Contario de inverno 10
10 luto e jasmim
Maja foi convocado, as narinas zombaram dele. Aconteceu quando o rapaz voltava do restaurante, a trazer o almoço que dividiria com seu professor, o Frei Narval. Duas horas para zarparem à Ilha da Madeira. Era sentar-se a um trapiche e apreciar as aguas, o céu, os passantes, um suspiro do que seria a Cacimba do Padre.
A atração veio de uma banca singular. Difícil ver, naquele sitio, a céu aberto, uma coletânea de livros tão peculiares. Dava a impressão de terem pertencido, os exemplares, a biblioteca de algum profissional da literatura. A mesa onde estavam expostos, dois metros por um, exibia cerca de trinta títulos, dispostos casualmente. A jovem vendedora permitia aos passantes folhearem alguns, desde que estivessem com as mãos limpas e fossem afortunados o suficiente, para levar ao menos o mais em conta. Os preços, aquém das expectativas, todas as paginas e bordas e costuras bem apresentáveis.
Tratava-se da mulher mais vistosa da praia a livreira. Uma bata branca a moda das ciganas e saia vermelho sangue, mais a descobria que cobria, o que tornava o espetáculo ainda mais saboroso. As pernas longas, fáceis de rodar e farfalhar com o vento. A maré subia, sacudia os tecidos com graça. Os cabelos, asas de graúna, eram jogados para trás aos cachos, revelando uns ombros sedosos, morenos. Tudo na face sorvia, a boca carmim em especial, os dentes muito brancos, expostos como vitrais. Ela cheirava a jasmim e sal. No momento em que Pan Wos se aproximou, a dama murmurava uma toada flamenca sua conhecida. Arrepiado, o rapaz baixou os olhos e deu com o Diário, vol I a IV[1].
Convocado é um bom termo. Quase um encantamento, quase ilusão, quase excitação, quase não sei mais que. O titulo o convocou. Poderia servir-lhe de modelo e guia, para seus rascunhos mediais. Nunca lera pagina alguma daquele autor, mais tarde lhe renderia homenagem em Sabrosa. Em meio ao turbilhão descompassado que lhe afagava o estomago, o sexo e o coração, o oficial perdeu a língua. Não ousou contato visual com a mulher, não podia denunciar-se, posto que lagrimas escorreram sem pudor. Por um instante, Pan Wos quis fugir, mas a vaidade o manteve firme a tocar, com os dedos, o babado da toalha onde os livros sorriam. Foi salvo pelo escândalo na rampa, onde o zakonnik se encontrava, em apuros.
Depois de resgatar Antônio Narval, uma elegância que só nele assentava, Pan Wos voltou-se para a banca, a uns cem passos, o frei aparvalhado a segurar-lhe o ombro. A jovem mirou o oficial com expressão impar, entre surpresa e fluida. Com a certeza de que o distinto senhor retornaria, para o resgate do livro e da dignidade ela arranjou, em uma sacola do mesmo tecido e cor da saia, o Torga namorado, mais dois volumes da coleção[2], Portugal[3], bem como um rolinho com lenços bordados, amarrado por uma fita azul céu e vermelho sangue. Dentro do pacote ia um papelote com seu nome escrito, um endereço de comunidade cigana em Barcelona e um jasmim seco.
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