquele que afundaria com seu navio tratou de se haver com o escritório da Guarda Costeira, muitos viveres dormiam nos porões do Ligaya, era preciso contabilizar, verificar. Para Almeida, menos horas de deleite.
Deixamos Maja e Narval confinados no dormitório da embarcação tão distinta, é preciso fazer algo por eles.
Com algum custo, o Frei venceu os oito degraus que levavam ao convés, amparado pelo oficial. Nada disseram, para poupar forças. A tarde, de nobreza que só percebe quem vê a vida nas entrelinhas, convidava a caminhada branda. Ainda era Fernando de Noronha. Quando deram por si, professor e aluno pisavam a areia. Narval avisou que tinha fome. A tapiocaria estava perto. No passo em que iam, levariam uma hora para chegar; meia para comer e outra para voltar, passeio um tanto estéril. Combinaram de Narval olhar o porto daqui e dali, enquanto o rapaz providenciava o almoço.
Sozinho, as mãos às costas, para o Frei aquele lugar era um cadinho de brasis. As lembranças, edemaciadas, iam e vinham sem ferir, sem interessar. Caminhava três passos, parava, ajeitava a gola, seguia. Andava quatro passos, batia os pedrelhos das sandálias, sorria. Foi dessa maneira, ganhou cem metros, um olho sempre amarrado ao navio. Na mente, rostos que não se revelavam, de mulheres. Uma menina, a brincar em frente a um rio. Um urutau. Uma sacola de juta, um peso tênue. Os brilhantes. Um homem enorme, a ferir suas entranhas. Trilhas a afundar na mata, vagalumes, outros insetos, perigos. Um rio amarelo e negro. O coração, vazio. Aquela estranha figura, quarenta centímetros, sapatos bicudos, muito sujos. Quando se ria, os dentes daquele ser não estavam lá. Quando falava, se ria. Um burrico apareceu, o coração cedeu. Era ali perto, era Maranhão. Teve vontade de rever não sei que. Entretido com tais assombrações, Narval não percebeu. Uma presença diáfana, de manto azul ia ao seu lado, sem tocar o chão, um pequeno livro aberto, de onde murmurava versos a esmo.
um gosto morno, maresia
a moça deusa e seu espelho
girandeiam
levanta-se a brisa, que beija e balança
alinha-se a saia tarrafal
todo o mar, Ptolomeu
canta a luz
esconderijos da narval
todo engravatado verso
envia missiva a Genoveva
nuvem prato, um grito de ar
a dama abre o envelope
cora, dá dois passos
chama logo Anacleta de Lourenço Avesmar
governanta ou catadora de maçãs
para a abanar
haveria ideias melhores
melhores dias
ornatos das marés
para dourar uma cantiga
As embalagens de alimento, bem afiveladas em sacola de peixe. Maja sorria, caminhava a passo firme, de novo ao cais. Dava com o quepe a quem lhe saudasse, passava uma imagem de gentleman, respeitável, respeitoso em seu uniforme de oficial. As mulheres e os homens suspiravam diante daquele homem estrangeiro, palco de ilusões, talvez luxuriantes. O rapaz não se abalou, olhou tudo e escolheu isso e aquilo para refletir mais tarde, recolhido ao dormitório, diante de seus diários de bordo. Também ele sentia fome e sede. Uma mulher, que passou e não olhou, provocou-lhe arrepio. Tão parecida com a mãe vermelha, ardendo. Maja afugentou logo tal memoria, sentiu que não era momento para recordar os tempos de Barcelona. Uma banca de quinquilharias. Diante dos olhos, simples, bem talhado, um pequeno navio pintado de azul. Ali sim Maja estacou, apoiou-se na borda do quiosque, esperou autorização dos pulmões para inspirar. Quando, finalmente, expirou, um pouco de sangue escapou-lhe pela narina direita. A dona do negocio, preocupada, ofereceu uma garrafa de agua e paninhos bordados com versos de amor.
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