Contário de inverno 2
Veleiros
Deixei-me repousar em pleno meio dia, era início de viagem. O perfume das águas salgadas, o linguajar dos golfinhos a brincar ao lado da nave, tudo parecia indicativo de morte. Ninguém me avisou, pelo sim, pelo não, eu não me sentia só. Estive como que embebedado, a maior parte do tempo, talvez tenha recebido algum medicamento. Escutei gentes que passavam, se abaixavam e espiavam, sussurravam comentários piedosos. Aos poucos, o Antônio Inácio de Narval que estou foi tocando meu ombro, meu peito, meu nariz, meus intestinos. Hora de tomar uma atitude. Eu avisaria. Esperei o que pude, agarrado àquela manta acolhedora, um buraco em meu estômago. Perdi as contas da última refeição que pude fazer. Eu tinha cinquenta anos na ocasião.
De onde eu me encontrava, o horizonte brilhou de azul sem nuvens. O burburinho dos metais, das máquinas, lembrou um corpanzil jovem e alegre. Ainda não sabia se aquele reino era a Terra ou um novo lugar. Uma cruz de Pedro se fazia exibir na parede externa da sala de comando, onde eu podia enxergar o meu socorrista e o que entendi ser o Capitão da nave. Quando é que eu assisti àquele Felini? E la nave va?
Tratei de não enfarar o corpo, motivei a mente com apreço magnético, também um pouquinho de relicário, jeito de desviar a fúria dos aflitos que me beliscavam. O último profeta, Malaquias, ajudou-me a esticar os ossos, eu não estava deitado em uma caixa ou cama, era o frio úmido do metal que me recebia, limpo, hermético.
Alguma arenga sobre quatrocentos anos de silêncio. Então aquela estrela pujante no céu. Quando eu a teria divisado? Por que deixei de a seguir? Uma fala lenta, calma, de mãe, de avó, outro idioma. Fui feliz, por instantes. Assim, abri meus olhos e o mar aberto exigiu recomeço. A tarde azulinha. A costa, uma nuvem estendia a mão. Não era jade o verde das palmeiras, estava mais para garrafa, verde folha, já se entregava ao outono que sopra. O que senti foi serenidade, estava livre, de alguma maneira, difícil conclamar um sentimento assim.
Sentei-me com cuidado, tudo começou a girar. Eu não me poria de pé sozinho. Aproximou-se alguém, um imediato, que logo correu a chamar o Oficial Wos. Não demorou muito, fui honrado com a presença dele e do Capitão Antônio, meu xará. Cada um por um ombro, fizeram-me arrastar até o banheiro. Sentado em uma cadeira, senti a água a lavar minhas vergonhas. Logo que pude concatenar os movimentos sequei-me, vesti sem reclamar a camisa e calça de um faxineiro de bordo, calcei alpargatas que acomodaram bem meus pés, pus meus trapos em um saco de descarte, como foi recomendado. A toalha em outro pacote, que seria reunido a outros, na lavanderia. Estou me adiantando, conhecia tal serviço com a palma de minhas mãos, logo pude retribuir a piedade recebida com boa atuação.
Ainda carecente de apoio, fui conduzido ao refeitório, onde tomei o caldo mais revigorante, a alma agradeceu. Aconselhados a me deixarem quieto, todos passavam por mim, cumprimentavam sem palavras, o que me deu tempo para organizar as ideias, situar-me no tempo espaço, reconhecer minha condição.
Recordei, de pouco em pouco, toda a saga até a Bahia e a suave queda de produção experimentada, enquanto trabalhei no cais. Ali, as quadras de amor não resultaram tão surpreendentes como em outras vilas do interior. Era gente desprovida de afeto, que não se sensibilizava com denguinhos. Foi dessa forma que mendiguei, um acarajé ali, uma cocada acolá, às vezes um prato de farinha, um caju. Os papéis acabaram, o lápis virou toco, não pude mais raspar a cabeça, os restos do meu hábito puíram de vez e passei a mais um enjeitado na orla. Alguém me roubou a sacola onde eu conservava a carta do Bispo. Foi assim que Maja Wos me encontrou, eu sem ter como provar minha identidade, encostado a um trapiche, meio vivo, meio morto. O que deu nesse moço tão distinto para me olhar e acolher, ainda não me foi revelado. Fato é que estou no mar, a caminho do primeiro porto.
Queria dizer mais, porém o caldo me deu um sono diferente, desses que descansam as células, devolvem um pouco de vigor. O Imediato Acyr mostrou o compartimento que os trabalhadores do último escalão dividiam. Cinco, dos dez beliches, estavam ocupados. Fui conduzido a um, próximo a escotilha, grande conforto. Fiquei com a cama de baixo, justo. Ninguém estava no dormitório naquela hora, cumpriam suas escalas. Acyr deixou-me e logo depois chegou o doutor Himari, para auscultar, colher sangue e fazer algumas recomendações. Felizmente, eu não era novato sobre as águas, não sofri com os balanços que se tornaram mais fortes próximos à costa.
Antes de aportar, veleiros de muitas bandeiras a saudar o Ligaya 1, o Oficial Maja Wos tinha, em mãos, auxiliado pela Interpol, os documentos de que necessitava, para o reconhecimento de Antônio Inácio de Narval como cidadão espanhol, livre e idôneo, natural de Ciutat Vella. Para o Frei, uma volta lírica ao universo religioso e gratidão por ainda estar vivo, despertar a confiança de alguém.
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