Contário de inverno 1
A jornada no mar
Só o Oficial de quarto de navegação, Maja, poderia explicar aquela presença, o maltrapilho a dormir no convés. O navio, recém posto em águas atlânticas, tinindo de novo, vindo d’além mar, parecia desejoso de corrigir coordenadas, deitar para os peixes o fado. Não fora Maja, seria o fim para aquele humano em frangalhos, o escrevedor das quadras de afeto, cujos clientes eram gente do povo, Cidade Baixa, Salvador, Bahia, Brasil, também estivadores, marinheiros, acenos de cais. O que o Oficial Maja Wos disse ao Comandante Antônio de Almeida ainda não será informado, já que os abelhudos podem causar dissabor com um ai, e já se me estragam os começos da narrativa.
Sou Bar, um seu trasno servidor. Estarei aqui enquanto houver mérito, melhor, credibilidade para os fatos, atos, artefatos e olhares sem desdém que imagino poder descrever. Também eu trabalho por minha absolvição. Para mais tarde serão, igualmente, os tempos em que apareci na Terra, o contar da mãe que tive e quando a perdi, durante a quaresma. Depois, virá o eu me perder de mim. Depois. Uma vontade de dizer aos leitores que eu não era melhor do que sou hoje.
Sabe? Mesmo que me esforce, muito e muito, não sei contar histórias para crianças, inda mais quando moram dentro de cavernas quentinhas e nadam em líquidos esquisitos e saciam-se com uma mistura de carícia e embalo. Das estalactites, que contém outras substâncias, não me é dado falar para o momento.
Ando ansioso por um nascimento, há quatro meses eu soube que um amigo de folguedos está para voltar a este orbe. Fiquei bastante dividido, entre permanecer em correria pelos bancos da igreja de Salgueiro, uma comunidade pequena, perto da cidade de Recife, Pernambuco, Brasil. Se eu começar a falar sobre os dança-pés pela imbuia cheirosa e o barulho que intimidava os fiéis, devo perder meu visto para a Barceloneta.
Outro de quem quereria notícias, o jumentinho, esqueci-lhe o nome, aquele que carregava o santinho no pescoço. Não tenho permissão para visita-los, nem ao bebê por vir, nem à tribo dos Fulni-Ô. Tampouco posso pedir a colegas da mata que me ajudem a permanecer em seus corações, embora eu saiba que eles assim o farão. É por conta disso tudo, porque esse religioso a quem acolho, carecente de um banho de tina, precisa de ajuda, é por isso que vou a Portugal. E também porque simpatizei, no primeiro olhar, com este lindo espécime com nome de mulher, o Maja Wos. Talvez, lá perto da Ilha da Madeira, eu consiga um jeito de me comunicar com o mentor dele, provar que sou idôneo e bom, fazer camaradagem. Peralta, porém bom.
Aqui, neste graneleiro de impecável envergadura, há sujeitos muito cordiais. Encantou-me a bulha dos seres marinhos à volta deles, felizes com a viagem, ávidos por cruzar as água em paz.
O Ligaya I tinha a partida ajustada para as seis e quinze de uma manhã fumegante. A brisa, contudo, a brisa do mar. Os atabaques, as oferendas para a Rainha vestida de azul, a olhar-se no espelho, o Porto de Salvador, Bahia, Brasil. Terei saudade.
Maior do que qualquer coisa já vista na horizontal, o barco ia carregado de riquezas de comer e também de fazer anéis, telefones celulares, essas coisas. Um maquinário de fazer babar os povos do dinheiro. Trinta homens a bordo, entre tripulantes e passageiros. E este careca, cabeçudo, vestido de sacos de juta imundos, descalço, faminto, a quem eu jurei proteger, menos por afeição que por acerto de contas. Acreditem em mim, tenho pendores de cuidador.
Assim que o apito soou e a nave deslocou-se do cais, aquela moça sozinha a acenar com o lenço, um mi muito grave e profundo sumiu no ar. Senti no estômago algo diferente de tudo o que já experimentei. Se tivesse cor, seria violeta. Sabor, lavanda. Tratei de tocar os metais sem estardalhaço, não era hora para assombrar, nem essa a intenção. Ao que tudo indica, só eu conheço a identidade do trapelento que dorme inquieto e tem febre. Dez marinheiros já vieram espiar o pobre, não sabem o que fazer e Wos garantiu, deixassem que repousasse até poderem desperta-lo, alimentar e lavar. Que tivessem respeito, pensassem nos pais, avós naquelas condições. Deixa-lo embrulhado na manta e quieto fora orientação do médico de bordo.
Malika, chef da cozinha, foi orientado a preparar um caldo de fortalecimento, que desse ânimo a todos até a primeira parada, Fernando de Noronha. Foi lá que Maja fez a primeira tentativa de trazer o convidado à consciência. O sopro de humano, ao olhar aquela aparição linda balbuciou és Pedro? Tens a chave do céu para me receber?
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