Contario de inverno 3







Continuidade ou erro

 

 

Em algumas ocasiões, é difícil saber se voltar do sono é o que se deseja. No limbo em que nosso Frei se encontra, deixa-lo a mercê é perigoso, podemos gerar o que se chama erro de continuidade. Hoje, a passarinhada marinha conclama algum evento. O azul do mar chega a doer as vistas, e não há notícias de que trasnos usem pincenê. 

 

Sempre penso em alguém para chegar. Para mim, a sensação de que é alguém a quem precisamos oficiar um jantar de boas vindas. Um baile de máscaras, seria bonito, com direito a bulleria, sangria e paeja. Buscar um par em meio à profusão de almíscar, assim escuto os comensais a suspirar. Olha, o sapato da bailaora engastou no paralelepípedo. Que guitarrista. Em que porto estamos? Beijar na varanda. Eu sou o Bar’do, se lembram? Óbvio, chegamos nós por conta e risco, invisíveis, a bordo do Ligaya 1 nesse braço de Brasil, famoso pelas luas de mel. Humanos tão tolos, nós mais, por tê-los por companhia. Coragem, posto que todos respiram com dificuldade nessas horas, como se o ar, ou moqueca de frutos do mar, não fosse suficiente para todos. Condução para o Teju Açu, fazer check in. Viva, a escola Terra ensina a ser forte. É quarta-feira. O mês, abril, o ano, perdi as contas. Tenho, pelo menos, quatrocentos anos, na contagem dos basiliscos. 

 

Roupas de cama na lavagem. 

 

Dia da terra dos preamar, se comemora aqui. Os corsários acabaram de aportar, seguros de que a praia seria deles. Os aborígenes espiam os ‘deuses’ exaustos, Narval e sua luneta de ver longe, Endrigo Cusma, pena e pergaminho em punho. Talvez seja dia para esquecer, eu queria saudar, a todos os flibusteiros e suas bravatas salgadas. Ismael, o Anjo. Jesus, perceptivo, esperança pura. Na terra dos que esperam barcos, vestidos de vento, a religiosidade floreia, em tufos de asper. Gente sorri, canta. 

 

Olha, piquetuchos a ciscar as sementinhas entre íris-da-praia, ainda não pipilam. Logo virão coquinhos. Começo a me preocupar com quem escuta esta arenga. É que estou faminto. Malika ficou com medo de mim, recusou-me um naco de pão. O protetor dele avisou, não havia o que recear. Mesmo assim, o pão permaneceu dentro da cesta, intocado. Sigo varado.  

 

Por sorte, a menina  que eu não convocaria para elenco um, assim que a água caiu sobre seu corpinho, aos dois minutos antes da seis da madrugada, parou de me advertir, eu quereria ‘reinar’ feito ela, achando o dia pesado e querendo voltar ao folguedo do feriado fúnebre, um enforcado brasileiro. Graças, a menina sossegou. Só se ouviam os saltos firmes, em piso de madeira, suponho, fechos e cliques. Durma com um barulho desses. Hora do check out. O que eu fazia enrolado no tapete de entrada da Pousada Lua Bela, vai-se saber.  

 

Saquei meu jogo de botões e, em meia hora, juntei milhões em marfim, vontade insana de ir ao reservado. Muito brilho, ter tanto dinheiro nas mãos, seria compromisso coletivo, caso se tratasse de riqueza real, não se pode estar entediado com uma soma dessas, tampouco pensar em si. Lembrei-me daquela sacola de juta, o Frei não mais a possui. Puxa, a menina acaju já perdeu o direito de choramingar faz um tempo. É banhar, meio dorme, meio chora e ficar quieta, sob o olhar frio da mãe, e ir estudar as letras, os números e habilidades manuais em outra parte do mundo.  A mãe da menina cabelo é decente, do jeito dela. A menina, já não sei, um dia será chocadeira, terá um companheiro compreensivo, barítono baixo, para acompanhá-la ao flamenco. Não consigo sentir algo de bom por essa gente, por gente alguma, algo de piedade, de confiança. Assim não se faz ciranda. Assim não cresce flor. Assim leve mágoa, breve tédio, Edu[1] a cantar, ainda acho bonito. Rezo mesmo assim, que as gentes façam do seu dia algo digno, como é meu dever honrar os alongamentos, três agulhas e olhares bondosos de Jesus que me foram presenteados. De onde conheço o Senhor Jesus? Outra hora eu conto.

 

Desprezo é o pior dos sentires, não cria poetas ou contadores ou jardineiros. Na parede vizinha de tudo isso, nada disso eu, duende envelhecido, com certa potência, impotente, e não é por imposição, tampouco escolha, desleixo. O presente que me coube, ficar aqui quieto, longe do mosteiro, do leprosário, do nosocômio e da travessa Alderdan dois passos. Todo o pó do perímetro faz a curva neste rapapés. Tomo um litro d’água pela manhã, é mais do que a minha estatura. Já vão estender a roupa, melhor, há uma fileira de secadoras, coisa chique neste graneleiro. Olho para a cabine, o Frei ainda dorme, em posição fetal.

 

Também eu gostaria de um folguedo faz de conta, nenhuma corda, nenhum carrasco, nenhum colar de pedrilhos ou espelho, nenhum ginseng vermelho, nenhum jogo de poder. Lá, na terra dos libertas, sob um loft estranho, mora estranha doação. Eu não me lembro do que ia dizer sobre isso, afinal. Não mandei flores para Ismênia naquele dia, ela me mandou hoje. Mandei flores a Julieta hoje, para as flores que ela mandou naquele dia, ou reiterou, algo de bom.  E assim, de prezo desprezo, vou girando a roda, como os gregos na ilha de Rhodes. Será que Serafina ficará tranquila até o festival do iguape?

 

O doutor Himari entrou na cabine. Não ouso seguir. Espero que o Frei permaneça na Terra. Olha, quem chega ao meu lado, um sanduiche de anchovas? Ave, Alcayaga, há quanto tempo!

 

 



[1] Referência à canção Meus pensamentos de mágoa, Edu Lobo

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