Contario de Inverno 5


esperança


 

 

 

A escotilha aberta do Ligaya deixava entrar o ar do cais, mistura de amônia, algas e cocada. O doutor Himari havia recomposto o yin daquele homem tão magro que não aguentaria a brisa ou as ondinas. Fizera um mapa com onze agulhas, uma para o baço, outra para os rins, outra para os pulmões muito fracos, outra para o coração, também estomago, fígado, uma no crânio, na esperança de que o paciente fizesse foco, uma a que chamou triangulo de Buda. Uma para recompor o TI, outra para aquecer o corpo, outra para melhorar a circulação sanguínea. Espasmos aparentemente musculares moviam aquele esqueleto careca, fagulhas sutis podiam ser vistas por olhar arguto. Os grandes ocelos do moribundo se abriam, mas não havia gente lá. 

 

Himari se perguntou por onde andava a alma daquele sujeito. Seus princípios filosóficos e científicos davam apenas um pequeno espaço para a religiosidade.  O doutor entendia, contudo, que o serzinho a balouçar os pés calçados em estranho par de sapatos sugeria um guardião, nem do sim, nem do não. Estava sentado na escrivaninha, ao lado de sua maleta, não media mais que quarenta centímetros. Cara travessa e irrequieta, vestido com um colete verde musgo, camisa bufante e pilcha. Alma sonolenta, retirante, despida de livre-arbítrio, caro doutor, foi o que o vento soprou. 

 

Bar’do expressou-se em perfeito basco, na fidúcia de ser captado. O livro tibetano do viver e do morrer aparecia dentro da pequena sacola, que não era de juta. O trasno resolveu fazer daquele momento um episódio. Ergueu o livro de capa vermelha e o soltou com estrondo no piso do navio. A pagina aberta indicava o capitulo quatro. Himari, entretido que estava com suas observações, pouco foi afetado pelo ruído, que percebeu distante e fora de sua realidade. Isso não era coerente com uma atitude de médico. Naquela manhã o profissional carecia mar. Sentia-se um tanto agastado, a energia custava a verter, verde, os meridianos a cintilar impulso corajoso, assertivo, um ao menos, que aceitasse até a ultima gota de esperança.

 

Sem informações sobre a criatura de que vinha tratando há quase vinte sessões, a pedido especial do capitão, Himari usou, nos últimos dias, uma conjugação a que chamou feijão com arroz. Engana-se o leitor, se pensa tratar-se de placebo. A combinação daria mais suporte à decisão tomada, que era ajudar aquele akuma a trocar de reino. O Bar’do queria informar que não era esse o caso. Estava ali, na abertura dos quatro primeiros capítulos daquele manual de bem passar, este era o real objetivo do tratamento. Bar sapateou sobre a mesa, guinchou, mugiu feito bisão e nada de captar atenção. Se o médico estivesse realmente atento, teria flagrado um breve sorriso na cara morrente do Frei.  Vinte minutos se passaram, já estava bom para aquela aplicação. O doutor retirou as agulhas, desinfetou cada ponto,  meditou sobre o Tai Yin. Voltaria dois dias depois, para confirmar algumas suposições. Viu o livro sem ver, deixou-o caído ao lado da escrivaninha. 

Um sonho turbulento invadiu o Frei Narval, através do ponto os quatro cavaleiros[1]. O colégio franciscano onde Maja Wos foi matriculado, as aguas esmeralda da Barceloneta a cintilar pelos janelões. Na lousa negra, um poema de Federico Garcia Lorca, indicado para uma classe cinco vezes mais adiantada que aquela onde os piazitos gorjeavam. Somente aquele menino, de visão austera e longínqua, tinha prestado atenção ao recitativo. Nem bem Narval concluiu o ultimo verso, a voz infantil tratou de dizer outro, par coeur, de um escritor polonês. Só depois, ao vasculhar a biblioteca, foi que o Frei soube tratar-se de um poema de Świrszczyńska [2]

Lhe dei o sofrimento, embora quisesse tanto lhe dar a felicidade. 

E ele recebeu-o delicadamente, como se recebe a felicidade. De dia
o mantém sobre o coração, dorme com ele de noite, ama-o, assim como a mim.
Ele é, mais que eu,
digno de amor,
mais puro e fiel. 

Vejo como lhe carrega, as costas
curvam cada vez mais debaixo do peso, 

vejo com os olhos inundados de lágrimas. 

Como carrega o sofrimento, que lhe dei,
embora quisesse tanto
lhe dar a felicidade. 

Foram as primeiras palavras de Maja, audíveis sem ruído ou falha naquela classe. Frei Narval teve impulsos de abraçar o pequeno, todavia temeu que o mutismo retornasse. O professor fez um engraçado sinal com o dedo sobre os lábios, para que os colegas ficassem em silêncio. Tal gesto só fez o estardalhaço ser maior, entre gargalhadas, tapinhas amigáveis e felicitações. Maja tinha um poder encantador sobre todos. Não havia quem não se apaixonasse por ele, mesmo com seu jeito calado. Ele dizia mais com os olhos que o mais instruído dos professores da instituição de ensino. Narval tinha esperanças naquela criança. 

 

O sonho fez com que o Frei se movesse no catre. Abriu os olhos devagar, mirou em demorado cada mão, cada braço. Ergueu um pouco o tornozelo direito, onde ainda podia sentir um sinal da energia yang que voltara a circular.  Levantou-se com muito cuidado e deu com o horizonte pela escotilha, o meio-dia em festa. Teve uma vontade irresistível de provar o caldinho de polvo, cujo aroma flutuava leve e faceiro. Sobre a escrivaninha o livro aberto. Sobre ele, uma caderneta, também aberta, firmada por um pote transparente, onde boiava um lótus. 

 

 



[1] Conjunto e pontos extranumerários conhecido como Si hen Cong.  

 

[2] Anna Świrszczyńska (1909-1984) 

 

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