Contario de inverno 4
A viagem de trem
Zakopane dormia, o imaginário de menino a pintou de branco, uma única habitação amarela ao fundo, fumaça a suspirar pela chaminé. Ficou lá seu barco, talhado pela mãe, pintado de anil. Ficou lá o gato, Troska. Ficou um homem adormecido pela vodka, braço descaído sobre a mesa. A cidade se despediu da criança doada que faria cinco anos em julho. Foi o dia mais frio de sua vida. Um casal, de Pontevedra, o levou da casa lar pela mão, muito devagar, para que ele não se assustasse. Não houve necessidade de muitas acolhidas ou lágrimas. A senhora Anninka estava satisfeita, encontrara por acaso aqueles dois iluminados. Era difícil adotarem menino crescido, ainda mais mudo. Anninka sentiria falta, mas era melhor assim, quem sabe houvesse um futuro para ele.
Alternavam, os novos tutores, sussurros que ele não compreendia, amorosidades que só se tornariam confortáveis meses depois. A mulher, de cabelos negros, parecia saída de capa de revista. Ele a vira mais vezes que o homem, comprido feito cipreste. O coração do menino parecia trovões ameaçadores na colina. Era natural sentir medo.
O trem, confortável e simples, um cheiro de ferro novo, poucos passageiros. Um cidadão desagradável contava uma anedota absurda e sem graça, de uns vikings que paravam trens em meio ao gelo e saqueavam os passageiros, levavam as mulheres bonitas. Ria sozinho, o coitado. Imprudente, escorria um olhar lascivo para Inezita, esse era o nome da mulher que entrou na vida de Maja Wos, a própria perla flamenca, a mãe vermelha, ele, que nascera de vaso sagrado e azul.
Bernard, um gentleman, envolveu a esposa em abraço protetor, puxou um manto para cobrir-lhe o corpo e Maja para o colo. O casulo obrigou ao fanfarrão calar e encostar a cara no vidro, amofinado. Logo pegou no sono. A nova família, abençoada pelo ritmo dos trilhos, respirou em paz. Pela primeira vez, o menino entendeu o que significava comunidade. Um calor estranho invadiu seu coração, algo que nunca sentira e fez bem. Aninhou-se naquele peito gigante, que cheirava a tabaco de cachimbo e ronronava. Nunca contaria isso, mas, para ele, o nome do padrasto passou a ser Troska. O trem se dirigiu, o veloz que podia ser, para Cracóvia. No dia seguinte seguiriam em outro, para Barcelona.
Chegaram à Kracøw Gløwny uns minutos passados das dezesseis. Inezita convidou Maja, se queria andar, passear pela neve. O polonês dela era perfeito, com leve sotaque. Encabulado, pequenino para sua idade, confortável a um metro e oitenta do chão, acenou que sim com o olhar, a mão a encobrir parte da boca, um novo gorro, enfeitado de ursos, que lhe dava aparência jovial. Agarrou-se ao pescoço de Bernard quando este ia lhe por no chão. A reação não poderia ser mais amorável. O biscoito e o gole de chá, durante a viagem, não foram suficientes para aplacar a fome. O estômago delatou a criança, as sardas ainda mais visíveis no rosto bondoso. O ronco forte fez todos sorrirem. Aquela lonjura do chão era uma benção, permitia ver mais do que a retina podia captar, muitas gentes, bochechas vermelhas, todos encasacados. Os prédios de tijolos amarelos guardavam muitas memórias, muito poucas conhecidas por Maja. O casal se dirigiu a um café, onde foram bem servidos. Para Maja, uma cadeirinha alta, com mesa embutida. Nunca tinha visto tantos doces juntos, nem em dia de festa. Comedido no comer, sempre preocupado com o dia seguinte, o menino achou prudente e sorriu, quando Troska lhe segredou que levaria duas massas daquelas para o hotel onde passariam a noite.
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