Contário de inverno (apresentação)
Vincent Van Gogh
À maneira de apresentação
Sou grato, por tudo. Também eu fui convidado à porta sem espelhos, sem Estrela Polar, sem Marias, elas comigo, célula a célula, enquanto tomo notas à bordo do Ligaya 1. Ah, Simão Pedro, quem captou teu olhar duro de zelote? Ah, eu, por que ainda insisto em me esbagoar? O inverno me aflige mais, a cada ano. Louvado seja o Cirandeiro Maior, que presenteou saias de chita, lavandas e pianos. Neste domingo, a Páscoa parece um sino solitário a soar em Zakopane, terra de nascer. A lua esteve sobre mim na madrugada, escotilha aberta, quase lhe pedi que me permitisse dormir. Creio, ela acalantou. Espírito meu, bom que és, lapidado por tanta ciranda, aceita a tua jornada, dá de beber aos filhos das outras estrelas, sem reclamar. És tu a sentir saudade, dúvidas, mágoas, és tu, aquele que poderá aprender a amar. Não façamos das águas outra prisão.
Ainda não sabemos de quem serão as histórias que contaremos, se dos mares, das viagens comerciais, dos retornos, dos novos hábitos, esses que os religiosos de algumas ordens usam. Histórias de reconciliação, salvo condutos, conversas em embaixadas, em ruas de Lisboa, Barcelona, Varsóvia, Amsterdã, portos das capitanias do Brasil. Partitas barrocas, perdas, danos, ainda não sabemos. O elenco um foi previamente escalado. Aguarda, estuda, respira.
De uma coisa, contudo, estamos certos. O recolhimento, diante da página, é nosso remédio para a mente, para o coração. O corpo físico precisa exercícios. A imaginação o fará nadar tantas vezes que, esperamos, seja possível aguentar o repuxo, sobre cascos e comportas e sacos a granel. Alguns meses hão de passar, nós em franca satisfação. O sal, o sol, o vento, a tempestade, o horizonte. Espera e faina.
Gostaríamos de manter a escotilha do Ligaya aberta, para algum notívago que precise de azul de metileno. Tomara, ele possa alcançar o vidro na mesa de cabeceira. Um alerta: o aparelho de fototerapia, na maleta meio aberta, pertence ao doutor Himari. Para que o unguento faça efeito, é preciso aplicar a fina ponta, mil agulhas, sementes e Artemísia. Agora, a novidade dos infravermelhos e de que a Lua dispõe de cores. Só o doutor conhece o procedimento.
Em tempo, demos voz, também, a seres que não é possível ver, narradores potenciais, de natureza pueril, para criar leveza. São personagens, no geral, vinculados a contos da carochinha. Um deles já está nesta Companhia há tempos, abre este contário.
Perguntamos: quem é que pode realmente ser visto, recebido em uma manta da Marinha Mercante, se não for pela caridade da leitura? Aquele tu, que ainda visita escrivaninhas virtuais, sê bem vindo. Gratidão, por assinar a lista de presença e permanecer conosco. Boa viagem.
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