Contario de inverno 6

Nos passos de graneleiros
Maja Wos não soube mais de sua mãe azul. Contentou-se com a nova, vermelha, mais parecia uma chama a sorrir. Ninguém se iluda, mãe é mãe. Em Zacopane, não deixaram que o menino visse as lamparinas, os lírios, o corpo, tampouco a lápide, tão rápido aconteceu, tão rápido Anninka o levou e protegeu. O mundo pode ser bem feio e gelado quando quer, pode inspirar rotas de fuga certeiras e, sabemos, foi isso o que se deu com Maja.
Da parte do garoto, deixar na casa amarela o barco esculpido em madeira não foi de livre vontade, entretanto pareceu um sinal de futuros, quem sabe a mãe azul voltasse um dia, para lhe presentear com o brinquedo outra vez. Pouco dado a choramingas, o menino aceitou bem as soluções que lhe foram impostas. Logo, cobriu-se com uma manta de marta e tentou dormir no aposento com mais dozes crianças, talvez em condições menos favoráveis que a dele. Até pensou em levantar-se, naquela primeira noite na casa lar, colocar mais lenha na lareira e ninar um bebê aflito. Anninka veio logo e seu acalanto aquietou a todos.
Sobre o homem tonto de vodka, o que orava versos desconexos a Vanir[1] e agredia a mãe azul, não tinha muito o que dizer. Só sabia não se tratar do pai. A vida de uma mulher de caravana é insólita, misteriosa e dura. Do homem que colaborou para que Maja nascesse, nada soube.
Quando o Oficial Maja Wos entrou no dormitório, Narval estava recostado a uma manta, um prato de mingau sobre o colo. Macilento, o frei recuperava as forças devagar, também a lucidez. Bar’do, do seu posto na escotilha, bateu palmas entusiasmado. Quem sabe a historia tornasse a fluir a partir daquele momento. Maja tomou da colher e serviu o amigo, com ternura e desejos de perdão. A prece, que improvisou em voz alta e nem era muito boa, fez o Frei sorrir
Jesus, Querido
exemplo de mansuetude
eu Te acompanho
lembranças de passarinho
O sol foi para o Japão tem tempo
e nesse outono friorento
sou espera, sou pausa, cadinho
Sou semente meditativa
do peito ferido
Quem sabe eu tenha culpa
e afaste quem poderia amar
Não é nada parecido
Só os gatos eu não vejo
sei que é melhor perdoar
Pronunciado o assim seja, um silencio de enseada acolheu a ambos. As memórias da Barceloneta jaziam, a salvo, em cadernetas de espiral multicor. Quantos anos se passaram? Duas décadas, se tanto. Uma surpresa para todos, o frei partir em missão brasileira, feito fugitivo. Quase que o adeus deixou mágoas no rapaz. Maja pretendia ingressar em convento franciscano, Largo da Luz, Lisboa, no final daquele ano, receber instrução coerente com sua conduta austera, solidária. Aquela separação soprou-lhe novos ventos e quem poderá dizer, se melhores, piores. Os ventos marinheiros, de contar sacas de grãos. No fundo, o polonês seguia os passos da mãe azul. Um pouco da mãe vermelha, se refletirmos bem.
Logo ficaria lucificado, a terceira infância de Maja Vos correu bela e fecunda, como vento praiano. Troska revelou-se pai amável, doou o idioma, a Enciclopédia Britânica, uma esquadra de pequenos navios, as aventuras do capitão Nemo, os Lusíadas, Willian McFee e tudo o que contasse aventuras no mar. As cadernetas, escritas pelo menino em Espanha, jaziam em baús livres de traças. Quando houvesse sol, seriam reveladas a um amor novo.
O Frei quis erguer-se do catre. Com certa dificuldade, amparado pelo aluno, aproximou-se da escotilha. O sol de fim de tarde, a animação na praia, os últimos burburinhos da Festa do Divino, tudo corroborou para um silêncio de solenidade. A vida acenava com tons róseos, com alegria. Se falassem agora, nenhum grão de poesia romperia o solo das premonições. Era mais digno respirarem o mesmo ar e esperar, o dia propício para florir ocorreria em alto mar.
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