Vértebra 56


ubarana


Dc3 abarana ou a lateralidade

 

Amerê, onde está tua mãe? Aracy voltou para a mata, Byr. 


Tem coisas que até quereríamos contar mais, mas não obtivemos autorização. Os tempos de sonhar eram bem ricos naquele ano de profecias. Todos pensavam que chegara o fim. As coisas não tem fim, poucos se lembravam. Já dissera Lavoisier, para que homens comuns tivessem acesso à contundente verdade. Parecia mais fácil se apegar a fatalidades, ou aguardar o milagre dos dias perenes nas pedras das cozinhas quentes. 

 

Aín sabia muito. Só não queria crer. Enfeitiçado, teve saudade do Igaraçu. Esquerda e direita andavam azeitadas, seu físico luzia. A moça aparecia em toda parte, como que envolta em sete véus, Salomé Dalila. Curiosamente não lhe pedia a cabeça de alguém ou nada. Cabelo, ele já não tinha. A índia dava, e dava generosamente. O tambaqui de banda fumegava na mesa de madeira rústica. O capelão fora dar extrema unção, só voltaria pela manhã. Cuidadosa, Kauany perfumara a água de vinho. No fundo da bilha colocara um nadinha de maca peruana. Como combinado, ele teria de pedir, coisa de seus intuitos. Depois do jantar, ela esperou com goiabada. Não demorou muito. Ele abriu um pouco a camisa, suarento. Ela o untou inteiro com dendê. Estavam às escuras, somente as achas do fogão a desenhar sombras. Esperou que ele tocasse seus peitos desnudos. Foi ele quem a puxou e escondeu a cabeça entre os cômoros. Depois mamou sôfrego, cada um a seu tempo, com capricho. Sutilmente amolecido, o frei aceitou o saco de farinha apoiando suas costas. Ele largou os braços. Ficou um pouco tenso, mas isso foi bom. Aceitou mais coisas, muitas mais a seu gosto antes da resposta vir. Kauany não emitia um único som. Uma hora depois, ele bem untado; a moça, a saia de chita lhe cobrindo as pernas. A brasa reanimada deixava ver os vultos vermelho laranja. Ergueu mais a roupa, de modo a que permanecesse ainda meio coberta, da cintura para baixo. Começou a mover-se com vagar. Estimulou os pontos certos e logo Aín estava pronto. Em dado instante, a mulher desceu de chofre, experiente, ao mesmo tempo em que massageava ventre contra ventre. Aín sabia não se tratar de êxtase religioso. Gritou e abafou o som com a mão. Mais encantado ficou quando a índia separou-se dele, ergueu o corpo com majestade, pôs-se de cabeça para baixou, pernas para o ar, dando pequeninos saltos com as mãos. Ficou assim algum tempo. 


O parecer deu asas ao ser. Ou deu escamas. Pela manhã, Aín devidamente lavado, vestido e largado no catre, a índia exausta mas vitoriosa, tratou de pedir benção e alforria ao capelão. Contou detalhadamente o que fez em confissão. Ela mandaria ao abaruna a irmã mais nova, para a lide. Padre José lhe perguntou se não se casava na igreja. Kauany falou da tradição dos Pancararu. 

 

Mais tarde, quando Aín deu com a nova auxiliar e o pato assado diante do nariz, soube que a pujança lhe fechara as portas. Depois do almoço, feito com esmero, o frei foi rezar na capela. Já era tempo de seguir seu rumo.

 

Madrugada. Yin-Yin foi surpreendido pelos luzeiros, que adentravam o vale, a senhora do manto azul celeste entre eles. Surgira um vaso carinhoso para o acalentar, assim foi dada a notícia. Era hora de retornar à Terra. Yin-Yin aceitou a oferta sem perguntar.

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