Contario de inverno 11
a voz de Antônio de Almeida
A vida do marinheiro, branca flor
Que anda lutando no mar com talento
Adeus, adeus, minha mãe, meu amor
Tenho esperança de voltar com o tempo
Antônio de Almeida foi chamado ao comando, na Vila dos Remédios, Fernando de Noronha, para receber os pêsames. A esposa, Sofia Alcântara, falecera naquela manhã em Lisboa. O capitão esteve ausente do lar por justos quatro meses. Estranho, onde é o chão de um oficial da Marinha. Se algum dos leitores deste contario é marinheiro, pode, por gentileza, nos segredar.
Após a missa, era domingo dos cravos, na igreja que os consagrou, Antônio deixou a esposa, um tanto febril. Era dia de partida, ação familiar para ambos, o tempo exato para Sofia qualificar sua tese de doutorado. Ela já havia feito alguns exames, nada grave aparecera, apenas uma leve oscilação na contagem de leucócitos, nem se configurara a leucopenia.
O casal aparentava união feliz, estava junto há quatro anos, de comum acordo com as lonjuras, não tinha filhos. Sofia era professora de idiomas na Universidade de Lisboa, especialista em romances do mar, no auge de seu discernimento e alegria. Apesar da contingência, as famílias se irmanaram no afeto e deram apoio aos dois, presentes e prestimosos todos, inda mais quando o oficial estava em viagem. Os dois grupos eram de regiões distantes, um da Freguesia de Sabrosa, outro de Faro. Os encontros da parentela aconteciam na capital e, amiúde, os chás, bacalhau a lagareiro, batatas ao murro eram servidos, regados a vinho verde e selados a vinho do Porto, não sem muitos pastéis de Belém para intermediar.
O luto é um sentimento que lembra gato assombrado na madrugada, daqueles que não se prestam a caçar. Há os homens competentes para o viver e os que vagam ao luar, sem nada sentir, querer, contaminando todas as rotas que vierem a seguir. Não é possível saber o que vai no coração de Tonino no momento, carinhoso apelido que Sofia lhe deu. Quando pisou a rampa do seu Ligaya, tinindo de nova, sem rangidos, o homem do mar era pelo de gato caído na farda. Mesmo assim, o rubor lhe voltara às faces. Já a bordo, sem aviso, o capitão desmoronou, hipertenso.
Por sorte Acyr, que percebera, desde aportarem, algo não ia bem, pode amparar a queda e gritar ao imediato mais próximo, o Saldanha, que logo trouxe a maca de lona e o superior foi levado ao píer de enfermaria. Sem ansiedades ou precipitações, o doutor Himari auscultou, tomou a pressão, aplicou duas agulhas e o capitão voltou à lucidez ritmado, serenado. Era jovem, suportaria o revés. Então, um copioso pranto se manifestou. A enfermeira, imediata Albertina Vaz, prontamente trouxe a Tonino um chá de macela, que auxiliou na expressão primeira da dor. Alguma alopatia seria necessária, por ora vinham os socorros naturais. Como o homem choroso não falou, sentiram de respeitar seu silencio, era o mais adequado naquele instante.
Pan Wos e o Frei meteram suas caras no ambulatório uma hora depois do atendimento. Ia tudo atrasado para a partida, o Ligaya carecia comando. O capitão de cabotagem, José da Silva, reuniu os oficiais da náutica e das maquinas para ponderar. Jamais tomava decisões sozinho, assim era o seu ideal. Sem tardança, o escriturário conferente Jean Bodin e seus auxiliares prestaram conta ao capitão Silva, de modo que ficar aportados mais dois dias não representava prejuízos eloquentes à missão. Assim foi feito. A mestre de cabotagem Julieta Aragon deu as ordens no convés. Tudo era paciência.
O navio funcionava do humano ao mecânico, do aço ao eletrônico, em perfeita sintonia. A Marinha Mercante soubera reunir, no Ligaya 1, oficiais e patentes afins, até parecia mentira que a vida no mar fosse torrencial.
Vamos encontrar Antônio de Almeida, já de pé, a cantar junto à torre de comando. É noite de lua, o céu estrelado[1]. A voz do enviuvado batia contra as ondas e as calava por segundos.
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