Vértebra final
Porto de Salvador. Obra de Giuseppe Leone Righini
Dc1 abyara ou o suporte
A jornada é doce, assim como seu fado. Nada de fardos rezingados. Um jeito simples de dizer, Mãe-do-Rio, que o trabalho é bom. Inda há pouco, houve o sonho com a rosa dentro do livro, que contava de meus esforços para entender a impermanência das coisas, o ocaso das histórias que são apenas respiros, a aguardar outras. Águas fluviais.
Vejo os sinais da velhice e suspiro, há quefazeres e, quem sabe, sejam mais espinhosos, mais pucas. Rio de mim, silêncio, quanto já arrematado, outro tanto desfiado. Meus guardados amortizados, minhas virtudes poucas. Minha Isi. Entre calmarias, contemplo o farol, melhor dizer no plural. Lavo a louça do café, o muro e seu musgo a cantar. Hábitos brandos, silêncio. O símbolo da caixa de terra a escorrer sobre mim. Xaxim Verdadeiro, cismarenta, fechou seu caderno e pensou no frei, na palafita da travessa às margens do Eiru.
Quando Frei Aín subiu a bordo do navio de carga, em Salvador-Bahia, sabia que teria cerca de vinte dias para contemplar o Atlântico.
A lide no Iaraçu, vários anos passados do evento, o olhar os cientistas, também o seu costume de cismar, acendeu em Aín outra vez a força religiosa. De balde e esfregão em punho, o frei fez-se auxiliar dos faxineiros. Era preciso voltar um pouco no tempo, para entender o arco viajor.
Depois que Kauany voltou para sua aldeia, o Padre José cedeu alguns trocados a Aín, para uma passagem de ônibus até Recife. Na capital, o frei limpou algum banheiro, até conseguir condução para Salvador. Ainda não tinha planos, algo se quebrara em seu silêncio. Msmo assim, puro esforço, coração limpo, pode enviar um donativo à igreja que o capelão conduzia, em paga pelo empréstimo. Então chegou a hora de subir no cargueiro. A prédica de sempre, escrever quadras para os namorados no cais, norte dos passos do frei, lhe abriu caminhos. Ele fez amizade com os marinheiros e tomou a decisão em uma sexta-feira santa.
Ninguém contou ao frei que em Salvador ou na Espanha, o mundo íntimo era quem mandava. Aín voltaria para casa. Quem gostou da ideia foi o mentorzinho Bar, que chegou ao Porto de Salvador na carona de um joão-bobo. Esteve ausente da vida do frei desde os tempos dos Fulni-Ô, ou daquele dia de correria pelos bancos da igreja de Salgueiro, já não lembrava mais. Feliz, o trasno retornaria à sua pátria.
O bico fino da ariramba apontava para o leste. Isi’po olhava para o sul. O velho Selim lhe deu notícias do Dr. Silva e da Dra. Maria. Ambos clinicavam no bairro do Morumbi em São Paulo e eram professores da Faculdade de Medicina na USP. Sabedores dos desejos da menina, mostraram-se dispostos a instrui-la nos rudimentos do ambiente hospitalar. Isi’po não estava segura de sua decisão. Sentia o impulso de olhar outro cenário, outras temperaturas. Escrever em outras cercanias. Nada na moça sensível lembrava o pai, o índio Tijuca. Como Xaxim Verdadeiro poderia pesar ancestralidade naquela perda que ia sofrer?
Xaxim Verdadeiro não achou prudente conter o movimento da filha, como queria Jade. O turco alertou Byr, sobre o fato de Tijuca ser homem. Ser invisível, para os homens, era plausível. As mulheres ficavam expostas, pelas circunstâncias do gênero, pela etnia. Isi, tão capaz, poderia desaparecer, que é diferente de ser invisível. Byr, Byr, Byr, o coração de Xaxim Verdadeiro cantava. O Universo, devassável pelas fotos dos satélites, ensinava que tudo se movia, orquestrado pelo cirandeiro maior.
O rapaz chegou da Itália aos quatorze anos. Natural de Bagnoreggio, veio ao Brasil com o pai e um irmão de costas arcadas. Foi morar em uma cidade paulista chamada Guaimbé. Trabalhou em fazendas, foi colono. A madrasta, daquelas caipiras que iam à missa todos os dias e que, por isso, adquiriam poderes mágicos, fez a família vencer. Compraram as terras aradas. Devotos de Santo Antônio, eram muito corretos, diligentes na condução dos tutelados. Giulioni estudou. Completou seus vinte e três anos feito médico, pela USP. Foi ele o escalado para buscar Isi’po no aeroporto de Guarulhos naquela sexta-feira santa, escoltado pelos mentores Gaetano e Donis.
As jornadas, todas, parecem expressões icônicas do quinto ano de idade. Ali já se risca a casinha tradicional. Alguns sabem juntar ao desenho uma capela, árvore, sempre-vivas raquíticas, gramíneas ralas, às vezes cerquinhas, o sol em geral do lado esquerdo, os polígonos de cinco pontas. Montanhas no horizonte já anteveem um arquiteto ou, no mínimo, mestre de obras.
Os rabiscos desta narrativa são contas de pirarucu. Aumentou-se um ponto aqui e ali. Faltou cantarolar que, naquela sexta-feira santa, após o telefonema de Isi’po a avisar que chegara bem na capital de São Paulo, Xaxim Verdadeiro, o vestido de flor sobre a pele, saiu de bicicleta no final da tarde. Tomou os rumos do rio Amazonas e só parou cerca de quatrocentos quilômetros adiante, no platô da Serra da Valéria.
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